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Texto pós-pleito

31 out

Não temos um muro separatista no Brasil como alguns já estão propondo, mas temos uma cortina de fumaça que ofusca o coração de grande parte da população brasileira.
Uma sociedade que demonstrou não conseguir se colocar na posição do outro, que não consegue pensar no que o outro sente e vive.

Não estamos falando de partidos vitoriosos ou derrotados. Estamos falando das milhares de pessoas que ainda passam fome no Brasil e também das outras tantas milhares que agora tem o que comer. Migalhas??? Para quem tem mais que isso certamente o é! Que bom que você não precisa do Bolsa Família, não é mesmo? Esperamos que a médio prazo ninguém mais precise. Mas não esqueça do IPI reduzido do seu carro zero.

Estamos falando da epidemia homofóbica assassina que vem matando quem tem sua sexualidade questionada. Sexualidade essa que está longe de ter sido uma “opção sexual”. E está longe também de ser um problema para você!
O termo “tolerância” já se torna questionável a partir do momento em que se compreende que as pessoas são como são. A diversidade é isso! É preciso aprender a gostar das pessoas como elas são e não apenas tolerar por uma falsa cartilha de ética.

É por falta de empatia que milhares de mulheres morrem todos os anos fazendo abortos clandestinos. Você já se colocou no lugar de alguma delas? Podemos garantir que o aborto é uma das piores coisas que pode acontecer na vida de uma mulher, ainda assim é o último recurso encontrado em meio a uma gravidez indesejada. O aborto causa medo, dor, sofrimento, desespero, prisão em alguns casos e muitas vezes arrependimento. Agora, o mais grave que pode acontecer com essas mulheres é a morte por falta de assistência.

Desça do seu pedestal e perceba o sofrimento de quem está perto de você e de quem está longe também. Ah, claro! A Angelina Jolie adotar meia dúzia de crianças estrangeiras famintas é louvável. Mas tirar milhares de crianças e adultos da fome extrema em território nacional é assistencialismo.

Fique com seu deus e não esqueça que ele está vendo!

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Diário de uma mãe feminista

4 jul

Ilha de Santa Catarina, junho de 2010.

A Canhota – “Diário de uma mãe feminista”.

Dedico essa coluna a tod@s que acreditam que a mudança de comportamento acontece na própria casa, na esquina, na escola, no boteco. A todas as pessoas que tomam pra si a responsabilidade diária de questionar e reconstruir conceitos sociais. Gostaria de compartilhar com vocês, dúvidas, alegrias e frustrações relacionadas à rotina de uma grande responsabilidade: criar filhas ou filhos.

Pensando de uma maneira mais ou menos cronológica, lembro que o primeiro enfrentamento que tive foi ainda na maternidade. Por que furar as orelhas da minha filha? Pra quê? E principalmente, pra quem?

Não quero me estender aqui na questão histórica, mas acho inevitável fazer um breve resgate da utilização de trajes e ornamentos.

Além de seu papel óbvio, cobrir o corpo, as roupas sempre foram percebidas como ícones representativos, simbolizando castas, classes, hierarquias, cerimônias. Os ornamentos têm importância semelhante. Por milhares de anos foram usados como amuletos além da sua função imediata, a estética.

É sabido que não faltaram elementos opressores nesses vestuários, principalmente contra as mulheres, que deveriam permanecer omissas e muito bem comportadas. É verdade também que conquistas no comportamento feminino foram deixando para trás espartilhos, anquinhas estruturadas com ferro, penteados com quase um metro de altura, sapatos com plataformas esculturais ­- embora hoje ainda existam muitos elementos de questionável utilização, os brincos em recém-nascidas, por exemplo.

Por que afinal submeter as meninas a essa dor, mesmo que seja uma dor rápida? Por que as mães que sentem pena de vacinar são as primeiras a autorizar a colocação? O que está por trás desse “belo par de brincos”? Está a opressão, meninas que já nascem sujeitas a um padrão estético estabelecido, em uma sociedade que ainda teima em achar que a beleza feminina está diretamente ligada a sacrifícios físicos. Está por trás disso a arrogância materna em achar que tem totais direitos sobre a filha pelo simples fato de tê-la parido. Está por trás o autoritarismo em acabar com o direito de escolha.

Algumas pessoas devem estar pensando: “Mas ela pequena vai sofrer menos”. E fazer sofrer menos é melhor que simplesmente não fazer sofrer?

Outras devem pensar: “Mas quando ela crescer vai querer furar”. Ótimo! É esse o ponto. Quando ela crescer será avisada que dói um pouco e que poderá usar brincos que machucam ou não. E ela decidirá se tem ou não disponibilidade pra isso.

Para as mães que tem dúvidas, pensem em quantas vezes precisou tirar os brincos porque estavam incomodando. Pensem que as meninas sem brincos não ficam masculinizadas. Pensem que suas filhas não podem ser exibidas como troféus. Que você está pensando apenas em você mesma quando decide colocá-los. Pensem que, sem dúvidas, este é o primeiro ato de abuso de poder materno.

Essa foi a primeira postagem da coluna “Diário de uma mãe feminista”. Instinto materno, depressão pós-parto e legislação, serão alguns dos próximos temas abordados.

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