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Vocês não são índias!!

25 jan

Depois que virei mãe que me dei conta como esse meio materno é cheio de modismos e códigos próprios.

Ultimamente tenho lido algumas mães se auto intitularem “índias”, por escolherem um parto natural, por utilizarem fraldas de pano, por penduraram um colar de âmbar, por amamentarem, por usarem sling, por fazer cama compartilhada, ou qualquer outra atitude que vá contra a lógica hegemônica de criação e nascimento.

Acho muito bacana várias dessas coisas que as auto intituladas “índias” pregam e fazem. Também tenho consciência que essa auto nomeação é uma resposta a um obstetra fofo que disse que mulher da cidade não consegue parir naturalmente, porque elas não são índias. E não somos mesmo!

É muito importante nos empoderarmos quanto ao nosso corpo, capacidade de fazer nascer e amamentar um bebê, mas isso não nos faz índias. Continuamos sendo mulheres da cidade, com toda assistência pública e privada ao nosso alcance. Nossos bebês tem pleno acesso ao SUS, participamos de fóruns on-line, temos internet em casa e compramos fraldas de pano em lojas virtuais.

É ofensivo vocês se chamarem de índias. Vocês estão generalizando a diversidade da cultura indígena, elas não são todas iguais, não existe “a índia”, cada etnia tem uma riqueza cultural enorme. Vocês demonstram uma total falta de noção sobre a realidade indígena brasileira, romantizando a vida sofrida dessas mulheres, que muitas vezes precisam pedir dinheiro para sobreviver, e que estão longe de ter uma doula, um parto humanizado, ou assistência plena a saúde.
Fui doar as roupinhas do Miguel que não serviam mais para uma moça do Morro dos Cavalos, que sempre está com as crianças no calçadão. Eu não vi seus filhos com fralda de pano, eu não vi colar de âmbar no pescoço de ninguém, eu vi crianças comendo salgadinho e refrigerante porque provavelmente foi o que alguém deu a eles.

É ofensivo quando alguém repleto de privilégios se auto intitula uma minoria.
Por isso parem, apenas parem de se chamar de índias.

Menos dispositivos, mais disposição

9 dez

Mães de primeira viagem, como eu, são alvos fáceis para a indústria de quinquilharias infantil. Nossas inseguranças são gigantes. A cabeça está cheia de dúvidas. Será que vou dar conta? Tenho capacidade de cuidar de uma outra vida além da minha? E se eu falhar, o que será do meu filho?

Para uma cabeça tão inquieta, um armário cheio de aparelhos que prometem ajudar a cuidar da criança é um alívio. Bico de silicone para amamentação, pratinho com sinalização de temperatura do alimento, cadeira que embala, babá eletrônica que filma, DVD que promete deixar a criança mais inteligente, máquina para fazer papinha etc. O “item indispensável” mais chocante que tive conhecimento é uma tornozeleira que monitora os sinais vitais do bebê, e envia mensagem de texto com essas informações. A imagem do bebezinho com essa tornozeleira me lembrou aqueles dispositivos que os presos utilizam, para não escaparem da vigilância policial.

É claro que toda invenção que libere a cuidadora (ou cuidador) de alguma função desgastante é super bem vinda. Por isso acho a máquina de lavar roupa realmente indispensável, bebê suja roupa à beça, e se você for passar o dia esfregando fica difícil cuidar da cria.

Mas até que ponto essas invenções realmente ajudam ou dificultam o contato com a criança? Todos esses aparelhos facilitam o dia-dia da cuidadora ou colocam uma barreira que atrapalha a experimentação do cuidado?

Fui deixando para comprar mais tarde alguns acessórios que achava importantes, como a babá eletrônica, e me dei conta que não precisava dela. Minha casa é pequena, se o filhote acordar e chorar eu escuto, sem dúvidas escuto. Para fazer a papinha me bastou uma panela com revestimento atóxico. Para embalar o bebê eu e meu marido fazemos revezamento de colo. Para medir a temperatura da água do banho e da comida a boa e velha mão dá conta. Para entreter o bebê passamos um tempo brincando com ele, ou levamos para um passeio na rua.

Cuidar, criar, educar é estar presente com o corpo, é estar sensorialmente atento. Para cuidar é preciso tocar, olhar, sentir. Mas se você tem um monte de coisas que fazem isso por você. Uma cadeira que embala, um aparelho que mede constantemente a temperatura e batimentos cardíacos, antevendo qualquer mal estar do bebê, um plástico que é colocado entre a boca do seu filho e seu peito. Tudo isso deixa a experiência de troca entre vocês dois mais pobre, menos direta, pouco intensa. Por isso acho que bugiganga demais mais atrapalha que ajuda. Usar tantos recursos nos impede de aprender a usar as nossas próprias ferramentas para cuidar.

Não há embalo mais gostoso que os braços quentes. Não há bico que torne a amamentação mais fluída que o próprio bico do seio. Não há diversão maior para uma criança que brincar com alguém de verdade, que não seja uma imagem na televisão. Não há medidor de mal estar mais eficiente do que o olhar atento de uma mãe para um filho. Não há nada que facilite mais o cuidado do que estar disposta a aprender a cuidar.

Despreparadas

20 nov

Dia desses, enquanto caminhava para a análise e olhava o celular (comportamento de risco, eu sei!! Andam afanando muitos aparelhos de pessoas distraídas), me deparei com um texto cujo título era “A nossa geração não está preparada para ser mãe”. Fiquei curiosa para saber a qual geração a autora se referia, seria a minha? Quais motivos ela elencava para o nosso despreparo? Qual geração esteve preparada para a maternidade? E afinal, qual é a preparação necessária? Não desgrudei os olhos da tela até terminar a leitura. Já refleti bastante sobre esse tema, muitas sessões de análise foram dedicadas a ele. Até fiz um textinho para o blog sobre a tal preparação.

A primeira frase do texto é “Não sou psicóloga”. Pronto, já bateu o pré-conceito. Sempre que alguém começa justificando que não é psicóloga é porque vai usar algum conceito ou teoria da psicologia, e nesses casos é muito comum rolar uma psicologização rasa da vida, uma coisa que nós psicólogas realmente não gostamos. É comum acharem que tudo se trata apenas de um problema psicológico, individual, “o problema do fulano é que ele tem o psicológico fraco”, ignorando que vivemos em sociedade, possuímos uma história construída com diversas outras pessoas, e que sim, temos problemas individuais, mas eles não são a causa exclusiva de todos os nossos males.

Voltando ao texto, a autora tem dois argumentos principais que sustentam sua reflexão sobre o despreparo das mães na faixa do trinta anos. O primeiro é que as gerações anteriores tinham mais contato com crianças e bebês, e que esse fato tornava as mulheres mais familiarizadas com as questões da maternidade. O segundo é que as mães da nossa geração não foram educadas para serem mães, mas sim para se dedicarem a vida profissional, carreira e trabalho.

Discordo profundamente desses dois argumentos.

É claro que o contato com crianças e bebês facilita os primeiros cuidados com um filho. Acho que o cuidado deve ser compartilhado com outras pessoas, pais, avós, professoras, babás, afinal cuidar 24 horas por dia, 7 dias por semana é muito desgastante. E a mãe que dividir os cuidados com outras pessoas não será menos mãe por isso. Mas saber cuidar, banhar, alimentar, uma criança é saber ser uma mãe? É possível “treinar” ser mãe?

Para mim a maternidade não é algo que possa ser aprendido, ela só pode ser vivida, é a experiência com o filho que torna alguém mãe. Mas não é possível treinar ser mãe com o filho dos outros. Se a maternidade fosse uma questão de conhecimento disponível, hoje estaríamos mais preparadas que nossas mães e avós. Imagina que elas nos criaram sem o oráculo Google. Sem poder consultar os diversos tutoriais, sem participar de fóruns e tirar dúvidas com outras mães de diversas partes do mundo. Hoje também existem os famosos cursinhos para pais e mães, onde os cuidados básicos que antes eram aprendidos na família agora são ensinados por profissionais.

Tornar-se mãe é tão radical, tão único, que não existe conhecimento, técnica, manual, guia, passo-a-passo, que possa ensinar alguém a ser mãe. Cada uma será mãe à sua maneira, e se ficar tentando se ajustar às exigências dos outros provavelmente sofrerá um bocado.

Já no meio do texto que surge o argumento psicológico, que justifica o início “Não sou psicóloga”. A autora fala sobre a diferença entre a nossa geração e as anteriores, argumentando que nossas mães e avós tinham um preparo prático e psicológico NATURAL para serem mães. Foi aí que a psicóloga feminista teve um treco. As gerações anteriores não foram naturalmente transformadas em mães. Elas foram obrigadas a serem mães, fadadas a serem mães, constrangidas a serem mães, e acredito que por terem poucas possibilidades de escolha tentavam levar a maternidade da melhor forma possível, afinal era o que lhes restava. Mas não tenho dúvidas que essa maternidade forçada trouxe muito sofrimento para diversas mulheres. E continua trazendo hoje em dia para aquelas que acabam engravidando sem querer e são obrigadas a se tornarem mães Falar em instinto materno é uma violência contra as mulheres que não querem ser mães. Não existe instinto, existe desejo. E se a mulher não desejar ser mãe ela não deveria ser obrigada.

A autora erra ao achar que as dificuldades que encontramos para sermos mães não existiam em gerações anteriores. Talvez o que não existissem fossem espaços para aquelas mulheres externarem suas angustias, blogs para escreverem, fóruns para desabafarem, e principalmente, talvez a elas não fosse permitido sentir qualquer dificuldade ou medo.

O outro argumento da autora, para justificar o nosso despreparo como mães, é que a educação (das mulheres) está voltada para sermos profissionais e não mães. Fazendo uma análise superficial acredito a educação que recebemos não mudou tanto nos últimos anos, o papel de mãe ainda continua como uma obrigação feminina. Bato novamente na tecla das mulheres que são obrigadas a serem mães. É mulher? Engravidou? Vai ser mãe e pronto. Mesmo que não queira, mesmo que precise largar o trabalho, mesmo que tenha que deixar a vida profissional de lado. Acredito que no ranking das atividades designadas para as mulheres ser mãe ainda esta no topo.

Acho que a única coisa que concordo com a autora é que somos uma geração ansiosa e impaciente. Justamente por essas características queremos manuais e cursos que nos ensinem a sermos mães, bastando apenas escolhermos aquela teoria de criação que mais nos identificamos. Acho que por sermos tão impacientes não nos permitimos errar, falhar, faltar. Queremos que nosso filho nos complete, nos preencha. Mas o que acontece é que ele nos mostra que somos incompletáveis, que sempre haverá um espaço vazio dentro de nós. Tentamos resolver essas angustias participando de todos os grupos de mães, lendo todos os blogs, livros, fazendo cursos, comprando apetrechos (e que infinidade de quinquilharias dizem ser fundamentais para uma boa mãe, tá aí outro texto que quero fazer) enfim, tentando nos prepararmos para o impreparável, para o impossível.

Pré(par)ação, é algo que vem antes da ação.  Mas só se é mãe sendo, agindo, errando, aprendendo, falhando, uma mãe precisa fazer-se mãe. Nossa geração não está menos preparada que as gerações anteriores. Simplesmente porque não há preparação para a transformação radical que a um filho traz. Um filho muda tudo. 

Diário de uma mãe neurótica

26 jul

Não nascemos mulheres, tornamo-nos. Também não se nasce mãe, torna-se mãe. A maior besteira é dizer que toda mulher já nasce mãe, a maternidade deve ser uma escolha, e não uma imposição. Dizer que toda mulher já é mãe por natureza anula o papel do filho na construção da maternidade. Só existe mãe quando existe um filho. Lembro de um sonho que tive durante a gestação, nele paria uma menina, e não Miguel, essa menina rapidamente se tornava adulta, mulher, mãe. Em análise interpretei que ao parir meu filho iria também me parir como mãe. A gestação e o parto foram de uma mãe e um filho. Mãe e filho foram por certo tempo um só, mas separar-se é preciso.

Lemos nos guias de desenvolvimento dos bebês que eles experimentam a angustia da separação, o que não li foi que a mãe também pode sentir essa angústia. Será que meu filho já está preparado para nos separarmos? Será que não estou sendo uma péssima mãe por desejar voltar ao trabalho, afastar-me um pouco da vida doméstica? Atualmente vejo uma onda de mulheres que largam o trabalho para ficar com os filhos, não tenho vontade de fazer isso, será que sou uma mãe egoísta?

Separar-se é preciso, o bebê precisa formar-se sujeito, constituir seu ego, e para isso precisa separar-se da mãe, compreender que ele é outro, alguém único. Mas quando os bebês terão estrutura para suportar a falta da mãe? A falta é a própria estrutura, é preciso doar a falta para o bebê, pois sem falta não há desejo. Minha analista disse que a melhor mãe é a pior, é aquela que sabe faltar. Sigo pensado nisso, e deixando a culpa neurótica um pouco de lado.

E aí, você está preparada?

7 fev

Tomar a decisão de engravidar, ter ou não ter um filho sempre leva a essa pergunta, “E aí, será que estamos preparados para sermos pais?”

Mas para mim a pergunta é outra, qual é a preparação possível para uma situação tão radical? Que inevitavelmente vai mudar tudo.

Inventaram curso para gestantes e casais grávidos, fizerem você trocar a fralda e dar banho em um boneco, escreveram livros cheios de fórmulas infalíveis, fizerem filmes sobre parto, sem contatar os intermináveis fóruns e grupos no Facebook.

Então estar preparada significa apropriar-se do conhecimento produzido sobre o tema?

Não apenas isso, você precisa comprar um monte de parafernálias que inventaram, parar de comer um monte de coisas, passar a comer um monte de outras, deixar o quarto do bebê pronto até o 5º mês, fazer o chá de fraldas até o 7º, estar como a mala da maternidade pronta na 34ª semana, fazer um book da barriga no 8º mês, e claro, basicamente ter tudo planejado na sua cabeça, desde o plano de parto até que escola seu filho vai estudar no ensino médio.

Não fiz o curso para gestantes. Nunca troquei uma fralda na vida, muito menos dei banho num bebê. Ganhei vários livros que dou uma foliada, mas não leio com seriedade. Entrei em 2 fóruns mas não me envolvo. Decidi não assistir esses filmes de parto. Comi sushi a gestação toda, sem abusos mas comi. Tentei inúmeras vezes fazer um planejamento mas não consegui, porque como vou planejar uma coisa que não faço a menor ideia de como será? Quero ser surpreendida pela experiência de ser mãe (será que estou virando hippie??? nãooooo!!!!!) e tentar planejar tudo tiraria de mim essa possibilidade. Além do que a chance do planejamento dar todo errado é gigantesca, o que geraria uma enorme frustração, porque eu não tenho experiência e vivência nenhuma no assunto para fazer um bom planejamento.

E todos esses recursos não me preparariam para ser mãe, eles tem uma única finalidade, buscar reduzir a ansiedade gerada pelo enfrentamento do desconhecido. Minha decisão de não fazer todas essas coisas não foi pensada, simplesmente aconteceu, não tive vontade, nada disso me mobilizava. Mas a minha ansiedade foi muito bem trabalhada (na comida). Tomei muito frozzen capuccino depois das sessões de análise, comi vários pastéis depois da drenagem linfática, me deliciei com pães de queijo após fortalecer a lombar com fisioterapia. Achei outras válvulas de escape para a ansiedade, mais gostosas!!! Se eu tivesse habilidades manuais acho que iria tricotar e bordar coisinhas pro bebê, deve ser ótimo para a ansiedade, além de não ganhar peso.

Depois de pensar tanto sobre estar ou não preparada, concluí que a única preparação possível é o desejo, ter vontade de ser mãe, estar com a energia mobilizada para isso. Esse envolvimento é um processo, vai acontecendo durante a gestação, também por isso ela dura nove meses, é um bom tempo para você ir trabalhando com o desejo. Mas antes de engravidar esse desejo deve existir em algum lugar, para com o tempo da gravidez ele ir se consolidando.

E por isso ninguém deveria ser obrigada a ser mãe, se por um acaso da vida uma mulher engravidou ela deve ter garantido o direito sobre seu desejo, e sobre seu corpo. Quando obrigam uma mulher a manter a gestação tiram dela o fundamental para a experiência da maternidade, que é o direito de escolha de ser ou não ser mãe, e em nome de um futuro bebê arrancam dele o direito de ser desejado.

Mais do mesmo, a lógica de culpabilização da vítima em situações de violência

15 dez

Hoje o Fantástico começou com uma reportagem sobre crianças desaparecidas. Em uma espécie de teste de atenção com quem cuidava da criança, um estranho, contratado pelo Fantástico, se aproximava das crianças, puxava conversa e oferecia um pirulito. Algumas crianças conversaram com esse ator e pegaram o doce. A matéria foi inspirada em uma campanha internacional, e no pirulito entregue para as crianças constava a mensagem “basta um segundo para atrair seu filho para longe. Fique de olhos atentos antes que seja tarde demais”.

Estou gestante, e daqui dois meses terei um filho nos braços. Fico pensando o quanto deve ser terrível ter um filho roubado, desaparecido, é uma situação tão violenta que só de pensar fico profundamente angustiada.

Nos primeiros minutos da matéria refletia, “sim, realmente ter um filho exige muita atenção”. Mas conforme a reportagem prosseguia, vieram os relatos de pessoas que tiveram suas crianças roubadas, a dor dessas pessoas era visível. É muito cruel culpá-las por “1 segundo de distração”. É cruel porque é impossível não se distrair por 1 segundo, é humanamente irrealizável, é psicologicamente inviável. Criar uma criança visando o controle absoluto da sua vida irá tornar a pessoa que cuida da mesma doente, e possivelmente a criança também.

É realmente fundamental para quem deseja cuidar de uma criança ter atenção, muita atenção, principalmente nos quesitos de segurança, para evitar acidentes domésticos, ou outras situações que coloquem a criança em risco.

Mas no caso das crianças roubadas, o que causa o desaparecimento delas? 1 segundo de distração de quem está cuidando? Ou o ser humano perturbado que rouba a criança? Observo no caso dessa matéria, e de outras sobre o desaparecimento de crianças, a mesma lógica de culpabilização da vítima que é comum nos casos de violência contra a mulher. O que causa o estupro? Uma saia curta? Estar na rua a noite? Beber demais em uma festa? NÃO!! É o estuprador.

Como mãe-gestante-feminista não consigo parar de ver semelhanças entre essa situação de desaparecimento de crianças e os casos de violência contra a mulher. Como se já não bastasse o sofrimento gerado pelo sumiço, a família que tem uma criança desaparecida ainda sofre uma segunda violência, por ser indiretamente julgada como culpada por uma situação causada por terceiros.

Espero que a abordagem sobre esses temas mude. Espero ver campanhas e matérias que apontem para a única solução possível para evitar o desaparecimento de crianças, a investigação e localização das pessoas que cometem esse crime. Basta um espirro para 1 segundo de distração, e a segurança e integridade do meu filho não pode ser resumida a eu nunca mais poder espirrar.

Prefere parto normal? Só pode ser louca!

13 out

Encontrei uma conhecida na rua com seu filho de 7 meses, conversamos sobre fraldas, alimentação, creche, e outros assuntos que envolvem bebês. Em certo momento ela me perguntou: “E o parto? Vai fazer cesárea?”, respondi “Não, eu quero fazer parto normal”, a contra resposta parecia já estar na ponta da língua, “Louca!”. Fiquei sem resposta, continuei meu caminho e refletindo porque é tão frequente ser julgada estranha por querer parto normal.

Minha escolha pelo parto normal é totalmente o contrário de uma loucura qualquer, é bem racional por sinal. Não quero passar por um procedimento cirúrgico sem haver necessidade clínica. A cesárea é uma operação, e se decido realizá-la devo tomar todos os cuidados que uma cirurgia envolve. Prefiro o parto normal porque não quero ser operada sem precisar, não quero passar por um pós-operatório cheio de cuidados para não pegar uma infecções, para os pontos não inflamarem etc. Para mim insano é querer ser operada sem precisar. Mas como feminista defendo o direito de escolha da mulher sobre seu próprio corpo, e as mulheres que optam pela cesárea devem respeitadas. Mas também como feminista vejo que certos padrões estéticos são exigidos de nós, muitas desejam passar por cirurgias para corresponder e se enquadrar a esses padrões. Só a mulher tem o direito de decidir o que fazer com o seu corpo, mas devemos refletir que forças e discursos tensionam para que tantas mulheres desde cedo já desejem peitos, bundas, coxas e cinturas diferentes das que possuem. Esses padrões estéticos vigentes também estimulam a preferência pela cesárea, quantas vezes ouvimos outras mulheres falando que não querem passar por um parto normal pois isso iria tornar sua vagina defeituosa, indesejável? De fato muitas mulheres são mutiladas durante o parto normal, em função de um mito que todo parto exige a episotomia, porém diversos estudos comprovam que esse é um procedimento ultrapassado e que não precisa ser utilizado em todos os partos normais. A mutilação não é uma consequência do parto normal, e sim uma ação de médicos mal preparados que realizam procedimentos desnecessários, as coisas estão invertidas, médicos ruins causam mutilação e não partos normais.

A médica Melania Amorim também defende o direito de escolha das mulheres, mas argumenta que essa escolha precisa ser esclarecida. A gestante deve saber todas as consequências e riscos que uma cesárea implica, é compromisso ético dos médicos oferecer essas informações. Mas o que acontece é que muitas vezes os médicos indicam e induzem as mulheres a preferirem cesáreas pensado no que é melhor apenas para eles, e não para as gestantes. No blog da Melania ela traz uma lista com os casos onde a cesárea é recomendada, e outra lista com motivos falsos para operar.

Não tenho expectativas que meu parto seja um momento mágico, pelo contrário, acho que será um momento tenso. Não quero que filmem ou fotografem minhas entranhas, não acho que é uma cena que meu filho precisará ver para saber como ele foi amado e desejado. Particularmente considero essa enxurrada de imagens de parto um pouco desnecessária, na minha cabeça tão desnecessário quanto seria registrar para mostrar para a criança o momento que ela foi concebida, apesar de considerar que esse tipo de imagem pode ser mais interessante esteticamente. Parece que as pessoas estão perdendo a dimensão do que faz parte da intimidade, mas esse é outro assunto.

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