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Seminário Conexões entre Questões agrária, racial, gênero, classe e ambiental- Tânia Cristina Cruz (FUP-UnB)

10 abr

Fala clara, simples, direta e forte da professora e pesquisadora do Departamento de Sociologia da UnB, Tânia Cristina Cruz,no seminário organizado pelo grupo de pesquisas Modos de Produção e Antagonismos Sociais (MPAS): “Conexões entre questões agrária, racial, gênero, classe e ambiental”.

Lembrou-me muito as discussões e a luta que vi as mulheres do Movimento de Mulheres Camponesas fazerem, quando participei do EIV-SC. Deu muita vontade de compartilhar! A luta se dá no dia a dia, e não é fácil. Desde então guardo um carinho e admiração profunda por erssas mulheres camponesas.

 

A coisa mais importante do mundo

13 out

Olá!

Estou “reblogando” deste link da Universidade Livre Feminista a tradução de um discurso de Naomi Klein sobre os atuais movimentos que ficaram conhecidos como “We are 99%” nos EUA.

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A intelectual e ativista canadense, Naomi Klein, fez um discurso histórico à Assembleia Geral do movimento Ocupar Wall Street

Tradução e nota introdutória de Idelber Avelar – Revista Fórum

Naomi Klein é hoje uma das principais intelectuais e militantes anticapitalistas do planeta. Jovem (nasceu em 1970), apaixonada, corajosa, de brilhante trânsito por uma série de disciplinas e potente domínio da retórica, ela já se destacara como figura central nos protestos de 1999 contra a financeirização do mundo. Em 2000, lançou No Logo, uma crítica das multinacionais e do seu uso do trabalho escravo. Mas foi seu terceiro livro, A Doutrina do Choque: A Ascensão do Capitalismo do Desastre, que a elevou à condição de uma das principais intelectuais de esquerda do mundo. Com capítulos sobre os EUA, a Inglaterra de Thatcher, o Chile de Pinochet, o Iraque pós-invasão, a África do Sul, a Polônia, a Rússia e os tigres asiáticos, Klein demonstra como o capitalismo contemporâneo funciona à base da produção de desgraças, apropriando-se delas para o contínuo saqueio e privatização da riqueza pública. De família judia, Klein participou, em 2009, durante o massacre israelense a Gaza, da campanha “Desinvestimento, Sanções e Boicote” (BDS) contra Israel. Num discurso em Ramalá, pediu perdão aos palestinos por não ter se juntado antes à campanha BDS.

Nesta quinta-feira, 06 de outubro, Naomi Klein compareceu, convidada, à Assembleia Geral de Nova York. A amplificação foi banida pela polícia. Não havia microfones. Num inesquecível gesto, a multidão mais próxima a Klein repetia suas frases, para que os mais distantes pudessem ouvir e, por sua vez, repeti-las também. Era o “microfone humano”. O memorável discurso de Klein foi assistido por dezenas de milhares de pessoas via internet. A Fórum publica o texto em português em primeira mão. É um comovente documento da luta de nosso tempo.

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Eu amo vocês.

E eu não digo isso só para que centenas de pessoas gritem de volta “eu também te amo”, apesar de que isso é, obviamente, um bônus do microfone humano. Diga aos outros o que você gostaria que eles dissessem a você, só que bem mais alto.

Ontem, um dos oradores na manifestação dos trabalhadores disse: “Nós nos encontramos uns aos outros”. Esse sentimento captura a beleza do que está sendo criado aqui. Um espaço aberto (e uma ideia tão grande que não pode ser contida por espaço nenhum) para que todas as pessoas que querem um mundo melhor se encontrem umas às outras. Sentimos muita gratidão.

Se há uma coisa que sei, é que o 1% adora uma crise. Quando as pessoas estão desesperadas e em pânico, e ninguém parece saber o que fazer: eis aí o momento ideal para nos empurrar goela abaixo a lista de políticas pró-corporações: privatizar a educação e a seguridade social, cortar os serviços públicos, livrar-se dos últimos controles sobre o poder corporativo. Com a crise econômica, isso está acontecendo no mundo todo.

Só existe uma coisa que pode bloquear essa tática e, felizmente, é algo bastante grande: os 99%. Esses 99% estão tomando as ruas, de Madison a Madri, para dizer: “Não. Nós não vamos pagar pela sua crise”.

Esse slogan começou na Itália em 2008. Ricocheteou para Grécia, França, Irlanda e finalmente chegou a esta milha quadrada onde a crise começou.

“Por que eles estão protestando?”, perguntam-se os confusos comentaristas da TV. Enquanto isso, o mundo pergunta: “por que vocês demoraram tanto? A gente estava querendo saber quando vocês iam aparecer.” E, acima de tudo, o mundo diz: “bem-vindos”.

Muitos já estabeleceram paralelos entre o Ocupar Wall Street e os assim chamados protestos anti-globalização que conquistaram a atenção do mundo em Seattle, em 1999. Foi a última vez que um movimento descentralizado, global e juvenil fez mira direta no poder das corporações. Tenho orgulho de ter sido parte do que chamamos “o movimento dos movimentos”.

Mas também há diferenças importantes. Por exemplo, nós escolhemos as cúpulas como alvos: a Organização Mundial do Comércio, o Fundo Monetário Internacional, o G-8. As cúpulas são transitórias por natureza, só duram uma semana. Isso fazia com que nós fôssemos transitórios também. Aparecíamos, éramos manchete no mundo todo, depois desaparecíamos. E na histeria hiper-patriótica e nacionalista que se seguiu aos ataques de 11 de setembro, foi fácil nos varrer completamente, pelo menos na América do Norte.

O Ocupar Wall Street, por outro lado, escolheu um alvo fixo. E vocês não estabeleceram nenhuma data final para sua presença aqui. Isso é sábio. Só quando permanecemos podemos assentar raízes. Isso é fundamental. É um fato da era da informação que muitos movimentos surgem como lindas flores e morrem rapidamente. E isso ocorre porque eles não têm raízes. Não têm planos de longo prazo para se sustentar. Quando vem a tempestade, eles são alagados.

Ser horizontal e democrático é maravilhoso. Mas esses princípios são compatíveis com o trabalho duro de construir e instituições que sejam sólidas o suficiente para aguentar as tempestades que virão. Tenho muita fé que isso acontecerá.

Há outra coisa que este movimento está fazendo certo. Vocês se comprometeram com a não-violência. Vocês se recusaram a entregar à mídia as imagens de vitrines quebradas e brigas de rua que ela, mídia, tão desesperadamente deseja. E essa tremenda disciplina significou, uma e outra vez, que a história foi a brutalidade desgraçada e gratuita da polícia, da qual vimos mais exemplos na noite passada. Enquanto isso, o apoio a este movimento só cresce. Mais sabedoria.

Mas a grande diferença que uma década faz é que, em 1999, encarávamos o capitalismo no cume de um boom econômico alucinado. O desemprego era baixo, as ações subiam. A mídia estava bêbada com o dinheiro fácil. Naquela época, tudo era empreendimento, não fechamento.

Nós apontávamos que a desregulamentação por trás da loucura cobraria um preço. Que ela danificava os padrões laborais. Que ela danificava os padrões ambientais. Que as corporações eram mais fortes que os governos e que isso danificava nossas democracias. Mas, para ser honesta com vocês, enquanto os bons tempos estavam rolando, a luta contra um sistema econômico baseado na ganância era algo difícil de se vender, pelo menos nos países ricos.

Dez anos depois, parece que já não há países ricos. Só há um bando de gente rica. Gente que ficou rica saqueando a riqueza pública e esgotando os recursos naturais ao redor do mundo.

A questão é que hoje todos são capazes de ver que o sistema é profundamente injusto e está cada vez mais fora de controle. A cobiça sem limites detona a economia global. E está detonando o mundo natural também. Estamos sobrepescando nos nossos oceanos, poluindo nossas águas com fraturas hidráulicas e perfuração profunda, adotando as formas mais sujas de energia do planeta, como as areias betuminosas de Alberta. A atmosfera não dá conta de absorver a quantidade de carbono que lançamos nela, o que cria um aquecimento perigoso. A nova normalidade são os desastres em série: econômicos e ecológicos.

Estes são os fatos da realidade. Eles são tão nítidos, tão óbvios, que é muito mais fácil conectar-se com o público agora do que era em 1999, e daí construir o movimento rapidamente.

Sabemos, ou pelo menos pressentimos, que o mundo está de cabeça para baixo: nós nos comportamos como se o finito – os combustíveis fósseis e o espaço atmosférico que absorve suas emissões – não tivesse fim. E nos comportamos como se existissem limites inamovíveis e estritos para o que é, na realidade, abundante – os recursos financeiros para construir o tipo de sociedade de que precisamos.

A tarefa de nosso tempo é dar a volta nesse parafuso: apresentar o desafio à falsa tese da escassez. Insistir que temos como construir uma sociedade decente, inclusiva – e ao mesmo tempo respeitar os limites do que a Terra consegue aguentar.

A mudança climática significa que temos um prazo para fazer isso. Desta vez nosso movimento não pode se distrair, se dividir, se queimar ou ser levado pelos acontecimentos. Desta vez temos que dar certo. E não estou falando de regular os bancos e taxar os ricos, embora isso seja importante.

Estou falando de mudar os valores que governam nossa sociedade. Essa mudança é difícil de encaixar numa única reivindicação digerível para a mídia, e é difícil descobrir como realizá-la. Mas ela não é menos urgente por ser difícil.

É isso o que vejo acontecendo nesta praça. Na forma em que vocês se alimentam uns aos outros, se aquecem uns aos outros, compartilham informação livremente e fornecem assistência médica, aulas de meditação e treinamento na militância. O meu cartaz favorito aqui é o que diz “eu me importo com você”. Numa cultura que treina as pessoas para que evitem o olhar das outras, para dizer “deixe que morram”, esse cartaz é uma afirmação profundamente radical.

Algumas ideias finais. Nesta grande luta, eis aqui algumas coisas que não importam:

Nossas roupas.

Se apertamos as mãos ou fazemos sinais de paz.

Se podemos encaixar nossos sonhos de um mundo melhor numa manchete da mídia.

E eis aqui algumas coisas que, sim, importam:

Nossa coragem.

Nossa bússola moral.

Como tratamos uns aos outros.

Estamos encarando uma luta contra as forças econômicas e políticas mais poderosas do planeta. Isso é assustador. E na medida em que este movimento crescer, de força em força, ficará mais assustador. Estejam sempre conscientes de que haverá a tentação de adotar alvos menores – como, digamos, a pessoa sentada ao seu lado nesta reunião. Afinal de contas, essa será uma batalha mais fácil de ser vencida.

Não cedam a essa tentação. Não estou dizendo que vocês não devam apontar quando o outro fizer algo errado. Mas, desta vez, vamos nos tratar uns aos outros como pessoas que planejam trabalhar lado a lado durante muitos anos. Porque a tarefa que se apresenta para nós exige nada menos que isso.

Tratemos este momento lindo como a coisa mais importante do mundo. Porque ele é. De verdade, ele é. Mesmo.

As canhotas do campo

7 abr

Em Janeiro do ano de 2011, tive a oportunidade de participar do Estágio Interdisciplinar de Vivência (EIV) de Santa Catarina, realizado em áreas ocupadas pelos movimentos sociais camponeses: Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) e Movimento de Mulheres Camponesas (MMC). O estágio é realizado há algum tempo em diversas regiões do Brasil, e leva pessoas das cidades para conhecer um pouco mais da realidade e cotidiano de algumas famílias camponesas. Ele acontece em três etapas: a preparação – aonde estudamos assuntos relacionados a questão agrária, o contexto político atual, as lutas, demandas e desafios dos movimentos sociais doca campo e cidade, entre outras coisas; a vivência – que é o período que passamos  com uma ou mais famílias de algum destes movimentos; e a socialização – espaço para socializamos com os demais estagiários a nossa experiência, e refletirmos sobre nosso engajamento político na hora da volta para casa. É por isso que nesta última etapa conhecemos também alguns movimentos urbanos, sejam eles diretamente ligados ao campo, ou não.

Passei vinte dias envolvida neste processo. Da convivência diária com os quarenta estudantes que participaram do EIV  à estadia na casa das famílias Zilli e Zardo. Lá pude conhecer mais de perto o movimento cujo um dos lemas tem muito a ver como este blog: “Sem feminismo, não há socialismo!”, o Movimento das Mulheres Camponesas.

A etapa de preparação do EIV aconteceu no meio oeste catarinense, em Catanduvas, no assentamento 25 de Julho, do MST. De lá rumei mais a oeste. Fiz a minha vivência na casa da Adriane Zardo, que faz parte do grupo de base do MMC do município de Marema, que fica a alguns quilômetros de Chapecó. Mas antes pernoitei em Chapecó, e conheci uma das mais belas conquistas do movimento, o Centro de Formação Maria Rosa1.

O Centro começou a ser construído em 2000, sobre um terreno no bairro que se chama, pasmem, Presidente Médici. Este foi cedido pela prefeitura por meio de um contrato de concessão real de uso de bem público, válido por dez anos e passível de renovação por mais dez. Através de doações conseguidas por meio de articulações do MMC, elas construíram uma bela estrutura – com auditório, salas, uma biblioteca, arquivo histórico do movimento, dormitórios, refeitórios, uma horta agro-ecológica – que recebe regularmente mulheres camponesas de todo o estado para cursos de formação política e capacitação em temas de agricultura e alimentação saudável.

Ano passado, com o centro já todo pronto, a prefeitura de Chapecó resolveu não renovar a concessão com a desculpa de iriam transformar o centro numa creche (eles sempre usam a creche como chantagem!). Mas felizmente, com apoio dos moradores locais e com a mobilização das mulheres do movimento, o MMC conseguiu a renovação do contrato e permanecer no centro.

Nos primeiros dias que estive lá pude participar de uma parte da segunda etapa do curso de formação de jovens. Assisti a uma aula interessantíssima sobre transgênicos com o professor da Universidade da Fronteira Sul, Antônio Andrioli, autor do livro Transgênicos: as sementes do mal, publicado pela editora Expressão Popular (há uma entrevista com ele sobre tema aqui ). No final da vivência, pude voltar e pegar um pedacinho de um curso de galinha caipira, que tem o objetivo de capacitar as mulheres para produzirem agroecologicamente e estabelecerem uma autonomia financeira.

Sobre o a origem do movimento, suas lutas e conquistas é só ouvir as entrevistas abaixo. Até porque as militantes entrevistadas, Letícia e Dona Lourdes, são muito mais competentes que eu para tratar de tal matéria.

P.S.: A música que toca no finam da entrevista coma Letícia é  a Canção Campesina, de Zé Martins e Grupo Tempero Verde.

|para mais informações do movimento acesse: www.mmcbrasil.com.br|Dona Lourdes

1Maria Rosa foi uma das importantes lideranças da Guerra do Contestado (1912-1916), conflito que marca a história das lutas pela terra no Estado de Santa Catarina. O conflito teve início quando o governo brasileiro cedeu as terras ao longo da ferrovia São Paulo- Rio Grande para empresa americana Railway Company. Para saber mais recomendamos o livro “Lideranças do Contestado”, do professor Paulo Pinehiro Machado, publicada pela editora da UNICAMP.

 

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