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Pequeno conto de Virginia

5 jul

Algumas circunstâncias me levaram a uma ocasião essa semana, onde conheci uma moça que me fez lembrar Phyllis e Rosamond. A diferença é que ela tem escolha, super graduada, tem uma profissão.. e tudo indica que ela escolheu o destino de Phyllis. Certamente que isso não é problema meu, mas me fez pensar.

O conto “Phyllis e Rosamond” pode ser baixado aqui.

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O céu e o inferno de Marina Indarte

24 abr

Conto de Elaine Mendina

Tradução de Sergio Faraco


N ão reconheci a voz. Fazia tempo que não a ouvia, e mesmo só a ouvira, antes, num apressado cumprimento pelos corredores da faculdade ou na arenga um tanto monótona de professor dando aula já cansado. Não tinha sido sua aluna, mas às vezes anoitecia ouvindo-o de algum corredor.

O endereço, no entanto, era o dele, e deu o nome, a ocupação, condições de vida, os dados geralmente solicitados quando se pede uma empregada doméstica: “Professor Jorge Torrealba. Para arrumar a casa e cozinhar. Não, não tenho filhos. A roupa mais pesada mando lavar fora. Horário a combinar…” E logo o salário que propunha, o telefone. Repetiu o endereço. Sem dúvida, era ele.

Atendi um cliente que aguardava na linha, fingi que organizava papéis e fichas, e ao encaminhar os pedidos à encarregada separei o de Torrealba, sem alterar a ordem do fichário. Guardei o papel na bolsa e o levei para casa.

Consegui dispensa do serviço na terça-feira, e às nove, sem um único gesto que traísse meu nervosismo, apertei o botão do porteiro eletrônico. O edifício não era dos piores, embora localizado no caminho do aeroporto e depois de Euskal-Erría, lá onde o Diabo perdeu as botas. Levava comigo o nome e as referências de uma candidata cuja ficha eu consultara, Marina Indarte, e meperguntava quem seria aquela criatura. As referências eram de dois empregos anteriores. Enquanto subia pelo elevador, me concentrei numa pequena mossa da pintura para não pensar.

Ele me recebeu de jeans e camiseta sem mangas. Um pouco sem jeito, vestiu rapidamente uma camisa e me fez entrar com gestos algo incoerentes. Tinha um copo de uísque na mão. Não deu o menor sinal de que me tivesse visto antes, o que não chegou a me surpreender, e mal passou os olhos nas minhas referências.

Não conseguiria repetir o que conversamos nem que me matassem. Só me lembro de que, quando me chamou de senhorita Indarte, me surpreendi e tive medo de que desconfiasse da manobra. Mas ele continuou falando: que não mexesse nos papéis, pois ele, pessoalmente, arrumava a escrivaninha; os lençóis, trocasse dia sim, dia não… Não me lembro de mais nada. Vinte minutos depois, saí dali quase em colapso, contratada para começar na segunda-feira seguinte.

Não sei bem por que fiz isso. Quando a ocasião surgiu, creio que a vi como a única chance de começar a vida. Porque eu não tinha vida, a não ser que se pudesse chamar assim ao movimento mecânico de despertar, tomar café, trabalhar e almoçar em qualquer lugar. E às vezes dormir. Às vezes. Outras, amanhecer diante de um televisor que eu nem via ou com um livro que eu nem lia, sempre a reviver, a reconstituir aquele homem, dando-lhe consistência com cada gesto recordado, com cada palavra e cada inflexão da voz, com cada informação que dele tinha. Informações que guardava com apego de colecionador fanático: divorciado desde muitos anos, pai de quatro filhos adultos, três mulheres e um menino, o caçula. E bebedor contumaz, professor estimado pelos alunos, colunista brilhante em vários jornais e revistas, respeitado crítico literário… e Dom Juan impenitente, apesar de certa história desditosa que terminara numa tentativa de suicídio, por causa de uma mulher casada. Como num quebra-cabeças, e com a paciente e obsessiva dedicação de um escultor à sua obra-prima, eu o construía com retalhos de vida para tê-lo comigo, um pouco, em cada uma de minhas noites amargas. Tinha todos os seus livros, todos os seus artigos de jornal recortados e reunidos numa pasta, isso sem falar nas fotografias tiradas em eventos culturais, aos quais eu comparecia só para vê-lo. Por onde eu andasse me acompanhavam sua figura envelhecida e bondosa, sua longa e absurda cabeleira revolta que já roçava os ombros e começava a rarear sobre a testa, suas longas e belas mãos, o gesto habitual de colocar e tirar os óculos enquanto falava. Conservava até uma folha de agenda onde estavam escritos, com sua letra, títulos de livros recomendados, embora não tivesse feito as anotações para mim e sim para uma colega. Aquilo era doentio e eu me dava conta, mas não conseguia me curar.

Cheguei a tentar, com sinceridade, dar um fim àquela loucura. Saí com vários homens: um antigo companheiro de faculdade, um certo galãzinho de esquina ao qual dei entrada por puro tédio, ou desespero, um chefe de seção da agência de empregos que me fazia pensar: “Esse velho…” E ao mesmo tempo me lembrava de que Torrealba era pelo menos dez anos mais velho do que ele. A única memória que conservo desses encontros: o café esfriando na xícara, a tentativa de manter a expressão facial de acordo com uma conversa que eu não ouvia e da qual participava só com monossílabos. De vez em quando, junto ao meu corpo, outro corpo que nada despertava em mim e me deixava um ressaibo nauseante. E sempre, sempre, a figura encanecida e doce do professor acabava tomando o lugar do homem que eu tinha diante de mim e que, invariavelmente, nunca mais me procurava.

E então aquele pedido de serviço doméstico… Lembrei-me de Lorde Byron: “O casamento está para o amor assim como o vinagre para o vi-nho”. Claro que aquilo não seria nem mesmo um casamento. Pior ainda: teria deste todo o tédio da domesticidade e nenhuma de suas compensações. Porque eu não nutria nenhuma esperança de seduzir Torrealba. Pelo que sabia, o homem não era excessivamente seletivo. No entanto, parecia não sentir por mim o menor interesse. O que eu queria era

surpreender intimidades que o dessacralizassem, aquelas cuja existência não ignoramos, mas não podemos ver. Queria vê-lo recém-desperto, rosto inchado de sono e de ressaca, ouvi-lo tossir e fazer ruídos vergonhosos no banheiro, ver como sujava as cuecas e meias como qualquer filho de vizinho. Queria surpreendê-lo sorvendo com ruído a sopa, palitando os dentes, pondo os pés sobre a mesa, cabeceando no jornal e com um fiozinho de baba nas comissuras, ou roncando, ou coçando as partes íntimas, ou agressivo, irritadiço, reclamando de qualquer ninharia. Surpreender sua miséria humana, igual à de todo mundo, derrubá-lo do pedestal em que subira, independentemente de nossas vontades, para dominar dolorosamente a minha vida inteira.

Sei que isso não se faz, que essas portas não devem ser atravessadas quando não são franqueadas, mas já não suportava mais. Era humilhante roçar nele de propósito, num corredor, e vê-lo com cara de distraído, de enfastiado, enquanto minha roupa interior se empapava. Era uma questão de sobrevivência.

Deus, foi pior a emenda que o soneto.

Trabalhei exatamente um mês. Via-o pouco e pouco falávamos. Mas conhecia suas alpargatas e suas xícaras, os gastos de sua cozinha e o caos de seus horários. Estava a par da velocidade com que se esvaziavam suas garrafas. E às vezes, na sua ausência, pregava algum botão em suas camisas, sentava-me à beira de sua cama para cerzir suas meias, acariciava, ao guardar, aquelas impossíveis gravatas que pareciam um presente de inimigo. Ele bebia e eu me embriagava: cheguei até a deitar-me em seus lençóis matinais, antes de estendê-los, procurando o rastro de seu calor noturno, a afundar o rosto na umidade da toalha em que se secara, a levar à boca o copo em que bebera. Amei sua amabilidade distraída – se eu fosse trabalhar vestindo uma folha de parreira, ele não teria notado –, seu cumprimento apressado sem sequer me olhar. E chorei de amor, de desesperado e compassivo amor, no dia em que, pela porta entreaberta, vi que tentava enfiar a chave na fechadura do apartamento vizinho, bêbado como um peru. E eu estava tão doente quanto ele. Não tínhamos remédio.

E então eu fiz. Desde semana trazia comigo o frasco de um forte sedativo que me haviam receitado e nunca usara. Talvez até nem fosse necessário, tanto ele bebia. Pelo sim pelo não, coloquei duas cápsulas no copo dele. Bocejou várias vezes enquanto mexia em seus papéis, foi para o quarto e se fechou. Dei-lhe um tempo e abri devagarinho a porta. Dormia vestido, e o braço inerte, pendido até o chão, deu-me a certeza de que o sono era profundo.

Tive muito trabalho para despi-lo. Era um homem corpulento e eu sou uma mulher pequena. Não consegui tirar a camisa, mas com uma tesoura cortei o tecido onde folgava. Foi uma façanha fazer com que a calça deslizasse por baixo das nádegas e creio que ele me ajudou com um movimento involuntário, mas não poderia jurar. Quando o tive com o torso nu e a calça nos tornozelos, fechei a chave a porta da rua e dei início à longamente adiada consumação.

Descalcei-o, tirei-lhe a calça e joguei tudo ao chão. Deixei a cueca. Isso seria depois, muito depois. Tinha tanto o que fazer! Me despi, tomei uma ducha, voltei e me detive a contemplá-lo. Era alto, forte, ainda bonito apesar dos cinquenta e tantos anos e do envelhecimento decorrente do alcoolismo. O longo cabelo branco se desordenara no travesseiro. Como uma criança entre os doces, eu não sabia por onde começar. Quando pequena, sempre quisera saber o que teriam sentido Hansel e Gretel diante da casinha de chocolate. Agora sabia.*

Acariciei levemente seu rosto, acompanhei com a ponta dos dedos o perfil aquilino de seu nariz, a pele algo flácida dos pômulos. Quase sorri ao me dar conta de que não lhe conhecia a boca, escondida no matagal dos bigodes brancos. Com os dedos, separei-os suavemente, tocando seus lábios. Eram finos e estavam ligeiramente arroxeados. Beijei-os bem devagar e logo com mais força, minha respiração ficou tão agitada que tive de parar. Ele se mexeu, murmurou algo incompreensível. Contei, repassando-as com a língua, cada ruga da pele do pescoço, as curvas da orelha. Entretive-me com seus cabelos, penteando-os docemente e tornando a despenteá-los. Comprimi o rosto neles, aspirando-lhes o odor impreciso até ficar sem ar. Rocei as pálpebras fechadas. Ao fazê-lo, a dor que pulsava debaixo daquela felicidade absurda assomou a superfície, dando uma outra e triste dimensão a tudo: ele não abriria os olhos, não saberia que eu estava ali.

Foi essa mesma impotência, a desesperante incapacidade de ter sua alma, que me garantiu uma determinação cruel, deliberada e final. De acordo, Jorge. Só teu corpo. Não posso me apoderar de outra coisa pela força, mas ao menos isso eu terei, longa, demorada e malignamente. Vou te devorar, professor, como a um animal de presa. Vou provar cada pedacinho da tua carne.

Ocorreu-me, de repente, que aquilo era uma violação, mas em seguida pensei que mulheres não podem violar e que, enfim, não me importava nem um pouco o nome que se desse ao que eu fazia. Centímetro por centímetro, fui investigando sua desconhecida geografia. O peito era musculoso, com uma ligeira linha de pelos prateados ao centro e muitos sinaizinhos espalhados. Sob o mamilo esquerdo havia um maior, saliente. Molhei-o com a língua. Fui descendo. A carne se afrouxava um pouco no ventre. Mordi devagar, pressionando com os dentes sem machucar e a recorrê-lo com os lábios. Encontrei o umbigo, detive-me a brincar ali. Tinha felpas azuis da toalha e as retirei com a língua. Em seu peito descobri uma marca perfeitamente circular, que por um instante me deixou perplexa. Logo me lembrei. A cicatriz da bala. A bala que disparara contra si por causa de outra, uma tola infeliz que não soubera avaliar sua boa estrela. Beijei sofregamente a cicatriz, como querendo apagá-la, mas permaneceu ali, claro. E as marcas da outra também permaneceriam ali. Eu não apagaria nada. Eu não existia. Estava tão ausente daquele sonho alcoólico e sedado como o estava de seus pensamentos conscientes. Como o estava de sua vida. Comecei a chorar. Descontrolada de dor, de febre, apossei-me de suas compridas pernas, ainda musculosas. Tinha a pele das panturrilhas ligeiramente escurecida, veias salientes – lembrei-me de tê-lo ouvido falar de problemas circulatórios. Afaguei os joelhos, os tornozelos. Cheguei aos pés. Eram bonitos, brancos, bem modelados, as unhas dos polegares excessivamente longas. Mordisquei os polegares, e como um gato brincandopenteei com a língua os minúsculos pelinhos de cada dedo. Introduzi a língua entre eles. Lambi a sola e o peito do pé, e com a boca ardendo empreendi o caminho de volta. Ao beijar suas coxas, ele suspirou e murmurou algo. Havia prazer nesse suspiro. Gozei até o último eco do murmúrio, e quando já não havia som algum, prossegui minha febril exploração do paraíso invadido. Retirei a cueca. Uma masculinidade a meio repouso, mas bem dotada, ofereceu-se à minha contemplação. Não era, nem de longe, meu primeiro homem, mas agora me dava conta de que nunca olhara de verdade para nenhum deles. Nunca percebera que num pênis sonolento pode haver a mesma desampa-rada ternura de um rosto bem-amado em seu despertar pelas manhãs. Eu jamais o veria despertar pelas manhãs. E então tomei o que eu tinha, aquela cega resposta do corpo a um estímulo sem cara e sem nome.

Chorava sem poder evitar, enquanto o montava. Porque não era ele. Era sua pele apenas, sua reação mecânica, sua carne seguindo-me como a um guia de cego, sem saber quem era eu. Eu estava sozinha. Sozinha, cavalgava a amplitude de seu ventre, descia as escarpas de suas virilhas. Sozinha, escorregava em suas depressões, aninhava-me nas tépidas covas gê-meas de suas axilas, percorria seus vales mais íntimos, escalava, beijo a beijo, seus promontórios. Ele não estava ali, nunca estaria. Molhando-o todo com a língua e minhas lágrimas, explorei a face interna das coxas, o púbis. Sempre quisera saber se num homem encanecido os pelos pubianos também eram brancos. Não, não eram. Eram escuros, crespos. Com dedos que eram borboletas acariciei sua semiadormecida virilidade, tomei na palma da mão seus testículos, como a implumes pombinhos. Sua criatura se ergueu levemente e minha boca dela se apossou com infinito cuidado. Está bem. Só teu corpo. Mas é meu. Eu o tomo, meu amor. Não me dás, te tomo.

O jorro do sêmen em meu rosto parecia um protesto. Menos surpreendente do que isto teria sido ver-lhe tirar um ramo de flores debaixo do travesseiro e me pedir em casamento. Não percebera que o corpo dele me seguia no jogo até esse ponto. Me levantei e o olhei. Seria possível que…?

Mas não. Tinha os olhos fechados. Não estava ali. Cega de dor, de amor, de raiva impotente, saltei para o chão e atravessei o corredor até a cozinha. Deixei abertas todas as bocas de gás. Minha bolsa estava sobre a mesa. Engoli sem água várias cápsulas e voltei, deixando o quarto aberto. Me deitei ao seu lado e, enquanto o cobria e a mim com o lençol, ia dizendo, sem pressa, ao seu ouvido:

Foi culpa tua, meu amor, de ninguém mais, só tua. Por que te fizeste amar assim? Deixaste crescer o fogo, não fizeste nada… e ele agora te consome a ti também. Vê só, meu amor, já não resta nada por queimar em mim, já não há mais sangue nem mais vida para calcinar, nem mais lágrimas para mitigar a dor e a humilhação. Chorei as últimas agora, sobre teu sono, sobre teus olhos fechados… e o fogo continua. Como é que não te deste conta, meu amor, tão inteligente e tão mais velho, tão Dom Juan e tão homem do mundo, como não previste o que aconteceria…

Já se sente o odor enjoativo do gás, já começa também a tonteira do sedativo. Aperto-me contra ele, faço com que me abracem seus braços inertes. Não quero ir sozinha. Tenho medo, tenho frio, papaizinho. Quero ir agarrada a ti, escondida em teu regaço, aquecida em teu calor. Tu vais comigo. Não te deixo para outra. Tu vais comigo. Vamos juntos, meu amor. Não vou te deixar, bastardo filho da puta, minha alma, meu amor.

ELAINE MENDINA é uruguaia, nascida no departamento de Artigas. Publicou, entre outros, os livros Ibrahim e os outros (1990), Primera luna (1991) e El otro circo (1992). Reside em Artigas.

Fonte: suplemento literário, Belo Horizonte, Março–Abril/2010 • Nº 1.329 • Secretaria de Estado de Cultura de Minas Gerais

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Frida

15 maio

Tina Modotti não está sozinha frente aos inquisidores. Está acompanhada, de cada braço, por seus camaradas Diego Rivera e Frida Kahlo: o imenso buda pintor e sua pequena Frida, pintora também, a melhor amiga de Tina, que parece uma misteriosa princesa do Oriente mas diz mais palavrões e bebe mais tequila que um mariachi de Jalisco.
Frida ri às gargalhadas e pinta esplêndidas telas desde o dia em que foi condenada à dor incessante.

A primeira dor ocorreu lá longe, na infância, quando seus pais a disfarçaram de anjo e ela quis voar com asas de palha; mas a dor de nunca acabar chegou num acidente de rua, quando um ferro de bonde cravou-se de um lado a outro em seu corpo, como uma lança, e triturou seus ossos. Desde então ela é uma dor que sobrevive. Foi operada, em vão, muitas vezes; e na cama de hospital começou a pintar seus auto-retratos, que são desesperadas homenagens à vida que lhe sobra.

Mulheres – Eduardo Galeano

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