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Mais do mesmo, a lógica de culpabilização da vítima em situações de violência

15 dez

Hoje o Fantástico começou com uma reportagem sobre crianças desaparecidas. Em uma espécie de teste de atenção com quem cuidava da criança, um estranho, contratado pelo Fantástico, se aproximava das crianças, puxava conversa e oferecia um pirulito. Algumas crianças conversaram com esse ator e pegaram o doce. A matéria foi inspirada em uma campanha internacional, e no pirulito entregue para as crianças constava a mensagem “basta um segundo para atrair seu filho para longe. Fique de olhos atentos antes que seja tarde demais”.

Estou gestante, e daqui dois meses terei um filho nos braços. Fico pensando o quanto deve ser terrível ter um filho roubado, desaparecido, é uma situação tão violenta que só de pensar fico profundamente angustiada.

Nos primeiros minutos da matéria refletia, “sim, realmente ter um filho exige muita atenção”. Mas conforme a reportagem prosseguia, vieram os relatos de pessoas que tiveram suas crianças roubadas, a dor dessas pessoas era visível. É muito cruel culpá-las por “1 segundo de distração”. É cruel porque é impossível não se distrair por 1 segundo, é humanamente irrealizável, é psicologicamente inviável. Criar uma criança visando o controle absoluto da sua vida irá tornar a pessoa que cuida da mesma doente, e possivelmente a criança também.

É realmente fundamental para quem deseja cuidar de uma criança ter atenção, muita atenção, principalmente nos quesitos de segurança, para evitar acidentes domésticos, ou outras situações que coloquem a criança em risco.

Mas no caso das crianças roubadas, o que causa o desaparecimento delas? 1 segundo de distração de quem está cuidando? Ou o ser humano perturbado que rouba a criança? Observo no caso dessa matéria, e de outras sobre o desaparecimento de crianças, a mesma lógica de culpabilização da vítima que é comum nos casos de violência contra a mulher. O que causa o estupro? Uma saia curta? Estar na rua a noite? Beber demais em uma festa? NÃO!! É o estuprador.

Como mãe-gestante-feminista não consigo parar de ver semelhanças entre essa situação de desaparecimento de crianças e os casos de violência contra a mulher. Como se já não bastasse o sofrimento gerado pelo sumiço, a família que tem uma criança desaparecida ainda sofre uma segunda violência, por ser indiretamente julgada como culpada por uma situação causada por terceiros.

Espero que a abordagem sobre esses temas mude. Espero ver campanhas e matérias que apontem para a única solução possível para evitar o desaparecimento de crianças, a investigação e localização das pessoas que cometem esse crime. Basta um espirro para 1 segundo de distração, e a segurança e integridade do meu filho não pode ser resumida a eu nunca mais poder espirrar.

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