Menos dispositivos, mais disposição

9 dez

Mães de primeira viagem, como eu, são alvos fáceis para a indústria de quinquilharias infantil. Nossas inseguranças são gigantes. A cabeça está cheia de dúvidas. Será que vou dar conta? Tenho capacidade de cuidar de uma outra vida além da minha? E se eu falhar, o que será do meu filho?

Para uma cabeça tão inquieta, um armário cheio de aparelhos que prometem ajudar a cuidar da criança é um alívio. Bico de silicone para amamentação, pratinho com sinalização de temperatura do alimento, cadeira que embala, babá eletrônica que filma, DVD que promete deixar a criança mais inteligente, máquina para fazer papinha etc. O “item indispensável” mais chocante que tive conhecimento é uma tornozeleira que monitora os sinais vitais do bebê, e envia mensagem de texto com essas informações. A imagem do bebezinho com essa tornozeleira me lembrou aqueles dispositivos que os presos utilizam, para não escaparem da vigilância policial.

É claro que toda invenção que libere a cuidadora (ou cuidador) de alguma função desgastante é super bem vinda. Por isso acho a máquina de lavar roupa realmente indispensável, bebê suja roupa à beça, e se você for passar o dia esfregando fica difícil cuidar da cria.

Mas até que ponto essas invenções realmente ajudam ou dificultam o contato com a criança? Todos esses aparelhos facilitam o dia-dia da cuidadora ou colocam uma barreira que atrapalha a experimentação do cuidado?

Fui deixando para comprar mais tarde alguns acessórios que achava importantes, como a babá eletrônica, e me dei conta que não precisava dela. Minha casa é pequena, se o filhote acordar e chorar eu escuto, sem dúvidas escuto. Para fazer a papinha me bastou uma panela com revestimento atóxico. Para embalar o bebê eu e meu marido fazemos revezamento de colo. Para medir a temperatura da água do banho e da comida a boa e velha mão dá conta. Para entreter o bebê passamos um tempo brincando com ele, ou levamos para um passeio na rua.

Cuidar, criar, educar é estar presente com o corpo, é estar sensorialmente atento. Para cuidar é preciso tocar, olhar, sentir. Mas se você tem um monte de coisas que fazem isso por você. Uma cadeira que embala, um aparelho que mede constantemente a temperatura e batimentos cardíacos, antevendo qualquer mal estar do bebê, um plástico que é colocado entre a boca do seu filho e seu peito. Tudo isso deixa a experiência de troca entre vocês dois mais pobre, menos direta, pouco intensa. Por isso acho que bugiganga demais mais atrapalha que ajuda. Usar tantos recursos nos impede de aprender a usar as nossas próprias ferramentas para cuidar.

Não há embalo mais gostoso que os braços quentes. Não há bico que torne a amamentação mais fluída que o próprio bico do seio. Não há diversão maior para uma criança que brincar com alguém de verdade, que não seja uma imagem na televisão. Não há medidor de mal estar mais eficiente do que o olhar atento de uma mãe para um filho. Não há nada que facilite mais o cuidado do que estar disposta a aprender a cuidar.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: