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Minha experiência no Ilú Obá de Min (subvertendo papéis de gênero no carnaval )

14 fev

Eita que faz um tempo que não contribuo com nosso blog! Como gosto de folia e de uma batucada, encontrei o tema perfeito para sanar essa dívida. Este ano tive a oportunidade e a alegria de tocar com o bloco afro Ilú Obá de Min (“mãos que tocam tambor para Xangô” em Iorubá). É lindo demais. Um verdadeiro espetáculo de dança e percussão que há sete anos toma as ruas de São Paulo durante carnaval, mantendo pulsante nossas heranças culturais afro-brasileiras. Uma particularidade do bloco é que a sua bateria é formada exclusivamente por mulheres. Homens também fazem parte do grupo e são muito bem-vindos na dança (para fazer um parêntese, adoro culturas em que os homens dançam, requebram, rebolam e não apenas conduzem suas parceiras. Homens são tão lindos quantos as mulheres dançando!). Para os desavisados isso pode até soar como uma inversão, pois o mais comum parece ser que os homens toquem e as mulheres dancem. Então … não é por acaso que a bateria do bloco é formada por mulheres! Suas fundadoras visavam sim o empoderamento das mulheres por meio do tambor. O bloco é uma das atividades da associação Ilú Obá de Min – Educação, Cultura e Arte Negra que nasce com o objetivo de preservar e divulgar a cultura afro-brasileira, e ao fazer isso buscam, uso aqui suas palavras, “abrir espaço para ideias que visem o fortalecimento individual e coletivo das mulheres na sociedade”. Neste sentido também organizam ciclos de palestras e debates com temas que contribuam com o combate ao racismo, o sexismo e todas as formas de discriminação.

Talvez alguns perguntem: mas por que só mulheres? Para mim, uma bateria só de mulheres é importante porque infelizmente os espaços de bateria, como tantos outros nesse mundo chato, costumam ser bastante machistas. De experiência própria, lembro de ser minoria na bateria da escola União da Ilha da Magia. Entre os coordenadores dos naipes (instrumentos) havia apenas uma mulher, nossa querida canhota Ana Terra, que manda ver na ala dos agogôs. Mestra de bateria, em escola de samba, eu desconheço. Fui dar uma pesquisada no grande oráculo e o Google “corrige” automaticamente para mestre. Até mesmo nos maracatus de Floripa, aonde a coisa já é bem mais equilibrada em termos de quantidade, não me lembro de ter visto uma mulher no apito. Bom, tirando pelo que se vê na televisão e nos destaques dos portais na internet, as mulheres do carnaval são as mulheres esculturais que adornam essa festa. Para mim, o Ilú é uma bela lembrança de que não só. Assim como os homens elas ocupam todos os espaços: bateria, coreografia, dança, canto, arranjo, composição. Pois assim fazem as mulheres do Ilú. E bem demais.

Para quem estiver pela terra da garoa no próximo carnaval, seria um grande vacilo perder. Esse ano mais de 8 mil acompanharam a saída do bloco, isso só na sexta-feira. Aquela noite, indo embora, ainda de figurino, muita gente sorriu pra mim, alguns até agradeceram, “mais um ano!” uma moça disse. Sinal que o trabalho dessa mulherada está consolidado e reconhecido. Eu que sou agradecida por poder tocar com elas. Logo abaixo, para mais informações, deixo os links para a página e Facebook do Ilú e um vídeo do carnaval de 2013.

Aproveitando o assunto, um outro fato me chamou atenção este ano no carnaval de São Paulo. Já que falávamos de homens que dançam, este ano, pela primeira vez no Grupo Especial das escolas de samba, uma escola trouxe um rei de bateria. Na verdade Daniel Manzioni desfila à frente da bateria da Acadêmicos de Tatuapé desde 2007, tudo indica que é o primeiro na história das passarelas. Acho que ele e a sua escola também contribuem para romper com esses papéis de gênero tão ultrapassados, porém arraigados no carnaval. Achei bonito. Uma pena foi a abordagem da mídia, as reportagens que vi logo tentaram transformá-lo num objeto sexual, como fazem com as mulheres, dando destaque para os procedimentos estéticos preparativos para o desfile. Pô, que saco isso! Mas encontrei uma matéria legal, de 2009, que dá destaque para o dançarino e para parceria com a escola que parece ter uma proposta um pouco mais progressista. Para quem se interessar eu deixo o link aí embaixo. Para mim, tudo isso se tornou ainda mais curioso porque fiz umas aulas de alongamento com o Daniel na academia aqui perto de casa, acho até que ele é um dos donos. Que coincidência, não?

Daniel Manzioni e Acadêmicos do Tatuapé
http://www.youtube.com/watch?v=-1sQtYNo0X0

Ilú Obá de Min

http://www.iluobademin.com.br

https://www.facebook.com/pages/Il%C3%BA-Ob%C3%A1-De-Min/125403590866610

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Divulgando a Marcha em Floripa

26 abr

Marcha das Vadias - 26 de março em Floripa

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“VIOLAÇÃO

(…)

b) Século XX

Para a mulher, a definição de violação é simples: todo ato sexual praticado em seu corpo, contra sua vontade. Isso independentemente de sua idade, estado civil, hábitos sexuais privados etc.

Para o homem é completamente diferente. Ele não define a violação. Nega-a conforme sua própria concepção das circunstâncias que envolvem o ato sexual praticado por ele. Uma “auto stop” que transporta em seu carro é suposta culpada e não vítima da violação sofrida.

Se uma jovem usa saias muito curtas, é que consciente, ou inconscientemente, queria atrair um homem, portanto é culpada.

‘Fantasmas’ de violação são atribuídos às mulheres, o que justifica que os homens tornem esses ‘fantasmas’ reais. Mas os ‘fantasmas’ de castração não justificam esse ato posto em prática pelas mulheres contra os homens. Que eu saiba, pelo menos.

Os juízes exprimem ainda freqüentemente uma ideologia tradicional masculina, quando chega até aos tribunais um caso de violação. É suficiente ler os inúmeros testemunhos reunidos num livro recentemente publicado na França. As atitudes judiciais e policiais com relação às ‘queixosas’ são de tal ordem que numa pesquisa empírica, feita em 1976, a polícia reconhece que somente uma mulher em dez ousa apresentar queixa.

A verdade é que não se pode saber, pois justamente as que escolheram … (escolheram?) calar, representam o desconhecido. Muitas guardam a vergonha em segredo, numa lembrança que as perseguirá sempre, quanto mais tentarem esquecer. Com mais razão se calam se o violador for membro da família. Menie Grégoire [radialista francesa, também contribuía escrevendo para revistas femininas], assombrada com o número de incestos em todas as classes sociais, a se julgar pelas milhares de mulheres que o confessaram em suas emissões radiofônicas, insiste sobre um fato revelador:

‘O ato sempre se passa na proximidade do resto da família (…). Forçada a manter durante dois anos uma ligação com seu pai, uma mocinha de quatorze anos retratou-se na ocasião do processo, sob a pressão de sua mãe, dos advogados, e dos magistrados: ‘Você quer então mandar seu pai para a cadeia, destruir sua família e ir parar na Assistência Pública?’.’

Num estudo aprofundado, Susan Brownmiller mostra como o estupro das mulheres do inimigo é uma tática de guerra e das revoluções, até mesmo no século XX. Demonstra a autora, com dados precisos, o estupro recomendado aos exércitos alemães contra a população belga e francesa durante as últimas guerras.

O estupro não servia somente para afirmar a vitória do inimigo, como também, numa propaganda bem orquestrada, intimidar uma possível resistência.”

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PRADO, Danda. Ser esposa: a mais antiga profissão. São Paulo: Brasiliense, 1979. Pg. 67-68.

Por ela citadas nesse trecho:

BROWNMILLER, Susan. Against our will. London: Secker & Warburg, 1975.

FARGIER, Marie-Odile. Le viol. Paris: Grasset, 1976.

GRÉGOIRE, Menie. Les cris de la vie. In: FARGIER, Marie-Odile. Le viol. Paris: Grasset, 1976.

As mulheres nas revoltas árabes | Iêmen

10 maio

Mulheres do Iêmen: Out of the shadows

por Nadya Khalife
tradução: Carol Cruz
originalmente publicado em

 

 

 

Milhares de mulheres levantaram-se em manifestações contra o presidente Saleh.

Apesar dos grandes riscos que correm vivendo em uma sociedade machista, milhares de mulheres levantaram-se em manifestações contra o presidente Saleh.

“Membros das Forças de segurança trajados de civis me ameaçam com uma jambiyya, não somente durante as manifestações, mas em qualquer lugar que vou”, me disse a líder do protesto e jornalista Tawakkol Karman, referindo-se ao punhal tradicional que os homens do Iêmen carregam na cintura.

No passado, qualquer menção nos noticiários sobre as mulheres do Iêmen geralmente tratavam de duas questões, nenhuma delas positiva. A primeira é de que a chance de morte durante o parto lá é muito maior do que para a maioria das mulheres no Oriente Médio. E a segunda é a de que elas se encontram entre as mulheres menos empoderadas do mundo.

A segunda proposição foi recentemente derrubada pelos levantes no Iêmen.

Desde o início dos protestos, mulheres como Karman tem saído às ruas em grande número para se manifestarem contra o presidente Ali Abdullah Saleh, que governa o Yemen há mais de 30 anos. Elas estão, ao lado de dezenas de milhares de homens iemenitas, enchendo as praças de Sana’a, Ta’izz, Aden e outras grandes cidades exigindo a renúncia.

Tamanho tem sido o poder da sua presença, que Saleh se sentiu obrigado a acusar as mulheres que se juntam aos protestos de não islâmicas, por manifestarem-se ao lado dos homens.

Os protestos deram as mulheres a chance de expressar suas próprias preocupações com as suas batalhas do dia a dia contra o governo de Saleh. Incluindo aí seu status legal subalterno, no qual permanecem como eternas menores que precisam estar sob a guarda dos homens, e a persistência de práticas prejudiciais como o casamento infantil.

As mulheres realizaram suas próprias manifestações, mas também protestam junto de seus compatriotas homens exigindo democracia. Sua coragem tem um preço: as forças de segurança e homens pró-governo à paisana têm ameaçado, insultado e atacado as mulheres manifestantes. Ao menos 109 manifestantes pacíficos foram assassinados no Iêmen desde de que a onda de protestos começou, em meados de Fevereiro. Centenas foram feridos.

É certo que os manifestantes homens são mais visados, mas no Iêmen as mulheres estão particularmente vulneráveis a aos ataques. O Iêmen é uma sociedade tradicional na qual a mulher geralmente têm uma condição social baixa e é excluída da vida pública.

Em 2010, uma reportagem feita pela Freedom House, sobre as mulheres no Oriente Médio, destacou o Iêmen como um dos três países da região que, nos último cinco anos, fracassaram em realizar avanços significativos em relação aos direitos das mulheres. As mulheres nunca tiveram mais do que três cadeiras das 301 na câmara dos deputados do parlamento, elas não tem os mesmos direitos civis que os homens e a violência doméstica continua não sendo considerada um crime. Ativistas dos direitos da mulher continuam a enfrentar violências.

Neste contexto, muitas mulheres temem as consequências de sua participação no levante contra Saleh. Uma jovem ativista em Sana’a, que não quis se identificar, me disse que ela é uma entre várias mulheres que ela conhece que não contam para suas famílias que estão indo para os protestos. Ela disse que as famílias as proíbem de se manifestarem. Em parte porque se preocupam com sua seguranças enquanto mulheres,mas também porque sabem que sua reputação e honra estão em jogo.

O temor em relação a sua segurança não é infundado. No dia 27 de abril, um homem armado, sobre uma motocicleta, atirou para o ar na frente da casa de uma ativista conhecida, Bushra al-Maqtari, em Ta’izz, uma cidade ao sul da capital. Maqtari disse que já havia recebido ameaças verbais anônimas.

Outra ativista de Ta’izz, uma advogada que também não quis se identificar, me contou sobre um incidente que testemunhou em 16 de março, quando ela foi buscar suas filhas na escola. Ela disse que viu um grupo de homens armados com pedaços de pau e pedras assediando e apedrejando várias meninas entre 16 e 17 anos. Queriam impedi-las de marcharem para a praça Thahrir (Liberdade) de Ta’izz, o principal ponto de protestos da cidade. Eles disseram que os pais das meninas não souberam criá-las e que indo para praça estariam incitando o assédio sexual. Os homens feriram 14 das meninas.

Esses ataques, junto com a discriminação sustentada pelo Estado e pela vergonha das famílias, não favorecem as mulheres iemenitas que estão se levantando. Mas por enquanto, elas continuam a lutar por seus direitos. Dois dias após o pronunciamento de Saleh acusando as ativistas de não islâmicas, milhares tomaram as ruas novamente, determinadas a mostrar que não serão caladas nem enviadas para casa.

 

As canhotas do campo

7 abr

Em Janeiro do ano de 2011, tive a oportunidade de participar do Estágio Interdisciplinar de Vivência (EIV) de Santa Catarina, realizado em áreas ocupadas pelos movimentos sociais camponeses: Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) e Movimento de Mulheres Camponesas (MMC). O estágio é realizado há algum tempo em diversas regiões do Brasil, e leva pessoas das cidades para conhecer um pouco mais da realidade e cotidiano de algumas famílias camponesas. Ele acontece em três etapas: a preparação – aonde estudamos assuntos relacionados a questão agrária, o contexto político atual, as lutas, demandas e desafios dos movimentos sociais doca campo e cidade, entre outras coisas; a vivência – que é o período que passamos  com uma ou mais famílias de algum destes movimentos; e a socialização – espaço para socializamos com os demais estagiários a nossa experiência, e refletirmos sobre nosso engajamento político na hora da volta para casa. É por isso que nesta última etapa conhecemos também alguns movimentos urbanos, sejam eles diretamente ligados ao campo, ou não.

Passei vinte dias envolvida neste processo. Da convivência diária com os quarenta estudantes que participaram do EIV  à estadia na casa das famílias Zilli e Zardo. Lá pude conhecer mais de perto o movimento cujo um dos lemas tem muito a ver como este blog: “Sem feminismo, não há socialismo!”, o Movimento das Mulheres Camponesas.

A etapa de preparação do EIV aconteceu no meio oeste catarinense, em Catanduvas, no assentamento 25 de Julho, do MST. De lá rumei mais a oeste. Fiz a minha vivência na casa da Adriane Zardo, que faz parte do grupo de base do MMC do município de Marema, que fica a alguns quilômetros de Chapecó. Mas antes pernoitei em Chapecó, e conheci uma das mais belas conquistas do movimento, o Centro de Formação Maria Rosa1.

O Centro começou a ser construído em 2000, sobre um terreno no bairro que se chama, pasmem, Presidente Médici. Este foi cedido pela prefeitura por meio de um contrato de concessão real de uso de bem público, válido por dez anos e passível de renovação por mais dez. Através de doações conseguidas por meio de articulações do MMC, elas construíram uma bela estrutura – com auditório, salas, uma biblioteca, arquivo histórico do movimento, dormitórios, refeitórios, uma horta agro-ecológica – que recebe regularmente mulheres camponesas de todo o estado para cursos de formação política e capacitação em temas de agricultura e alimentação saudável.

Ano passado, com o centro já todo pronto, a prefeitura de Chapecó resolveu não renovar a concessão com a desculpa de iriam transformar o centro numa creche (eles sempre usam a creche como chantagem!). Mas felizmente, com apoio dos moradores locais e com a mobilização das mulheres do movimento, o MMC conseguiu a renovação do contrato e permanecer no centro.

Nos primeiros dias que estive lá pude participar de uma parte da segunda etapa do curso de formação de jovens. Assisti a uma aula interessantíssima sobre transgênicos com o professor da Universidade da Fronteira Sul, Antônio Andrioli, autor do livro Transgênicos: as sementes do mal, publicado pela editora Expressão Popular (há uma entrevista com ele sobre tema aqui ). No final da vivência, pude voltar e pegar um pedacinho de um curso de galinha caipira, que tem o objetivo de capacitar as mulheres para produzirem agroecologicamente e estabelecerem uma autonomia financeira.

Sobre o a origem do movimento, suas lutas e conquistas é só ouvir as entrevistas abaixo. Até porque as militantes entrevistadas, Letícia e Dona Lourdes, são muito mais competentes que eu para tratar de tal matéria.

P.S.: A música que toca no finam da entrevista coma Letícia é  a Canção Campesina, de Zé Martins e Grupo Tempero Verde.

|para mais informações do movimento acesse: www.mmcbrasil.com.br|Dona Lourdes

1Maria Rosa foi uma das importantes lideranças da Guerra do Contestado (1912-1916), conflito que marca a história das lutas pela terra no Estado de Santa Catarina. O conflito teve início quando o governo brasileiro cedeu as terras ao longo da ferrovia São Paulo- Rio Grande para empresa americana Railway Company. Para saber mais recomendamos o livro “Lideranças do Contestado”, do professor Paulo Pinehiro Machado, publicada pela editora da UNICAMP.

 

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