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O riso dos outros

23 dez

Mais de 6 meses sem atualização aqui é demais! Nossas “férias” acabaram.

Pra quem gosta de humor, ou pra quem detesta porque acha que tende a reproduzir estereótipos e reforçar preconceitos, esse documentário de Pedro Arantes, O riso dos outros, pode ajudar a pensar algumas coisas. Pelo menos que o humor não precisa sempre usar os estereótipos como muletas, mas talvez o mais interessante seja aprender a rir, a fazer piada das formas como estes mesmos estereótipos-muletas utilizados pelo humor mais comum se constituem.

Outro ponto interessante que é abordado é o do politicamente correto, e como a associação entre defesa de direitos e censura tem passado a impressão de que revolucionários são os que vem reproduzindo (e recriando!) tradições centenárias ou até milenares de exclusão, apontando estes como livres, símbolos da legítima liberdade de expressão, e quem busca a transformação como “careta”, polícia do politicamente correto ou o que for. É uma inversão torta e profundamente conservadora, que vemos o tempo inteiro e pouco se fala a respeito.

Vale ainda observar como mulheres podem ser sexistas, exemplos de negros reproduzindo o racismo nas piadas e homens brancos questionando o humor de forma séria, e buscando alternativas. Só pra pensar que algumas de nossas identidades são menos importante do que o que fazemos com elas, no final das contas.

Sobre linguagem inclusiva

1 jun

Terminei de ler agora uma espécie de livreto do governo mexicano, realizado – me parece, não li essa parte com atenção – com o apoio do CEDAW (Committee on the Elimination of Discrimination against Women)/ONU, de 2009, e pelo que eu entendi revisado e distribuído pelo Consejo Nacional para Prevenir la Discriminación (CONAPRED) do México, intitulado 10 recomiendaciones para el uso no sexista del lenguaje. Não estou mesmo com vontade de reler essa parte para confirmar essas informações, mas elas estão ali.

O ponto que me interessa é que, apesar de toda discussão que pode gerar, achei este um documento bem interessante para se levantar o problema. A maior parte das questões gramaticais do espanhol nesse sentido são semelhantes ao português, o que torna o documento bem útil para nós. Achei especialmente interessante o fato de ao invés de se buscar trabalhar com a redefinição dos artigos “o” e “a”, naquela coisa de “@”, “x” (e até “e” ou “i” já vi serem discutidos), no geral são propostas formas de utilizar os recursos que a própria língua oferece. No caso do português considero isso especialmente positivo, pois assim podemos evitar uma linguagem inclusiva “mussumiana”, como por exemplo “caris amiguis”, que convenhamos, não contribuiria em nada para os chistes que em geral são utilizados para ridicularizar as feministas.

Isso tudo me lembrou algo que escrevi para o terceiro número d´O Independente em 2005, que reli hoje com certo embaraço. Não reescreveria nada daquilo daquele jeito. Mas bem, os textos são datados, e a discussão é a mesma. Apesar de que atualmente tenho minhas dificuldades em localizar as feministas estruturalistas que cito ali!! hehe

Pra quem tiver curiosidade, o livreto pode ser acessado aqui; e o meu texto absolutamente datado, aqui. Fiquei com a impressão de estar devendo um post mais básico sobre linguagem inclusiva, ou trazer algumas discussões do porquê determinados setores da mídia corporativa se negam a chamar a Dilma de presidenta, mas acho que esses pontos cabem em outro momento.

Até logo o/

Divulgando a Marcha em Floripa

26 abr

Marcha das Vadias - 26 de março em Floripa

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“VIOLAÇÃO

(…)

b) Século XX

Para a mulher, a definição de violação é simples: todo ato sexual praticado em seu corpo, contra sua vontade. Isso independentemente de sua idade, estado civil, hábitos sexuais privados etc.

Para o homem é completamente diferente. Ele não define a violação. Nega-a conforme sua própria concepção das circunstâncias que envolvem o ato sexual praticado por ele. Uma “auto stop” que transporta em seu carro é suposta culpada e não vítima da violação sofrida.

Se uma jovem usa saias muito curtas, é que consciente, ou inconscientemente, queria atrair um homem, portanto é culpada.

‘Fantasmas’ de violação são atribuídos às mulheres, o que justifica que os homens tornem esses ‘fantasmas’ reais. Mas os ‘fantasmas’ de castração não justificam esse ato posto em prática pelas mulheres contra os homens. Que eu saiba, pelo menos.

Os juízes exprimem ainda freqüentemente uma ideologia tradicional masculina, quando chega até aos tribunais um caso de violação. É suficiente ler os inúmeros testemunhos reunidos num livro recentemente publicado na França. As atitudes judiciais e policiais com relação às ‘queixosas’ são de tal ordem que numa pesquisa empírica, feita em 1976, a polícia reconhece que somente uma mulher em dez ousa apresentar queixa.

A verdade é que não se pode saber, pois justamente as que escolheram … (escolheram?) calar, representam o desconhecido. Muitas guardam a vergonha em segredo, numa lembrança que as perseguirá sempre, quanto mais tentarem esquecer. Com mais razão se calam se o violador for membro da família. Menie Grégoire [radialista francesa, também contribuía escrevendo para revistas femininas], assombrada com o número de incestos em todas as classes sociais, a se julgar pelas milhares de mulheres que o confessaram em suas emissões radiofônicas, insiste sobre um fato revelador:

‘O ato sempre se passa na proximidade do resto da família (…). Forçada a manter durante dois anos uma ligação com seu pai, uma mocinha de quatorze anos retratou-se na ocasião do processo, sob a pressão de sua mãe, dos advogados, e dos magistrados: ‘Você quer então mandar seu pai para a cadeia, destruir sua família e ir parar na Assistência Pública?’.’

Num estudo aprofundado, Susan Brownmiller mostra como o estupro das mulheres do inimigo é uma tática de guerra e das revoluções, até mesmo no século XX. Demonstra a autora, com dados precisos, o estupro recomendado aos exércitos alemães contra a população belga e francesa durante as últimas guerras.

O estupro não servia somente para afirmar a vitória do inimigo, como também, numa propaganda bem orquestrada, intimidar uma possível resistência.”

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PRADO, Danda. Ser esposa: a mais antiga profissão. São Paulo: Brasiliense, 1979. Pg. 67-68.

Por ela citadas nesse trecho:

BROWNMILLER, Susan. Against our will. London: Secker & Warburg, 1975.

FARGIER, Marie-Odile. Le viol. Paris: Grasset, 1976.

GRÉGOIRE, Menie. Les cris de la vie. In: FARGIER, Marie-Odile. Le viol. Paris: Grasset, 1976.

Seminário Conexões entre Questões agrária, racial, gênero, classe e ambiental- Tânia Cristina Cruz (FUP-UnB)

10 abr

Fala clara, simples, direta e forte da professora e pesquisadora do Departamento de Sociologia da UnB, Tânia Cristina Cruz,no seminário organizado pelo grupo de pesquisas Modos de Produção e Antagonismos Sociais (MPAS): “Conexões entre questões agrária, racial, gênero, classe e ambiental”.

Lembrou-me muito as discussões e a luta que vi as mulheres do Movimento de Mulheres Camponesas fazerem, quando participei do EIV-SC. Deu muita vontade de compartilhar! A luta se dá no dia a dia, e não é fácil. Desde então guardo um carinho e admiração profunda por erssas mulheres camponesas.

 

Canhota indica

28 out

Olá!

 

Acho que deveria ter intitulado o post de “soraia indica”, mas estou entendendo que as meninas concordam comigo. Se não, sempre podemos editar os posts..

 

Nem tudo que é postado é muito bom, mas tenho tido acesso a alguns textos bem interessantes, principalmente sobre direitos reprodutivos,  através do Facebook das Católicas pelo Direito de Decidir. A organização tem um site, mas como muita gente tem Facebook e acessa diariamente, acho que fica mais fácil acompanhar por ali.

 

Nas informações no Facebook, além de endereço e contato, tem a seguinte descrição:

Católicas pelo Direito de Decidir, fundada no Brasil em 8 de março de 1993, é uma organização não governamental feminista. Busca a justiça social, o diálogo inter-religioso e a mudança dos padrões culturais e religiosos que cerceiam a autonomia e a liberdade das mulheres, especialmente no exercício da sexualidade e da reprodução.

Missão – Promover a mudança de padrões culturais e religiosos, afirmando os direitos sexuais e reprodutivos como Direitos Humanos, para garantir a autonomia e a liberdade das mulheres e a construção de relações igualitárias entre as pessoas.

Visão – Ser referência, para toda a sociedade brasileira, de uma corrente de pensamento ético-teológico feminista pelo direito de decidir.

Objetivos

• Sensibilizar e envolver a sociedade civil, principalmente os grupos que trabalham com serviços de saúde sexual e reprodutiva, educação, direitos humanos, meios de comunicação e legisladores sobre a necessidade de mudanças dos padrões culturais vigentes em nossa sociedade.

• Ampliar a reflexão ético/religiosa em um perspectiva ecumênica. Desenvolver diálogos públicos, tanto na sociedade como nas Igrejas, a respeito dos temas relacionados com a sexualidade, a reprodução humana e a religião.

• Influenciar na sociedade para que reconheça o direito que tem as mulheres a uma maternidade livre e voluntária, com o objetivo de diminuir a incidência do aborto e a mortalidade materna.

• Aprofundar o debate em relação à interrupção voluntária da gravidez, ampliando a discussão em seus aspectos éticos, médicos e legais e lutar pela descriminalização e legalização do aborto.

• Exigir do Estado o cumprimento dos compromissos assumidos nas Conferências Mundiais organizadas pelas Nações Unidas no Cairo (1994) e em Beijing (1995).

• A implementação de programas de educação sexual, nas perspectiva dos direitos sexuais e reprodutivos.

• A implementação de leis, políticas públicas e serviços de saúde, acessíveis a todas as mulheres, especialmente às mulheres pobres, para o efetivo gozo de sua saúde sexual e reprodutiva.

 

Se interessar, fica a dica 🙂

 

 

A coisa mais importante do mundo

13 out

Olá!

Estou “reblogando” deste link da Universidade Livre Feminista a tradução de um discurso de Naomi Klein sobre os atuais movimentos que ficaram conhecidos como “We are 99%” nos EUA.

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A intelectual e ativista canadense, Naomi Klein, fez um discurso histórico à Assembleia Geral do movimento Ocupar Wall Street

Tradução e nota introdutória de Idelber Avelar – Revista Fórum

Naomi Klein é hoje uma das principais intelectuais e militantes anticapitalistas do planeta. Jovem (nasceu em 1970), apaixonada, corajosa, de brilhante trânsito por uma série de disciplinas e potente domínio da retórica, ela já se destacara como figura central nos protestos de 1999 contra a financeirização do mundo. Em 2000, lançou No Logo, uma crítica das multinacionais e do seu uso do trabalho escravo. Mas foi seu terceiro livro, A Doutrina do Choque: A Ascensão do Capitalismo do Desastre, que a elevou à condição de uma das principais intelectuais de esquerda do mundo. Com capítulos sobre os EUA, a Inglaterra de Thatcher, o Chile de Pinochet, o Iraque pós-invasão, a África do Sul, a Polônia, a Rússia e os tigres asiáticos, Klein demonstra como o capitalismo contemporâneo funciona à base da produção de desgraças, apropriando-se delas para o contínuo saqueio e privatização da riqueza pública. De família judia, Klein participou, em 2009, durante o massacre israelense a Gaza, da campanha “Desinvestimento, Sanções e Boicote” (BDS) contra Israel. Num discurso em Ramalá, pediu perdão aos palestinos por não ter se juntado antes à campanha BDS.

Nesta quinta-feira, 06 de outubro, Naomi Klein compareceu, convidada, à Assembleia Geral de Nova York. A amplificação foi banida pela polícia. Não havia microfones. Num inesquecível gesto, a multidão mais próxima a Klein repetia suas frases, para que os mais distantes pudessem ouvir e, por sua vez, repeti-las também. Era o “microfone humano”. O memorável discurso de Klein foi assistido por dezenas de milhares de pessoas via internet. A Fórum publica o texto em português em primeira mão. É um comovente documento da luta de nosso tempo.

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Eu amo vocês.

E eu não digo isso só para que centenas de pessoas gritem de volta “eu também te amo”, apesar de que isso é, obviamente, um bônus do microfone humano. Diga aos outros o que você gostaria que eles dissessem a você, só que bem mais alto.

Ontem, um dos oradores na manifestação dos trabalhadores disse: “Nós nos encontramos uns aos outros”. Esse sentimento captura a beleza do que está sendo criado aqui. Um espaço aberto (e uma ideia tão grande que não pode ser contida por espaço nenhum) para que todas as pessoas que querem um mundo melhor se encontrem umas às outras. Sentimos muita gratidão.

Se há uma coisa que sei, é que o 1% adora uma crise. Quando as pessoas estão desesperadas e em pânico, e ninguém parece saber o que fazer: eis aí o momento ideal para nos empurrar goela abaixo a lista de políticas pró-corporações: privatizar a educação e a seguridade social, cortar os serviços públicos, livrar-se dos últimos controles sobre o poder corporativo. Com a crise econômica, isso está acontecendo no mundo todo.

Só existe uma coisa que pode bloquear essa tática e, felizmente, é algo bastante grande: os 99%. Esses 99% estão tomando as ruas, de Madison a Madri, para dizer: “Não. Nós não vamos pagar pela sua crise”.

Esse slogan começou na Itália em 2008. Ricocheteou para Grécia, França, Irlanda e finalmente chegou a esta milha quadrada onde a crise começou.

“Por que eles estão protestando?”, perguntam-se os confusos comentaristas da TV. Enquanto isso, o mundo pergunta: “por que vocês demoraram tanto? A gente estava querendo saber quando vocês iam aparecer.” E, acima de tudo, o mundo diz: “bem-vindos”.

Muitos já estabeleceram paralelos entre o Ocupar Wall Street e os assim chamados protestos anti-globalização que conquistaram a atenção do mundo em Seattle, em 1999. Foi a última vez que um movimento descentralizado, global e juvenil fez mira direta no poder das corporações. Tenho orgulho de ter sido parte do que chamamos “o movimento dos movimentos”.

Mas também há diferenças importantes. Por exemplo, nós escolhemos as cúpulas como alvos: a Organização Mundial do Comércio, o Fundo Monetário Internacional, o G-8. As cúpulas são transitórias por natureza, só duram uma semana. Isso fazia com que nós fôssemos transitórios também. Aparecíamos, éramos manchete no mundo todo, depois desaparecíamos. E na histeria hiper-patriótica e nacionalista que se seguiu aos ataques de 11 de setembro, foi fácil nos varrer completamente, pelo menos na América do Norte.

O Ocupar Wall Street, por outro lado, escolheu um alvo fixo. E vocês não estabeleceram nenhuma data final para sua presença aqui. Isso é sábio. Só quando permanecemos podemos assentar raízes. Isso é fundamental. É um fato da era da informação que muitos movimentos surgem como lindas flores e morrem rapidamente. E isso ocorre porque eles não têm raízes. Não têm planos de longo prazo para se sustentar. Quando vem a tempestade, eles são alagados.

Ser horizontal e democrático é maravilhoso. Mas esses princípios são compatíveis com o trabalho duro de construir e instituições que sejam sólidas o suficiente para aguentar as tempestades que virão. Tenho muita fé que isso acontecerá.

Há outra coisa que este movimento está fazendo certo. Vocês se comprometeram com a não-violência. Vocês se recusaram a entregar à mídia as imagens de vitrines quebradas e brigas de rua que ela, mídia, tão desesperadamente deseja. E essa tremenda disciplina significou, uma e outra vez, que a história foi a brutalidade desgraçada e gratuita da polícia, da qual vimos mais exemplos na noite passada. Enquanto isso, o apoio a este movimento só cresce. Mais sabedoria.

Mas a grande diferença que uma década faz é que, em 1999, encarávamos o capitalismo no cume de um boom econômico alucinado. O desemprego era baixo, as ações subiam. A mídia estava bêbada com o dinheiro fácil. Naquela época, tudo era empreendimento, não fechamento.

Nós apontávamos que a desregulamentação por trás da loucura cobraria um preço. Que ela danificava os padrões laborais. Que ela danificava os padrões ambientais. Que as corporações eram mais fortes que os governos e que isso danificava nossas democracias. Mas, para ser honesta com vocês, enquanto os bons tempos estavam rolando, a luta contra um sistema econômico baseado na ganância era algo difícil de se vender, pelo menos nos países ricos.

Dez anos depois, parece que já não há países ricos. Só há um bando de gente rica. Gente que ficou rica saqueando a riqueza pública e esgotando os recursos naturais ao redor do mundo.

A questão é que hoje todos são capazes de ver que o sistema é profundamente injusto e está cada vez mais fora de controle. A cobiça sem limites detona a economia global. E está detonando o mundo natural também. Estamos sobrepescando nos nossos oceanos, poluindo nossas águas com fraturas hidráulicas e perfuração profunda, adotando as formas mais sujas de energia do planeta, como as areias betuminosas de Alberta. A atmosfera não dá conta de absorver a quantidade de carbono que lançamos nela, o que cria um aquecimento perigoso. A nova normalidade são os desastres em série: econômicos e ecológicos.

Estes são os fatos da realidade. Eles são tão nítidos, tão óbvios, que é muito mais fácil conectar-se com o público agora do que era em 1999, e daí construir o movimento rapidamente.

Sabemos, ou pelo menos pressentimos, que o mundo está de cabeça para baixo: nós nos comportamos como se o finito – os combustíveis fósseis e o espaço atmosférico que absorve suas emissões – não tivesse fim. E nos comportamos como se existissem limites inamovíveis e estritos para o que é, na realidade, abundante – os recursos financeiros para construir o tipo de sociedade de que precisamos.

A tarefa de nosso tempo é dar a volta nesse parafuso: apresentar o desafio à falsa tese da escassez. Insistir que temos como construir uma sociedade decente, inclusiva – e ao mesmo tempo respeitar os limites do que a Terra consegue aguentar.

A mudança climática significa que temos um prazo para fazer isso. Desta vez nosso movimento não pode se distrair, se dividir, se queimar ou ser levado pelos acontecimentos. Desta vez temos que dar certo. E não estou falando de regular os bancos e taxar os ricos, embora isso seja importante.

Estou falando de mudar os valores que governam nossa sociedade. Essa mudança é difícil de encaixar numa única reivindicação digerível para a mídia, e é difícil descobrir como realizá-la. Mas ela não é menos urgente por ser difícil.

É isso o que vejo acontecendo nesta praça. Na forma em que vocês se alimentam uns aos outros, se aquecem uns aos outros, compartilham informação livremente e fornecem assistência médica, aulas de meditação e treinamento na militância. O meu cartaz favorito aqui é o que diz “eu me importo com você”. Numa cultura que treina as pessoas para que evitem o olhar das outras, para dizer “deixe que morram”, esse cartaz é uma afirmação profundamente radical.

Algumas ideias finais. Nesta grande luta, eis aqui algumas coisas que não importam:

Nossas roupas.

Se apertamos as mãos ou fazemos sinais de paz.

Se podemos encaixar nossos sonhos de um mundo melhor numa manchete da mídia.

E eis aqui algumas coisas que, sim, importam:

Nossa coragem.

Nossa bússola moral.

Como tratamos uns aos outros.

Estamos encarando uma luta contra as forças econômicas e políticas mais poderosas do planeta. Isso é assustador. E na medida em que este movimento crescer, de força em força, ficará mais assustador. Estejam sempre conscientes de que haverá a tentação de adotar alvos menores – como, digamos, a pessoa sentada ao seu lado nesta reunião. Afinal de contas, essa será uma batalha mais fácil de ser vencida.

Não cedam a essa tentação. Não estou dizendo que vocês não devam apontar quando o outro fizer algo errado. Mas, desta vez, vamos nos tratar uns aos outros como pessoas que planejam trabalhar lado a lado durante muitos anos. Porque a tarefa que se apresenta para nós exige nada menos que isso.

Tratemos este momento lindo como a coisa mais importante do mundo. Porque ele é. De verdade, ele é. Mesmo.

Em que circunstâncias você consideraria importante dizer que é uma feminista?

11 set

Estou ouvindo a nossa digníssima presidenta fazendo afirmações essencialistas sobre as diferenças entre homens e mulheres, sobre como os homens são mais práticos e as mulheres mais detalhistas (?), ao mesmo tempo em que leio uma entrevista bem mais interessante, publicada em 2010. Nela, Patrícia Porchat pergunta a Judith Butler em que circunstâncias ela consideraria importante dizer que é uma feminista. Ela responde:

JB: Bem, eu certamente não acho que estamos vendo o fim da discriminação econômica contra a mulher, não acho que vimos o fim da desigualdade ou da hierarquia de gênero. Não acho que vimos o fim da violência contra a mulher, não acho que vimos o fim de certas concepções profundamente arraigadas sobre quais são as f raquezas das mulheres ou sobre a capacidade das mulheres na esfera pública, ou sobre uma série de outras coisas. Portanto, essas lutas ainda estão muito vivas. Suponho que, para algumas pessoas muito estabelecidas e economicamente seguras, o feminismo já não é tão forte, já não é mais um atrativo, porque elas podem muito bem ser mulheres que hoje ocupam postos de poder e privilégio, ou de segurança econômica, mas isso, com certeza, não é verdade globalmente. Se a gente olha para diferentes níveis de pobreza, diferentes níveis de escolaridade, vê que o sofrimento das mulheres é incomensurável. Então, sim, eu sou uma feminista. Podemos discutir sobre formulações do movimento feminista ou sobre o status de identidade no interior do movimento, e, nesse caso, eu teria discussões com todo tipo de pessoas, mas esse é um debate no interior do movimento, ou pelo menos sobre a direção que o movimento deve adotar.

O tema da entrevista é psicanálise e feminismo. Se interessar, vocês podem ler a entrevista completa publicada na Revista Estudos Feministas aqui.

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