Despreparadas

20 nov

Dia desses, enquanto caminhava para a análise e olhava o celular (comportamento de risco, eu sei!! Andam afanando muitos aparelhos de pessoas distraídas), me deparei com um texto cujo título era “A nossa geração não está preparada para ser mãe”. Fiquei curiosa para saber a qual geração a autora se referia, seria a minha? Quais motivos ela elencava para o nosso despreparo? Qual geração esteve preparada para a maternidade? E afinal, qual é a preparação necessária? Não desgrudei os olhos da tela até terminar a leitura. Já refleti bastante sobre esse tema, muitas sessões de análise foram dedicadas a ele. Até fiz um textinho para o blog sobre a tal preparação.

A primeira frase do texto é “Não sou psicóloga”. Pronto, já bateu o pré-conceito. Sempre que alguém começa justificando que não é psicóloga é porque vai usar algum conceito ou teoria da psicologia, e nesses casos é muito comum rolar uma psicologização rasa da vida, uma coisa que nós psicólogas realmente não gostamos. É comum acharem que tudo se trata apenas de um problema psicológico, individual, “o problema do fulano é que ele tem o psicológico fraco”, ignorando que vivemos em sociedade, possuímos uma história construída com diversas outras pessoas, e que sim, temos problemas individuais, mas eles não são a causa exclusiva de todos os nossos males.

Voltando ao texto, a autora tem dois argumentos principais que sustentam sua reflexão sobre o despreparo das mães na faixa do trinta anos. O primeiro é que as gerações anteriores tinham mais contato com crianças e bebês, e que esse fato tornava as mulheres mais familiarizadas com as questões da maternidade. O segundo é que as mães da nossa geração não foram educadas para serem mães, mas sim para se dedicarem a vida profissional, carreira e trabalho.

Discordo profundamente desses dois argumentos.

É claro que o contato com crianças e bebês facilita os primeiros cuidados com um filho. Acho que o cuidado deve ser compartilhado com outras pessoas, pais, avós, professoras, babás, afinal cuidar 24 horas por dia, 7 dias por semana é muito desgastante. E a mãe que dividir os cuidados com outras pessoas não será menos mãe por isso. Mas saber cuidar, banhar, alimentar, uma criança é saber ser uma mãe? É possível “treinar” ser mãe?

Para mim a maternidade não é algo que possa ser aprendido, ela só pode ser vivida, é a experiência com o filho que torna alguém mãe. Mas não é possível treinar ser mãe com o filho dos outros. Se a maternidade fosse uma questão de conhecimento disponível, hoje estaríamos mais preparadas que nossas mães e avós. Imagina que elas nos criaram sem o oráculo Google. Sem poder consultar os diversos tutoriais, sem participar de fóruns e tirar dúvidas com outras mães de diversas partes do mundo. Hoje também existem os famosos cursinhos para pais e mães, onde os cuidados básicos que antes eram aprendidos na família agora são ensinados por profissionais.

Tornar-se mãe é tão radical, tão único, que não existe conhecimento, técnica, manual, guia, passo-a-passo, que possa ensinar alguém a ser mãe. Cada uma será mãe à sua maneira, e se ficar tentando se ajustar às exigências dos outros provavelmente sofrerá um bocado.

Já no meio do texto que surge o argumento psicológico, que justifica o início “Não sou psicóloga”. A autora fala sobre a diferença entre a nossa geração e as anteriores, argumentando que nossas mães e avós tinham um preparo prático e psicológico NATURAL para serem mães. Foi aí que a psicóloga feminista teve um treco. As gerações anteriores não foram naturalmente transformadas em mães. Elas foram obrigadas a serem mães, fadadas a serem mães, constrangidas a serem mães, e acredito que por terem poucas possibilidades de escolha tentavam levar a maternidade da melhor forma possível, afinal era o que lhes restava. Mas não tenho dúvidas que essa maternidade forçada trouxe muito sofrimento para diversas mulheres. E continua trazendo hoje em dia para aquelas que acabam engravidando sem querer e são obrigadas a se tornarem mães Falar em instinto materno é uma violência contra as mulheres que não querem ser mães. Não existe instinto, existe desejo. E se a mulher não desejar ser mãe ela não deveria ser obrigada.

A autora erra ao achar que as dificuldades que encontramos para sermos mães não existiam em gerações anteriores. Talvez o que não existissem fossem espaços para aquelas mulheres externarem suas angustias, blogs para escreverem, fóruns para desabafarem, e principalmente, talvez a elas não fosse permitido sentir qualquer dificuldade ou medo.

O outro argumento da autora, para justificar o nosso despreparo como mães, é que a educação (das mulheres) está voltada para sermos profissionais e não mães. Fazendo uma análise superficial acredito a educação que recebemos não mudou tanto nos últimos anos, o papel de mãe ainda continua como uma obrigação feminina. Bato novamente na tecla das mulheres que são obrigadas a serem mães. É mulher? Engravidou? Vai ser mãe e pronto. Mesmo que não queira, mesmo que precise largar o trabalho, mesmo que tenha que deixar a vida profissional de lado. Acredito que no ranking das atividades designadas para as mulheres ser mãe ainda esta no topo.

Acho que a única coisa que concordo com a autora é que somos uma geração ansiosa e impaciente. Justamente por essas características queremos manuais e cursos que nos ensinem a sermos mães, bastando apenas escolhermos aquela teoria de criação que mais nos identificamos. Acho que por sermos tão impacientes não nos permitimos errar, falhar, faltar. Queremos que nosso filho nos complete, nos preencha. Mas o que acontece é que ele nos mostra que somos incompletáveis, que sempre haverá um espaço vazio dentro de nós. Tentamos resolver essas angustias participando de todos os grupos de mães, lendo todos os blogs, livros, fazendo cursos, comprando apetrechos (e que infinidade de quinquilharias dizem ser fundamentais para uma boa mãe, tá aí outro texto que quero fazer) enfim, tentando nos prepararmos para o impreparável, para o impossível.

Pré(par)ação, é algo que vem antes da ação.  Mas só se é mãe sendo, agindo, errando, aprendendo, falhando, uma mãe precisa fazer-se mãe. Nossa geração não está menos preparada que as gerações anteriores. Simplesmente porque não há preparação para a transformação radical que a um filho traz. Um filho muda tudo. 

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