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Texto pós-pleito

31 out

Não temos um muro separatista no Brasil como alguns já estão propondo, mas temos uma cortina de fumaça que ofusca o coração de grande parte da população brasileira.
Uma sociedade que demonstrou não conseguir se colocar na posição do outro, que não consegue pensar no que o outro sente e vive.

Não estamos falando de partidos vitoriosos ou derrotados. Estamos falando das milhares de pessoas que ainda passam fome no Brasil e também das outras tantas milhares que agora tem o que comer. Migalhas??? Para quem tem mais que isso certamente o é! Que bom que você não precisa do Bolsa Família, não é mesmo? Esperamos que a médio prazo ninguém mais precise. Mas não esqueça do IPI reduzido do seu carro zero.

Estamos falando da epidemia homofóbica assassina que vem matando quem tem sua sexualidade questionada. Sexualidade essa que está longe de ter sido uma “opção sexual”. E está longe também de ser um problema para você!
O termo “tolerância” já se torna questionável a partir do momento em que se compreende que as pessoas são como são. A diversidade é isso! É preciso aprender a gostar das pessoas como elas são e não apenas tolerar por uma falsa cartilha de ética.

É por falta de empatia que milhares de mulheres morrem todos os anos fazendo abortos clandestinos. Você já se colocou no lugar de alguma delas? Podemos garantir que o aborto é uma das piores coisas que pode acontecer na vida de uma mulher, ainda assim é o último recurso encontrado em meio a uma gravidez indesejada. O aborto causa medo, dor, sofrimento, desespero, prisão em alguns casos e muitas vezes arrependimento. Agora, o mais grave que pode acontecer com essas mulheres é a morte por falta de assistência.

Desça do seu pedestal e perceba o sofrimento de quem está perto de você e de quem está longe também. Ah, claro! A Angelina Jolie adotar meia dúzia de crianças estrangeiras famintas é louvável. Mas tirar milhares de crianças e adultos da fome extrema em território nacional é assistencialismo.

Fique com seu deus e não esqueça que ele está vendo!

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Publicação infeliz e o que podemos aprender com isso

31 mar

Hoje encontramos isso no Facebook:

devassaIndignação, horror, denúncia de (mais um) material criminoso da tal da cerveja. O que fazer com isso?

Não manjo quase nada de direito, mas acho que nós, civis, pessoas físicas assim, não podemos fazer denúncias ao Ministério Público, por exemplo. Resolvi consultar uma amiga minha advogada, envolvida com as questões de gênero, e ela indicou dois caminhos: se for alguma coisa local, denunciar para o Conselho Municipal dos Direitos das Mulheres (Condim), em Florianópolis. Como essa joia não tão rara (gostaríamos que fosse mais) reproduzida acima é de divulgação nacional, ela indicou a Secretaria de Políticas para as Mulheres (SPM) do Governo Federal.

O legal é que descobri que a SPM tem uma ouvidoria, com vários meios possíveis de se fazer denúncias, além das funções usuais das ouvidorias. Eu lembro de um caso de um site de incentivo ao feminicídio que foi fechado através de uma denúncia da SPM ao Ministério Público, então acho que é um espaço que pode dar resultado, além de ser uma ferramenta institucional que representa uma grande conquista e está aí pra ser usada.

O que vou copiar abaixo não é um modelo rígido nem nada, só um exemplo, pra mostrar que não é complicado denunciar. Sobre essa publicação aí, eu fiz assim:

1. Enviei um email para a ouvidoria da Secretaria de Políticas para Mulheres do Governo Federal: ouvidoria@spm.gov.br 

2. com o título “Publicação que leva o nome da Cerveja Devassa naturalizando crime de estupro”

3. No conteúdo do email escrevi o seguinte:

“Olá!

Considerei a publicação causa de indignação, e pensei que o melhor caminho fosse encaminhar uma denúncia a um órgão competente como a SPM.

Obrigada, Soraia Carolina de Mello.”

4. Além disso anexei a foto da denúncia que vi no Facebook no email.                

**********

Outras integrantes aqui do blog me pediram pra escrever sobre isso, porque por mais que as denúncias nas redes sociais possam ser importantes, elas nem sempre chegam aos órgãos competentes, além de muitas vezes ajudarem a divulgar as atrocidades, a cultura do estupro, e essas paradas sinistras todas que andam ganhando força por aí. Sem contar que rola uma espécie de ego chauvinista, um orgulhinho de ser tema de debate das feministas. E nós, sinceramente, não precisamos debater mais do mesmo, só queremos esse material recolhido e a empresa com prejuízo pra pensar duas vezes antes de naturalizar o estupro em seus materiais publicitários.

Temos muitas leis terríveis, muitas leis injustas, mas quando se trata de violência contra as mulheres temos respaldo nas instituições para nos defendermos. Este respaldo é uma conquista coletiva dos feminismos em nosso país e é importante fazermos amplo uso dele, tanto para nos protegermos, contra a violência, contra esse tipo de material, quanto para protegermos e legitimarmos esses espaços institucionais de denúncia. Pelo menos foi pensando nisso que eu denunciei.

Compartilhando experiências com um comportamento violento – de que forma eu deveria fazer isso?

19 ago

Traduzi este texto já faz algum tempo, mas por alguma razão não publiquei … Recentemente me lembrei dele por dois motivos. O primeiro é muito semelhante ao que me levou a ele a primeira vez: novamente recebo notícias de que um companheiro agrediu sua namorada, que é também companheira de luta. Infelizmente não foi a única notícia dessas nos últimos meses … O texto que segue é um relato de uma militante do Students for Democratic Society (uma organização de estudantes dos EUA) sobre uma violência que sofreu de um companheiro da SDS. Talvez seja uma das violências mais temidas: a violência sexual, o estupro. Ela narra com uma sobriedade incrível todo o processo pelo qual passou para poder começar a lidar com o que aconteceu. “Levaram-me duas semanas para dizer a ele que o que havia feito me deixou desconfortável; um mês para parar de me culpar; seis meses para conceber que aquilo havia sido um assédio sexual”, ela escreve… Não, não deve ser fácil ser violentada por alguém tão próximo, logo por alguém com quem acreditamos compartilhar sonhos de mudar o mundo.

Ela aponta questões difíceis, como a falta de espaço em seu grupo para que ela ou outras pessoas que haviam sofrido com o comportamento violento deste companheiro pudessem conversar e problematizar o que havia acontecido. As pessoas com quem compartilhou a história se sentiram desconfortáveis e calaram-se. Enquanto isso era ela quem se retirava das reuniões e atividades do grupo. Queria evitar encontrar seu agressor, e ele permanecia lá. Durante este processo, ela relata como uma reunião de emergência somente com as mulheres do grupo, convocada por uma companheira a quem ela havia contado o ocorrido, foi fundamental para que ela se sentisse fortalecida e com coragem para levar a questão para o grupo como um todo. O que leva ao segundo motivo que me fez lembrar deste texto, uma sequências de textos publicados recentemente pelo Passa Palavra (PP) em que eles criticam a existência de espaços exclusivamente femininos dentro de coletivos e movimentos sociais, o que eles chamam de feminismo excludente.

O que me chamou atenção, em especial no penúltimo texto da sequência, é a sua afirmação de que “boa parte da movimentação esquerdista em torno do feminismo” parte das premissas deste feminismo excludente; e a sua constatação de que “as denúncias acerca da violência machista recaem sobre os rapazes da esquerda (habitualmente de fraca envergadura física e flacidez muscular) e não sobre seguranças de boate ou membros de outras profissões hercúleas, mas exclusivamente sobre aqueles que entram em pânico sempre que são acusados de politicamente incorretos”. Daí concluem que por trás destas denúncias há uma pauta oculta neste feminismo. Será?

De que denúncias estarão falando? Não quiseram explicitar, o que me intrigou, uma vez que o PP não costuma ter medo de dar nome aos bois. Nem mesmo dos mais graúdos como o MST, ou o famigerado Fora do Eixo, quando eles foram os primeiros a denunciar a intenções mercantis do grupo na construção da marcha da liberdade em São Paulo. Como não sei do que eles estão falando, falo do que sei e do que se tornou público: o recente afastamento de um membro da organização anarquista Bandeira Negra que agrediu sua companheira e a expulsão do MPL-Curitiba do movimento nacional do Passe Livre, por razão deste não ter se posicionado em relação à denúncia de agressão cometida por um dos seus membros contra sua namorada. Embora eu fique triste em saber que casos como estes ocorram em espaços que me são tão próximos, fico satisfeita em ver que essas meninas encontraram força e espaço para fazerem suas denúncias e que, da melhor forma que puderam, os movimentos deram uma resposta a isso.

Lembro da primeira vez que um caso de violência se tornou público no Movimento Passe Livre. Era 2008 ou 2009, e o caso havia acontecido em São Paulo. Um pouco antes disso algumas militantes de Brasília haviam criado uma lista informal de e-mails: o MPL Mulheres. Nós precisávamos conversar e quando tudo veio à tona é claro que virou tema na lista. No começo foi confuso, algumas militantes questionavam uma lista só para mulheres, outras já queriam dali partir para algum posicionamento enquanto grupo de mulheres. Lembro que de maneira geral as militantes de Floripa defendiam um espaço de conversa e trocas de experiência, e que as propostas surgidas ali fossem levadas para os coletivos locais. Mas logo a lista mostrou sua importância, mais histórias de agressões foram surgindo do subterrâneo do MPL e encontravam ali um espaço para serem ouvidas e contadas.

O MPL Mulheres nunca virou comissão ou mesmo algo oficial dentro do movimento, como é comum existir em partidos políticos, na Via Campesina entre outros movimentos. E o que não vejo como necessariamente ruim. Nós também nunca usamos o espaço para decidirmos coisas pelo MPL como um todo. Acho que sempre funcionou mais como uma rede de solidariedade, quiçá de consulta entre companheiras de movimento. Mas sei lá, vai ver é porque não nos enquadramos nessa tendência excludente e maioritária na movimentação esquerdista em torno do feminismo. Por isso gostaria muito que o PP tivesse sido mais específico nesta análise. Também achei estranho eles não terem mencionados esses casos tão paradigmáticos em termos de denúncias de violência contra mulher dentro dos movimentos sociais autônomos.

São textos com muitos problemas estes do Passa Palavra. Deixaram a mim e muitas companheiras próximas desapontadas com o coletivo. O site do PP se tornou uma referência importante em debates sobre movimentos sociais e lutas anti-capitalistas. Eu gostava de acompanhar. No entanto, não é de hoje que considero que, enquanto coletivo, o Passa Palavra pouco tem contribuído para a reflexão acerca da luta das mulheres e mesmo das questões de gênero de um modo geral. Embora tenha publicado textos muito interessantes de indivíduos. O que não é um grande problema, afinal todo movimento e coletivo tem seus limites. E acredito que o PP fez alguma contribuição em apontar a necessidade de autocrítica dentro da esquerda. Mas é preciso dizer que seus textos sobre o feminismo excludente mais contribuíram para reforçar a desconfiança que grupos feministas têm em relação a uma certa esquerda que resiste em incorporar as pautas específicas das mulheres (ou dos negros, ou dos gays) sem subjugá-las às questões de classe.

Esta hierarquização permeia o texto PP. Ela fica clara quando comparamos o cuidado e rigor teórico despendido pelo coletivo em textos que dizem respeito às questões de classe, com desleixo e as vezes até deboche em relação a teoria feminista. Não fazem referências, nem discutem seriamente, mas podem afirmar que: “ Incapaz de justificar os seus pressupostos com a vasta historiografia existente, o feminismo recorre como autoridade única precisamente às historiadoras feministas, encerrando-se assim num círculo vicioso”.

Na minha opinião citar Solanas como referência para um feminismo, se não for má-fé ou pura provocação, é no mínimo uma ignorância atroz. A primeira vez que eu ouvi falar desta grande feminista foi num texto da blogueira Lola, “Pra quem não gosta, todo feminismo é radical”, que por sua vez conheceu a Solanas através do filme Um Tiro para Andy Warhol, e não, pasmem, numa formação feminista. Ela escreve: Os mascus, por exemplo, que têm como missão declarada destruir o feminismo, que tanto empobreceu as mulheres (eles gostariam de voltar à década de 1950), só conhecem uma feminista: Valerie Solanas”. Mascu para quem não sabe é um apelido divertido que ela colocou em homens machistas que se sentem oprimidos pelas conquistas sociais feministas e do movimento gay. Recomendo os textos da Lola que linkei acima, pois são muito divertidos. Tanto que num primeiro momento eu ri com essa lembrança, depois fiquei mal em ter, por um momento, aproximado pessoas que eu conheço no coletivo do PP à figura escabrosa do mascu.

Mas enfim, para resumir e finalizar, já que o PP não contribuiu muito no debate e reflexão sobre feminismo na esquerda (ou feminismo de esquerda, o feminismo canhoto como nós gostamos mais), resolvi finalmente postar este texto, que é tão sincero e sensível às dificuldades enfrentadas quando o assunto é violência contra mulher dentro dos movimentos sociais. Acredito que esta seja uma questão muito delicada, sem saída fácil, e que a maioria de nós gostaria de resolver sem recorrer às instituições punitivas que conhecemos. Porém, nesta busca não podemos punir a vítima. Culpabilização da vítima é uma dinâmica do machismo conhecida demais para cairmos neste erro. É preciso reconhecer que o afastamento de agressores do coletivo às vezes é a melhor saída para que ela possa permanecer e se sentir bem no movimento. É preciso reconhecer e fomentar espaços que permitam que se fale sobre as opressões reproduzidas dentro do coletivo, sejam elas em relação a cor, orientação sexual, gênero ou qualquer outra. Se em algum momento espaços restritos a determinado grupo é importante para criar essas condições, como acontece no relato que segue, isso precisa ser respeitado e não visto com desconfiança. Espero que gostem do texto e que ele nos ajude a fazer uma discussão mais saudável sobre o tema. Afinal, esta semana em São Paulo acontece o II Seminário Há Machismo na Esquerda? e eu pretendo participar.

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Compartilhando experiências com um comportamento violento – de que forma eu deveria fazer isso?

Já faz um ano que venho sofrendo com a pergunta: como compartilhar de um modo produtivo e sincero as minhas experiências e as experiências do meu coletivo em relação ao comportamento agressivo por parte de um militante?

Desde o dia em que aconteceu eu fiquei sem saber para quem contar, o que dizer ou como falar sobre aquilo. Tive dificuldade em articular para mim mesma o que havia acontecido. Levaram-me duas semanas para dizer a ele que o que havia feito me deixou desconfortável; um mês para parar de me culpar; seis meses para conceber que aquilo havia sido um assédio sexual.

Conversei muito com as pessoas enquanto passava por esse processo. Primeiro contei ao meu companheiro, procurando, sem sucesso, palavras para dar nome a minha experiência. Tudo o que eu conseguia fazer era descrever o que aconteceu: “Ele me serviu três taças de vinho, no sofá colocou suas pernas sobre mim, começou a acariciar minha mão…”

Quanto mais o tempo passava, mais nervosa eu ia ficando. Frequentemente ia embora das reuniões e evitava o agressor. Senti que precisava contar minha história para poder justificar o meu comportamento para os outros membros do grupo. Quando eu me aproximava de alguém individualmente para falar, eu contava com sua sensibilidade e com minhas descrições frias. Quatro meses e a única maneira que eu conseguia dividir minhas experiências era descrevendo de forma furtiva e amargurada o que acontecera para alguns amigos. Às vezes éramos os últimos a ir embora de uma festa, às vezes era um amigo me emprestando um livro. A única forma de aliviar minha raiva e frustração acontecia nessas pequenas oportunidades de compartilhar.

Ao contar para outras pessoas, ficou claro para mim que me faltava um vocabulário. Na época eu não encontrava palavras para falar do que estava acontecendo, e aqueles que me escutavam também não as tinham. As pessoas para quem eu contava ficaram confusas e magoadas, o que eles expressaram com silencio. Nosso grupo não tinha estrutura para compreender e confrontar um comportamento abusivo. Não havia espaço para minha experiência na linguagem do nosso grupo. Não havia espaço para nenhuma mulher ou homem que havia sofrido com outros comportamentos violentos desta pessoa. Enquanto indivíduos e enquanto organização ficamos paralisados, efetivamente silenciados por essa pessoa e pela falta de vocabulário e estrutura para entender nossas experiências.

Finalmente, uma mulher incrivelmente forte chamou uma reunião de emergência das mulheres do coletivo. Pela primeira vez nós compartilhamos nossas experiências umas com as outras sem precisar falar pelas costas, mas enquanto parte de um grupo. Juntas criamos o vocabulário que nos faltava para nomear nossas experiências enquanto o que são: agressão. Agressão física, emocional e sexual. Decidimos que enquanto grupo de doze mulheres iríamos exigir que o agressor deixasse a organização, ou a deixaríamos nós, para tornar o ambiente mais seguro para homens e mulheres do coletivo.

A partir daquele momento, a pergunta na minha cabeça não era mais: “como eu compartilho minha experiência com outras pessoas?”, mas: “como nós compartilhamos essas histórias com o grupo inteiro?”. Eu não sabia como meus amigos homens reagiriam a nossas histórias ou a nossa decisão. Como já disse antes, minha experiência em contar para os outros foi bem negativa. O silêncio dos meus amigos havia corroído boa parte da minha confiança no grupo, e eu estava com medo particularmente da sua reação em relação a nossa decisão de afastar essa pessoa. Tinha medo de que eles minimizassem nossas histórias ou que eles suspeitassem da nossa decisão. Nosso grupo já havia se divido de mutias formas por causa do comportamento do agressor. Parte de mim temia que as pessoas vissem a decisão como mais desagregadora, e não conciliadora.

Contar minha história para um grupo de vinte e duas pessoas foi uma experiência de mexer com os nervos, e muito diferente de falar para um grupo de mulheres ou a um amigo/a no final da noite. Foi difícil, mas me senti amparada pelo grupo de onze mulheres sentadas ao meu lado. A resposta da organização foi incrivelmente positiva, as pessoas corresponderam, foram solidárias e sensíveis. Saí da reunião com a confiança no meu coletivo renovada. Nunca havia me sentido tão inspirada pela ação coletiva, agindo como mulher, num grupo de mulheres para efetivamente fazer algo em relação ao patriarcado.

Entre as barreiras que dificultavam o compartilhar da minha história, havia uma particularmente escorregadia com a qual sofro até hoje. Eu não queria arruinar essa pessoa, e eu ainda não quero arruinar essa pessoa. Eu sabia que de muitas formas eu estaria ajudando a tomar uma decisão que poderia potencialmente isolar a prejudicar socialmente uma pessoa que costumava ser meu amigo. Uma pessoa de quem eu guardava mágoa, mas não odiava. Eu acredito em justiça retroativa, mas e se inadvertidamente o processo de justiça retroativa se transforma em punitiva? Essa pessoa fez muita merda. Falar disso e tornar isso conhecido deve ter sido uma experiência bem ruim para ele. As pessoas podem reagir se afastando dele, e ele não fará mais parte da organização. Essas coisas podem ser interpretadas por ele como punitivas, mas foram consequências de uma decisão tomada visando a segurança das mulheres e da organização. Eu não sei como reconciliar isso.

Na medida em que fui me envolvendo com o movimento nacional, tenho recorridamente me deparado com o tema. Eu deveria compartilhar informação que possivelmente pode fazer mais mal a essa pessoa? Eu não quero estragar as futuras relações dela, mas eu definitivamente não quero ser silenciada. Outro dia fiquei irritada com um comentário sobre assédio sexual dentro do coletivo. Não sabia se eu deveria falar para ela porque fiquei irritada, e pensei que se eu tivesse contado minha história antes de tudo, provavelmente ela não teria feito esse comentário. Novamente me senti insegura sobre como falar sobre minhas experiências de uma forma útil e justa.

Eu acho que o SDS (Estudantes por uma Sociedade Democrática) precisa se esforçar mais para criar um coletivo no qual histórias de assédio sexual e violência interpessoal possam ser compartilhadas. … eu ouvi muito no encontro nacional, acho que precisamos construir um comunidade de confiança para que de fato tenhamos uma espaço para conversar. Acho que precismos de um vocabulário para falar dessas experiências. E finalmente, eu adoraria que conversássemos sobre o ato de compartilharmos essas experiências. Espero que esse texto abra algum espaço para conversarmos sobre esse processo de sermos silenciadas/os e conseguirmos falar, sobre como proceder para que de fato nossas vozes sejam ouvidas e como criar um ambiente seguro e construtivo para compartilharmos nossas experiências.

Original em: http://sdswomynscaucus.wordpress.com/2009/07/23/sharing-experiences-of-abusive-behavior-how-the-hell-should-i-do-it/

Em tempo:

Caso alguém tenha ficado curiosa/o sobre o texto do Passa Palavra : http://passapalavra.info/2013/07/81401

23 dez

Sobre linguagem inclusiva

1 jun

Terminei de ler agora uma espécie de livreto do governo mexicano, realizado – me parece, não li essa parte com atenção – com o apoio do CEDAW (Committee on the Elimination of Discrimination against Women)/ONU, de 2009, e pelo que eu entendi revisado e distribuído pelo Consejo Nacional para Prevenir la Discriminación (CONAPRED) do México, intitulado 10 recomiendaciones para el uso no sexista del lenguaje. Não estou mesmo com vontade de reler essa parte para confirmar essas informações, mas elas estão ali.

O ponto que me interessa é que, apesar de toda discussão que pode gerar, achei este um documento bem interessante para se levantar o problema. A maior parte das questões gramaticais do espanhol nesse sentido são semelhantes ao português, o que torna o documento bem útil para nós. Achei especialmente interessante o fato de ao invés de se buscar trabalhar com a redefinição dos artigos “o” e “a”, naquela coisa de “@”, “x” (e até “e” ou “i” já vi serem discutidos), no geral são propostas formas de utilizar os recursos que a própria língua oferece. No caso do português considero isso especialmente positivo, pois assim podemos evitar uma linguagem inclusiva “mussumiana”, como por exemplo “caris amiguis”, que convenhamos, não contribuiria em nada para os chistes que em geral são utilizados para ridicularizar as feministas.

Isso tudo me lembrou algo que escrevi para o terceiro número d´O Independente em 2005, que reli hoje com certo embaraço. Não reescreveria nada daquilo daquele jeito. Mas bem, os textos são datados, e a discussão é a mesma. Apesar de que atualmente tenho minhas dificuldades em localizar as feministas estruturalistas que cito ali!! hehe

Pra quem tiver curiosidade, o livreto pode ser acessado aqui; e o meu texto absolutamente datado, aqui. Fiquei com a impressão de estar devendo um post mais básico sobre linguagem inclusiva, ou trazer algumas discussões do porquê determinados setores da mídia corporativa se negam a chamar a Dilma de presidenta, mas acho que esses pontos cabem em outro momento.

Até logo o/

8 de março e o feminismo na minha vida

10 mar

O mês de março me pôs a refletir: e se não houvesse feminismo em minha vida? Afinal, não é incomum entre as mulheres da minha classe acreditar que o feminismo foi algo muito importante no passado, mas que hoje as coisas mudaram e que aquele machismo grosso é coisa de um ou outro anacrônico ignorante. Infelizmente isso não corresponde ao que vemos por aí. No Brasil essas mesmas mulheres, com nível superior de formação, chegam a receber em média 58% do salário de seus colegas homens. Muitas delas estão liberadas de serem donas de casa porque pagam para que outras mulheres o sejam. Mais de 4 mil mulheres são assassinadas por ano e em 70% dos casos os homicídios foram cometidos por seus companheiros, ex-companheiros, pais, padrastos ou alguém afetivamente muito próximo a elas. É um dado terrível que atravessa todas as classes. Enfim, dados como esses são o suficiente para me convencer que o machismo existe, fere e mata.

Porém também em nossos cotidianos acontecem coisas que nos fazem sentir mal, desconfortáveis, desrespeitadas e oprimidas. Coisas que às vezes as consideramos males menores, ou apenas problemas particulares. Porém, acredito que apenas com uma pitada de feminismo passamos a ver as coisas de maneira bem diferente. Por isso hoje resolvi escrever sobre a importância do feminismo na minha vida. Será uma espécie de depoimento pessoal. Até pretendo compartilhar coisas que são de dar vergonha a qualquer militante.

Na verdade o feminismo  chegou tarde na minha vida. Acho que eu tinha uns 18 anos. Eu até achava que era feminista já. Defendia a igualdade, combatia a violência contra as mulheres e achava uma palhaçada essa coisa de abrir a porta do carro, pagar uma bebida, virar chaveirinho do namorado e os rótulos de “galinha”, “vadia” e afins. Achava eu que era muito bem resolvida com a minha condição de mulher. Só que um dia, nas reuniões do Movimento Passe Livre (MPL), começou a se tornar frequente o tema do machismo. No começo eu não dei muita bola, achava que era implicância com alguns companheiros. Mas a discussão foi ganhando corpo, muitas companheiras que eu respeitava e me espelhava estavam envolvidas e assim fui me aproximando. E numa das conversas que se estendeu da reunião para o bar me caiu a ficha: eu sempre achei que eu não falava em público pelo movimento ou escrevia um texto com minhas posições, ou produzia algum material do MPL, porque eu era tímida, porque me sentia despreparada. Mas então ouvi várias meninas dizendo a mesma coisa. Seria uma coincidência que todas elas fossem tímidas? Que todas e todos prestem mais atenção quando os homens falam? E por que muitas vezes meninos que entravam mais tarde no movimento tinham mais facilidade para assumir essas funções? É claro que não havia no movimento uma conspiração do mal por parte dos homens do MPL, mas havia sim um machismo velado nas nossas relações, no modo em como nos víamos e agíamos dentro do grupo. A política ainda é um espaço muito machista e precisamos, homens e mulheres, desconstruir muitos maus hábitos que até mesmo a esquerda segue reproduzindo.

Depois que me dei conta que minha timidez não era exatamente um problema exclusivamente meu, fiz uma retrospectiva, atentando para várias frustrações que eu compartilhava com outra mulheres. Isso me ajudou a perceber como um sofrimento que a princípio pode parecer pessoal, é na verdade um problema social e uma questão política. Por exemplo, um outro lugar no qual o machismo (e o capitalismo!) se expressa com frequência é no corpo. Esse sentimento de desconforto com o nosso corpo – que para algumas pessoas chega ao ponto  insuportável de não se aceitar –, por que será que é tão comum? Lembro de uma atividade que uma professora de educação física fez com a minha turma, só de meninas, na quinta série. Ela pediu que desenhássemos um corpo que gostaríamos de ter. O absurdo é que eu, como a maioria das meninas, não imaginei um outro corpo, sei lá com asas, por exemplo.  Desenhei um que já existia: a Sheila Carvalho. Provavelmente porque querer ser a loira do Tchan seria um tanto ridículo. Era melhor querer ser a morena, por mais que eu estivesse anos luz  dos seus cabelos lisos e olhos verdes.

Mais tarde várias das minhas coleguinhas fizeram luzes ou pintaram seus cabelos de loiro, eu mesma fiquei ruiva por uns tempos. Acho que naquela época a Shakira ainda não era loira, pois se fosse com certeza eu teria feito alguma coisa muito errada com o meu cabelo. Essa era nossa referência de boniteza na época, que é, digamos, no mínimo limitada a um único padrão. Não acho que ter vários padrões, como o das gordinhas, branquinhas, negras, ou seja, as toleráveis belezas reais das propagandas da Dove resolvam esse problema. Mas ter uma diversidade de referências talvez sim. Até vemos na televisão uma Daniele Suzuki, uma Taís Araújo ou Dira Paes, mas infelizmente o padrão continua sendo branco, cabelos lisos, feições afiladas, no qual muitas dessas exceções precisam se encaixar. Tanto que me assustei com um depoimento publicado outro dia pela blogueira Lola (http://escrevalolaescreva.blogspot.com/2012/02/guest-post-e-duro-ter-cabelo-duro.html), É duro ter cabelo duro, escrito por uma menina de apenas quinze anos que não tolerava seu próprio cabelo e nem aceitava as formas do seu corpo. É um caso extremo, mas muito comum. Não são poucas as mulheres que se expões a procedimentos dolorosos para transformar o seu corpo como se este fosse apenas uma coisa a ser moldada, e não aquilo que as constitui, o que as faz ser o que são.

Não julgo as pessoas que pintam, alisam, enrolam ou raspam seus cabelos. Nem quem faz cirurgias plásticas, body modifications ou passa horas na academia esculpindo o “corpitcho”. Não acredito num corpo “puro” , nem que a beleza “natural” seja a mais bela. Na verdade, nem sei se isso existe. Somos moldadas e transformadas pela cultura que compartilhamos em sociedade. Nossa postura, nossas roupas, nossos concepções de beleza foram construídas ao longo da história. Elas mudam e se transformam. Por isso acho que não custa nada de vez em quando pensarmos sobre elas, saber da onde vêm e como foram em outras épocas. Até para lembrarmos que há motivos para acharmos certas coisas belas e outras não. Isso não é algo inato! A partir daí podemos debater se concordamos ou não com estas concepções, e, por que não, imaginar outras possibilidades.

Pensando sobre isso eu lembro de uma fala no filme da francesa Agnes Varda: Cléo de 5 à 7. Foi proferida por uma amiga de Cléo, a belíssima cantora de sucesso, que logo no início do filme fica sabendo por uma cartomante que está muito doente. Sua beleza é algo muito importante para sua existência. Logo após receber a notícia diz para si mesma, olhando-se no espelho: “Calma, bela borboleta, a feiúra é uma espécie de morte. Enquanto eu for bonita, estarei ainda mais viva do que os outros”. Em um dado momento do filme, se cansa de seu apartamento, das pessoas a sua volta, da sua constante preocupação com o olhar dos outros. Talvez cansada de si ela parte para a rua. Novamente de frente para um espelho diz a si: “Meu rosto de boneca que não muda, esse chapéu ridículo (tira o chapéu). Não consigo ver meus próprios medos. Sempre acho que todos estão olhando para mim, mas eu olho somente para mim mesma. Isso me deixa exausta”. No caminho vai ao encontro de uma amiga, que está num atelier, posando nua para alguns escultores. Ela a pergunta: “Você não se importa em posar?”, a amiga responde “Não, por quê?”. “Eu me sentiria tão exposta, com medo que encontrassem um defeito”, vem então a resposta fantástica: “besteira! Meu corpo me deixa feliz e não orgulhosa”. Que bela máxima para se seguir, não acham? Ela que entendia que ao olharem o seu corpo, os artistas viam mais do que ela, mas formas, inspirações para sua esculturas. Desde que assisti esse filme sempre que tenho algum vacilo ideológico e penso em mudar qualquer coisa em mim, me pergunto: eu quero isso porque irá me fazer feliz ou para ficar exibindo para os outros? Ou porque sou cobrada pelos outros?

O feminismo no meu cotidiano é um pouco isso: estar a atenta a essas coisas aparentemente normais e pessoais que me deixam insegura em relação a mim mesma. Algumas delas vamos aprendendo a contornar por conta própria. Mas como o problema não está na gente, é só coletivamente que vamos conseguir mudar as coisas. Por isso aproveito esse dia que celebra a luta pela emancipação das mulheres para mandar um salve para todas as companheiras e companheiros que compartilham comigo o desejo de um mundo mais justo, livre, democrático e feminista!

|cinclube Imagens em Movimento e A Canhota apresentam: Persépolis | 22/09 às 19h no SEEB!

19 set

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