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Compartilhando experiências com um comportamento violento – de que forma eu deveria fazer isso?

19 ago

Traduzi este texto já faz algum tempo, mas por alguma razão não publiquei … Recentemente me lembrei dele por dois motivos. O primeiro é muito semelhante ao que me levou a ele a primeira vez: novamente recebo notícias de que um companheiro agrediu sua namorada, que é também companheira de luta. Infelizmente não foi a única notícia dessas nos últimos meses … O texto que segue é um relato de uma militante do Students for Democratic Society (uma organização de estudantes dos EUA) sobre uma violência que sofreu de um companheiro da SDS. Talvez seja uma das violências mais temidas: a violência sexual, o estupro. Ela narra com uma sobriedade incrível todo o processo pelo qual passou para poder começar a lidar com o que aconteceu. “Levaram-me duas semanas para dizer a ele que o que havia feito me deixou desconfortável; um mês para parar de me culpar; seis meses para conceber que aquilo havia sido um assédio sexual”, ela escreve… Não, não deve ser fácil ser violentada por alguém tão próximo, logo por alguém com quem acreditamos compartilhar sonhos de mudar o mundo.

Ela aponta questões difíceis, como a falta de espaço em seu grupo para que ela ou outras pessoas que haviam sofrido com o comportamento violento deste companheiro pudessem conversar e problematizar o que havia acontecido. As pessoas com quem compartilhou a história se sentiram desconfortáveis e calaram-se. Enquanto isso era ela quem se retirava das reuniões e atividades do grupo. Queria evitar encontrar seu agressor, e ele permanecia lá. Durante este processo, ela relata como uma reunião de emergência somente com as mulheres do grupo, convocada por uma companheira a quem ela havia contado o ocorrido, foi fundamental para que ela se sentisse fortalecida e com coragem para levar a questão para o grupo como um todo. O que leva ao segundo motivo que me fez lembrar deste texto, uma sequências de textos publicados recentemente pelo Passa Palavra (PP) em que eles criticam a existência de espaços exclusivamente femininos dentro de coletivos e movimentos sociais, o que eles chamam de feminismo excludente.

O que me chamou atenção, em especial no penúltimo texto da sequência, é a sua afirmação de que “boa parte da movimentação esquerdista em torno do feminismo” parte das premissas deste feminismo excludente; e a sua constatação de que “as denúncias acerca da violência machista recaem sobre os rapazes da esquerda (habitualmente de fraca envergadura física e flacidez muscular) e não sobre seguranças de boate ou membros de outras profissões hercúleas, mas exclusivamente sobre aqueles que entram em pânico sempre que são acusados de politicamente incorretos”. Daí concluem que por trás destas denúncias há uma pauta oculta neste feminismo. Será?

De que denúncias estarão falando? Não quiseram explicitar, o que me intrigou, uma vez que o PP não costuma ter medo de dar nome aos bois. Nem mesmo dos mais graúdos como o MST, ou o famigerado Fora do Eixo, quando eles foram os primeiros a denunciar a intenções mercantis do grupo na construção da marcha da liberdade em São Paulo. Como não sei do que eles estão falando, falo do que sei e do que se tornou público: o recente afastamento de um membro da organização anarquista Bandeira Negra que agrediu sua companheira e a expulsão do MPL-Curitiba do movimento nacional do Passe Livre, por razão deste não ter se posicionado em relação à denúncia de agressão cometida por um dos seus membros contra sua namorada. Embora eu fique triste em saber que casos como estes ocorram em espaços que me são tão próximos, fico satisfeita em ver que essas meninas encontraram força e espaço para fazerem suas denúncias e que, da melhor forma que puderam, os movimentos deram uma resposta a isso.

Lembro da primeira vez que um caso de violência se tornou público no Movimento Passe Livre. Era 2008 ou 2009, e o caso havia acontecido em São Paulo. Um pouco antes disso algumas militantes de Brasília haviam criado uma lista informal de e-mails: o MPL Mulheres. Nós precisávamos conversar e quando tudo veio à tona é claro que virou tema na lista. No começo foi confuso, algumas militantes questionavam uma lista só para mulheres, outras já queriam dali partir para algum posicionamento enquanto grupo de mulheres. Lembro que de maneira geral as militantes de Floripa defendiam um espaço de conversa e trocas de experiência, e que as propostas surgidas ali fossem levadas para os coletivos locais. Mas logo a lista mostrou sua importância, mais histórias de agressões foram surgindo do subterrâneo do MPL e encontravam ali um espaço para serem ouvidas e contadas.

O MPL Mulheres nunca virou comissão ou mesmo algo oficial dentro do movimento, como é comum existir em partidos políticos, na Via Campesina entre outros movimentos. E o que não vejo como necessariamente ruim. Nós também nunca usamos o espaço para decidirmos coisas pelo MPL como um todo. Acho que sempre funcionou mais como uma rede de solidariedade, quiçá de consulta entre companheiras de movimento. Mas sei lá, vai ver é porque não nos enquadramos nessa tendência excludente e maioritária na movimentação esquerdista em torno do feminismo. Por isso gostaria muito que o PP tivesse sido mais específico nesta análise. Também achei estranho eles não terem mencionados esses casos tão paradigmáticos em termos de denúncias de violência contra mulher dentro dos movimentos sociais autônomos.

São textos com muitos problemas estes do Passa Palavra. Deixaram a mim e muitas companheiras próximas desapontadas com o coletivo. O site do PP se tornou uma referência importante em debates sobre movimentos sociais e lutas anti-capitalistas. Eu gostava de acompanhar. No entanto, não é de hoje que considero que, enquanto coletivo, o Passa Palavra pouco tem contribuído para a reflexão acerca da luta das mulheres e mesmo das questões de gênero de um modo geral. Embora tenha publicado textos muito interessantes de indivíduos. O que não é um grande problema, afinal todo movimento e coletivo tem seus limites. E acredito que o PP fez alguma contribuição em apontar a necessidade de autocrítica dentro da esquerda. Mas é preciso dizer que seus textos sobre o feminismo excludente mais contribuíram para reforçar a desconfiança que grupos feministas têm em relação a uma certa esquerda que resiste em incorporar as pautas específicas das mulheres (ou dos negros, ou dos gays) sem subjugá-las às questões de classe.

Esta hierarquização permeia o texto PP. Ela fica clara quando comparamos o cuidado e rigor teórico despendido pelo coletivo em textos que dizem respeito às questões de classe, com desleixo e as vezes até deboche em relação a teoria feminista. Não fazem referências, nem discutem seriamente, mas podem afirmar que: “ Incapaz de justificar os seus pressupostos com a vasta historiografia existente, o feminismo recorre como autoridade única precisamente às historiadoras feministas, encerrando-se assim num círculo vicioso”.

Na minha opinião citar Solanas como referência para um feminismo, se não for má-fé ou pura provocação, é no mínimo uma ignorância atroz. A primeira vez que eu ouvi falar desta grande feminista foi num texto da blogueira Lola, “Pra quem não gosta, todo feminismo é radical”, que por sua vez conheceu a Solanas através do filme Um Tiro para Andy Warhol, e não, pasmem, numa formação feminista. Ela escreve: Os mascus, por exemplo, que têm como missão declarada destruir o feminismo, que tanto empobreceu as mulheres (eles gostariam de voltar à década de 1950), só conhecem uma feminista: Valerie Solanas”. Mascu para quem não sabe é um apelido divertido que ela colocou em homens machistas que se sentem oprimidos pelas conquistas sociais feministas e do movimento gay. Recomendo os textos da Lola que linkei acima, pois são muito divertidos. Tanto que num primeiro momento eu ri com essa lembrança, depois fiquei mal em ter, por um momento, aproximado pessoas que eu conheço no coletivo do PP à figura escabrosa do mascu.

Mas enfim, para resumir e finalizar, já que o PP não contribuiu muito no debate e reflexão sobre feminismo na esquerda (ou feminismo de esquerda, o feminismo canhoto como nós gostamos mais), resolvi finalmente postar este texto, que é tão sincero e sensível às dificuldades enfrentadas quando o assunto é violência contra mulher dentro dos movimentos sociais. Acredito que esta seja uma questão muito delicada, sem saída fácil, e que a maioria de nós gostaria de resolver sem recorrer às instituições punitivas que conhecemos. Porém, nesta busca não podemos punir a vítima. Culpabilização da vítima é uma dinâmica do machismo conhecida demais para cairmos neste erro. É preciso reconhecer que o afastamento de agressores do coletivo às vezes é a melhor saída para que ela possa permanecer e se sentir bem no movimento. É preciso reconhecer e fomentar espaços que permitam que se fale sobre as opressões reproduzidas dentro do coletivo, sejam elas em relação a cor, orientação sexual, gênero ou qualquer outra. Se em algum momento espaços restritos a determinado grupo é importante para criar essas condições, como acontece no relato que segue, isso precisa ser respeitado e não visto com desconfiança. Espero que gostem do texto e que ele nos ajude a fazer uma discussão mais saudável sobre o tema. Afinal, esta semana em São Paulo acontece o II Seminário Há Machismo na Esquerda? e eu pretendo participar.

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Compartilhando experiências com um comportamento violento – de que forma eu deveria fazer isso?

Já faz um ano que venho sofrendo com a pergunta: como compartilhar de um modo produtivo e sincero as minhas experiências e as experiências do meu coletivo em relação ao comportamento agressivo por parte de um militante?

Desde o dia em que aconteceu eu fiquei sem saber para quem contar, o que dizer ou como falar sobre aquilo. Tive dificuldade em articular para mim mesma o que havia acontecido. Levaram-me duas semanas para dizer a ele que o que havia feito me deixou desconfortável; um mês para parar de me culpar; seis meses para conceber que aquilo havia sido um assédio sexual.

Conversei muito com as pessoas enquanto passava por esse processo. Primeiro contei ao meu companheiro, procurando, sem sucesso, palavras para dar nome a minha experiência. Tudo o que eu conseguia fazer era descrever o que aconteceu: “Ele me serviu três taças de vinho, no sofá colocou suas pernas sobre mim, começou a acariciar minha mão…”

Quanto mais o tempo passava, mais nervosa eu ia ficando. Frequentemente ia embora das reuniões e evitava o agressor. Senti que precisava contar minha história para poder justificar o meu comportamento para os outros membros do grupo. Quando eu me aproximava de alguém individualmente para falar, eu contava com sua sensibilidade e com minhas descrições frias. Quatro meses e a única maneira que eu conseguia dividir minhas experiências era descrevendo de forma furtiva e amargurada o que acontecera para alguns amigos. Às vezes éramos os últimos a ir embora de uma festa, às vezes era um amigo me emprestando um livro. A única forma de aliviar minha raiva e frustração acontecia nessas pequenas oportunidades de compartilhar.

Ao contar para outras pessoas, ficou claro para mim que me faltava um vocabulário. Na época eu não encontrava palavras para falar do que estava acontecendo, e aqueles que me escutavam também não as tinham. As pessoas para quem eu contava ficaram confusas e magoadas, o que eles expressaram com silencio. Nosso grupo não tinha estrutura para compreender e confrontar um comportamento abusivo. Não havia espaço para minha experiência na linguagem do nosso grupo. Não havia espaço para nenhuma mulher ou homem que havia sofrido com outros comportamentos violentos desta pessoa. Enquanto indivíduos e enquanto organização ficamos paralisados, efetivamente silenciados por essa pessoa e pela falta de vocabulário e estrutura para entender nossas experiências.

Finalmente, uma mulher incrivelmente forte chamou uma reunião de emergência das mulheres do coletivo. Pela primeira vez nós compartilhamos nossas experiências umas com as outras sem precisar falar pelas costas, mas enquanto parte de um grupo. Juntas criamos o vocabulário que nos faltava para nomear nossas experiências enquanto o que são: agressão. Agressão física, emocional e sexual. Decidimos que enquanto grupo de doze mulheres iríamos exigir que o agressor deixasse a organização, ou a deixaríamos nós, para tornar o ambiente mais seguro para homens e mulheres do coletivo.

A partir daquele momento, a pergunta na minha cabeça não era mais: “como eu compartilho minha experiência com outras pessoas?”, mas: “como nós compartilhamos essas histórias com o grupo inteiro?”. Eu não sabia como meus amigos homens reagiriam a nossas histórias ou a nossa decisão. Como já disse antes, minha experiência em contar para os outros foi bem negativa. O silêncio dos meus amigos havia corroído boa parte da minha confiança no grupo, e eu estava com medo particularmente da sua reação em relação a nossa decisão de afastar essa pessoa. Tinha medo de que eles minimizassem nossas histórias ou que eles suspeitassem da nossa decisão. Nosso grupo já havia se divido de mutias formas por causa do comportamento do agressor. Parte de mim temia que as pessoas vissem a decisão como mais desagregadora, e não conciliadora.

Contar minha história para um grupo de vinte e duas pessoas foi uma experiência de mexer com os nervos, e muito diferente de falar para um grupo de mulheres ou a um amigo/a no final da noite. Foi difícil, mas me senti amparada pelo grupo de onze mulheres sentadas ao meu lado. A resposta da organização foi incrivelmente positiva, as pessoas corresponderam, foram solidárias e sensíveis. Saí da reunião com a confiança no meu coletivo renovada. Nunca havia me sentido tão inspirada pela ação coletiva, agindo como mulher, num grupo de mulheres para efetivamente fazer algo em relação ao patriarcado.

Entre as barreiras que dificultavam o compartilhar da minha história, havia uma particularmente escorregadia com a qual sofro até hoje. Eu não queria arruinar essa pessoa, e eu ainda não quero arruinar essa pessoa. Eu sabia que de muitas formas eu estaria ajudando a tomar uma decisão que poderia potencialmente isolar a prejudicar socialmente uma pessoa que costumava ser meu amigo. Uma pessoa de quem eu guardava mágoa, mas não odiava. Eu acredito em justiça retroativa, mas e se inadvertidamente o processo de justiça retroativa se transforma em punitiva? Essa pessoa fez muita merda. Falar disso e tornar isso conhecido deve ter sido uma experiência bem ruim para ele. As pessoas podem reagir se afastando dele, e ele não fará mais parte da organização. Essas coisas podem ser interpretadas por ele como punitivas, mas foram consequências de uma decisão tomada visando a segurança das mulheres e da organização. Eu não sei como reconciliar isso.

Na medida em que fui me envolvendo com o movimento nacional, tenho recorridamente me deparado com o tema. Eu deveria compartilhar informação que possivelmente pode fazer mais mal a essa pessoa? Eu não quero estragar as futuras relações dela, mas eu definitivamente não quero ser silenciada. Outro dia fiquei irritada com um comentário sobre assédio sexual dentro do coletivo. Não sabia se eu deveria falar para ela porque fiquei irritada, e pensei que se eu tivesse contado minha história antes de tudo, provavelmente ela não teria feito esse comentário. Novamente me senti insegura sobre como falar sobre minhas experiências de uma forma útil e justa.

Eu acho que o SDS (Estudantes por uma Sociedade Democrática) precisa se esforçar mais para criar um coletivo no qual histórias de assédio sexual e violência interpessoal possam ser compartilhadas. … eu ouvi muito no encontro nacional, acho que precisamos construir um comunidade de confiança para que de fato tenhamos uma espaço para conversar. Acho que precismos de um vocabulário para falar dessas experiências. E finalmente, eu adoraria que conversássemos sobre o ato de compartilharmos essas experiências. Espero que esse texto abra algum espaço para conversarmos sobre esse processo de sermos silenciadas/os e conseguirmos falar, sobre como proceder para que de fato nossas vozes sejam ouvidas e como criar um ambiente seguro e construtivo para compartilharmos nossas experiências.

Original em: http://sdswomynscaucus.wordpress.com/2009/07/23/sharing-experiences-of-abusive-behavior-how-the-hell-should-i-do-it/

Em tempo:

Caso alguém tenha ficado curiosa/o sobre o texto do Passa Palavra : http://passapalavra.info/2013/07/81401

Minha experiência no Ilú Obá de Min (subvertendo papéis de gênero no carnaval )

14 fev

Eita que faz um tempo que não contribuo com nosso blog! Como gosto de folia e de uma batucada, encontrei o tema perfeito para sanar essa dívida. Este ano tive a oportunidade e a alegria de tocar com o bloco afro Ilú Obá de Min (“mãos que tocam tambor para Xangô” em Iorubá). É lindo demais. Um verdadeiro espetáculo de dança e percussão que há sete anos toma as ruas de São Paulo durante carnaval, mantendo pulsante nossas heranças culturais afro-brasileiras. Uma particularidade do bloco é que a sua bateria é formada exclusivamente por mulheres. Homens também fazem parte do grupo e são muito bem-vindos na dança (para fazer um parêntese, adoro culturas em que os homens dançam, requebram, rebolam e não apenas conduzem suas parceiras. Homens são tão lindos quantos as mulheres dançando!). Para os desavisados isso pode até soar como uma inversão, pois o mais comum parece ser que os homens toquem e as mulheres dancem. Então … não é por acaso que a bateria do bloco é formada por mulheres! Suas fundadoras visavam sim o empoderamento das mulheres por meio do tambor. O bloco é uma das atividades da associação Ilú Obá de Min – Educação, Cultura e Arte Negra que nasce com o objetivo de preservar e divulgar a cultura afro-brasileira, e ao fazer isso buscam, uso aqui suas palavras, “abrir espaço para ideias que visem o fortalecimento individual e coletivo das mulheres na sociedade”. Neste sentido também organizam ciclos de palestras e debates com temas que contribuam com o combate ao racismo, o sexismo e todas as formas de discriminação.

Talvez alguns perguntem: mas por que só mulheres? Para mim, uma bateria só de mulheres é importante porque infelizmente os espaços de bateria, como tantos outros nesse mundo chato, costumam ser bastante machistas. De experiência própria, lembro de ser minoria na bateria da escola União da Ilha da Magia. Entre os coordenadores dos naipes (instrumentos) havia apenas uma mulher, nossa querida canhota Ana Terra, que manda ver na ala dos agogôs. Mestra de bateria, em escola de samba, eu desconheço. Fui dar uma pesquisada no grande oráculo e o Google “corrige” automaticamente para mestre. Até mesmo nos maracatus de Floripa, aonde a coisa já é bem mais equilibrada em termos de quantidade, não me lembro de ter visto uma mulher no apito. Bom, tirando pelo que se vê na televisão e nos destaques dos portais na internet, as mulheres do carnaval são as mulheres esculturais que adornam essa festa. Para mim, o Ilú é uma bela lembrança de que não só. Assim como os homens elas ocupam todos os espaços: bateria, coreografia, dança, canto, arranjo, composição. Pois assim fazem as mulheres do Ilú. E bem demais.

Para quem estiver pela terra da garoa no próximo carnaval, seria um grande vacilo perder. Esse ano mais de 8 mil acompanharam a saída do bloco, isso só na sexta-feira. Aquela noite, indo embora, ainda de figurino, muita gente sorriu pra mim, alguns até agradeceram, “mais um ano!” uma moça disse. Sinal que o trabalho dessa mulherada está consolidado e reconhecido. Eu que sou agradecida por poder tocar com elas. Logo abaixo, para mais informações, deixo os links para a página e Facebook do Ilú e um vídeo do carnaval de 2013.

Aproveitando o assunto, um outro fato me chamou atenção este ano no carnaval de São Paulo. Já que falávamos de homens que dançam, este ano, pela primeira vez no Grupo Especial das escolas de samba, uma escola trouxe um rei de bateria. Na verdade Daniel Manzioni desfila à frente da bateria da Acadêmicos de Tatuapé desde 2007, tudo indica que é o primeiro na história das passarelas. Acho que ele e a sua escola também contribuem para romper com esses papéis de gênero tão ultrapassados, porém arraigados no carnaval. Achei bonito. Uma pena foi a abordagem da mídia, as reportagens que vi logo tentaram transformá-lo num objeto sexual, como fazem com as mulheres, dando destaque para os procedimentos estéticos preparativos para o desfile. Pô, que saco isso! Mas encontrei uma matéria legal, de 2009, que dá destaque para o dançarino e para parceria com a escola que parece ter uma proposta um pouco mais progressista. Para quem se interessar eu deixo o link aí embaixo. Para mim, tudo isso se tornou ainda mais curioso porque fiz umas aulas de alongamento com o Daniel na academia aqui perto de casa, acho até que ele é um dos donos. Que coincidência, não?

Daniel Manzioni e Acadêmicos do Tatuapé
http://www.youtube.com/watch?v=-1sQtYNo0X0

Ilú Obá de Min

http://www.iluobademin.com.br

https://www.facebook.com/pages/Il%C3%BA-Ob%C3%A1-De-Min/125403590866610

Seminário Conexões entre Questões agrária, racial, gênero, classe e ambiental- Tânia Cristina Cruz (FUP-UnB)

10 abr

Fala clara, simples, direta e forte da professora e pesquisadora do Departamento de Sociologia da UnB, Tânia Cristina Cruz,no seminário organizado pelo grupo de pesquisas Modos de Produção e Antagonismos Sociais (MPAS): “Conexões entre questões agrária, racial, gênero, classe e ambiental”.

Lembrou-me muito as discussões e a luta que vi as mulheres do Movimento de Mulheres Camponesas fazerem, quando participei do EIV-SC. Deu muita vontade de compartilhar! A luta se dá no dia a dia, e não é fácil. Desde então guardo um carinho e admiração profunda por erssas mulheres camponesas.

 

8 de março e o feminismo na minha vida

10 mar

O mês de março me pôs a refletir: e se não houvesse feminismo em minha vida? Afinal, não é incomum entre as mulheres da minha classe acreditar que o feminismo foi algo muito importante no passado, mas que hoje as coisas mudaram e que aquele machismo grosso é coisa de um ou outro anacrônico ignorante. Infelizmente isso não corresponde ao que vemos por aí. No Brasil essas mesmas mulheres, com nível superior de formação, chegam a receber em média 58% do salário de seus colegas homens. Muitas delas estão liberadas de serem donas de casa porque pagam para que outras mulheres o sejam. Mais de 4 mil mulheres são assassinadas por ano e em 70% dos casos os homicídios foram cometidos por seus companheiros, ex-companheiros, pais, padrastos ou alguém afetivamente muito próximo a elas. É um dado terrível que atravessa todas as classes. Enfim, dados como esses são o suficiente para me convencer que o machismo existe, fere e mata.

Porém também em nossos cotidianos acontecem coisas que nos fazem sentir mal, desconfortáveis, desrespeitadas e oprimidas. Coisas que às vezes as consideramos males menores, ou apenas problemas particulares. Porém, acredito que apenas com uma pitada de feminismo passamos a ver as coisas de maneira bem diferente. Por isso hoje resolvi escrever sobre a importância do feminismo na minha vida. Será uma espécie de depoimento pessoal. Até pretendo compartilhar coisas que são de dar vergonha a qualquer militante.

Na verdade o feminismo  chegou tarde na minha vida. Acho que eu tinha uns 18 anos. Eu até achava que era feminista já. Defendia a igualdade, combatia a violência contra as mulheres e achava uma palhaçada essa coisa de abrir a porta do carro, pagar uma bebida, virar chaveirinho do namorado e os rótulos de “galinha”, “vadia” e afins. Achava eu que era muito bem resolvida com a minha condição de mulher. Só que um dia, nas reuniões do Movimento Passe Livre (MPL), começou a se tornar frequente o tema do machismo. No começo eu não dei muita bola, achava que era implicância com alguns companheiros. Mas a discussão foi ganhando corpo, muitas companheiras que eu respeitava e me espelhava estavam envolvidas e assim fui me aproximando. E numa das conversas que se estendeu da reunião para o bar me caiu a ficha: eu sempre achei que eu não falava em público pelo movimento ou escrevia um texto com minhas posições, ou produzia algum material do MPL, porque eu era tímida, porque me sentia despreparada. Mas então ouvi várias meninas dizendo a mesma coisa. Seria uma coincidência que todas elas fossem tímidas? Que todas e todos prestem mais atenção quando os homens falam? E por que muitas vezes meninos que entravam mais tarde no movimento tinham mais facilidade para assumir essas funções? É claro que não havia no movimento uma conspiração do mal por parte dos homens do MPL, mas havia sim um machismo velado nas nossas relações, no modo em como nos víamos e agíamos dentro do grupo. A política ainda é um espaço muito machista e precisamos, homens e mulheres, desconstruir muitos maus hábitos que até mesmo a esquerda segue reproduzindo.

Depois que me dei conta que minha timidez não era exatamente um problema exclusivamente meu, fiz uma retrospectiva, atentando para várias frustrações que eu compartilhava com outra mulheres. Isso me ajudou a perceber como um sofrimento que a princípio pode parecer pessoal, é na verdade um problema social e uma questão política. Por exemplo, um outro lugar no qual o machismo (e o capitalismo!) se expressa com frequência é no corpo. Esse sentimento de desconforto com o nosso corpo – que para algumas pessoas chega ao ponto  insuportável de não se aceitar –, por que será que é tão comum? Lembro de uma atividade que uma professora de educação física fez com a minha turma, só de meninas, na quinta série. Ela pediu que desenhássemos um corpo que gostaríamos de ter. O absurdo é que eu, como a maioria das meninas, não imaginei um outro corpo, sei lá com asas, por exemplo.  Desenhei um que já existia: a Sheila Carvalho. Provavelmente porque querer ser a loira do Tchan seria um tanto ridículo. Era melhor querer ser a morena, por mais que eu estivesse anos luz  dos seus cabelos lisos e olhos verdes.

Mais tarde várias das minhas coleguinhas fizeram luzes ou pintaram seus cabelos de loiro, eu mesma fiquei ruiva por uns tempos. Acho que naquela época a Shakira ainda não era loira, pois se fosse com certeza eu teria feito alguma coisa muito errada com o meu cabelo. Essa era nossa referência de boniteza na época, que é, digamos, no mínimo limitada a um único padrão. Não acho que ter vários padrões, como o das gordinhas, branquinhas, negras, ou seja, as toleráveis belezas reais das propagandas da Dove resolvam esse problema. Mas ter uma diversidade de referências talvez sim. Até vemos na televisão uma Daniele Suzuki, uma Taís Araújo ou Dira Paes, mas infelizmente o padrão continua sendo branco, cabelos lisos, feições afiladas, no qual muitas dessas exceções precisam se encaixar. Tanto que me assustei com um depoimento publicado outro dia pela blogueira Lola (http://escrevalolaescreva.blogspot.com/2012/02/guest-post-e-duro-ter-cabelo-duro.html), É duro ter cabelo duro, escrito por uma menina de apenas quinze anos que não tolerava seu próprio cabelo e nem aceitava as formas do seu corpo. É um caso extremo, mas muito comum. Não são poucas as mulheres que se expões a procedimentos dolorosos para transformar o seu corpo como se este fosse apenas uma coisa a ser moldada, e não aquilo que as constitui, o que as faz ser o que são.

Não julgo as pessoas que pintam, alisam, enrolam ou raspam seus cabelos. Nem quem faz cirurgias plásticas, body modifications ou passa horas na academia esculpindo o “corpitcho”. Não acredito num corpo “puro” , nem que a beleza “natural” seja a mais bela. Na verdade, nem sei se isso existe. Somos moldadas e transformadas pela cultura que compartilhamos em sociedade. Nossa postura, nossas roupas, nossos concepções de beleza foram construídas ao longo da história. Elas mudam e se transformam. Por isso acho que não custa nada de vez em quando pensarmos sobre elas, saber da onde vêm e como foram em outras épocas. Até para lembrarmos que há motivos para acharmos certas coisas belas e outras não. Isso não é algo inato! A partir daí podemos debater se concordamos ou não com estas concepções, e, por que não, imaginar outras possibilidades.

Pensando sobre isso eu lembro de uma fala no filme da francesa Agnes Varda: Cléo de 5 à 7. Foi proferida por uma amiga de Cléo, a belíssima cantora de sucesso, que logo no início do filme fica sabendo por uma cartomante que está muito doente. Sua beleza é algo muito importante para sua existência. Logo após receber a notícia diz para si mesma, olhando-se no espelho: “Calma, bela borboleta, a feiúra é uma espécie de morte. Enquanto eu for bonita, estarei ainda mais viva do que os outros”. Em um dado momento do filme, se cansa de seu apartamento, das pessoas a sua volta, da sua constante preocupação com o olhar dos outros. Talvez cansada de si ela parte para a rua. Novamente de frente para um espelho diz a si: “Meu rosto de boneca que não muda, esse chapéu ridículo (tira o chapéu). Não consigo ver meus próprios medos. Sempre acho que todos estão olhando para mim, mas eu olho somente para mim mesma. Isso me deixa exausta”. No caminho vai ao encontro de uma amiga, que está num atelier, posando nua para alguns escultores. Ela a pergunta: “Você não se importa em posar?”, a amiga responde “Não, por quê?”. “Eu me sentiria tão exposta, com medo que encontrassem um defeito”, vem então a resposta fantástica: “besteira! Meu corpo me deixa feliz e não orgulhosa”. Que bela máxima para se seguir, não acham? Ela que entendia que ao olharem o seu corpo, os artistas viam mais do que ela, mas formas, inspirações para sua esculturas. Desde que assisti esse filme sempre que tenho algum vacilo ideológico e penso em mudar qualquer coisa em mim, me pergunto: eu quero isso porque irá me fazer feliz ou para ficar exibindo para os outros? Ou porque sou cobrada pelos outros?

O feminismo no meu cotidiano é um pouco isso: estar a atenta a essas coisas aparentemente normais e pessoais que me deixam insegura em relação a mim mesma. Algumas delas vamos aprendendo a contornar por conta própria. Mas como o problema não está na gente, é só coletivamente que vamos conseguir mudar as coisas. Por isso aproveito esse dia que celebra a luta pela emancipação das mulheres para mandar um salve para todas as companheiras e companheiros que compartilham comigo o desejo de um mundo mais justo, livre, democrático e feminista!

|cinclube Imagens em Movimento e A Canhota apresentam: Persépolis | 22/09 às 19h no SEEB!

19 set

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As mulheres nas revoltas árabes | Iêmen

10 maio

Mulheres do Iêmen: Out of the shadows

por Nadya Khalife
tradução: Carol Cruz
originalmente publicado em

 

 

 

Milhares de mulheres levantaram-se em manifestações contra o presidente Saleh.

Apesar dos grandes riscos que correm vivendo em uma sociedade machista, milhares de mulheres levantaram-se em manifestações contra o presidente Saleh.

“Membros das Forças de segurança trajados de civis me ameaçam com uma jambiyya, não somente durante as manifestações, mas em qualquer lugar que vou”, me disse a líder do protesto e jornalista Tawakkol Karman, referindo-se ao punhal tradicional que os homens do Iêmen carregam na cintura.

No passado, qualquer menção nos noticiários sobre as mulheres do Iêmen geralmente tratavam de duas questões, nenhuma delas positiva. A primeira é de que a chance de morte durante o parto lá é muito maior do que para a maioria das mulheres no Oriente Médio. E a segunda é a de que elas se encontram entre as mulheres menos empoderadas do mundo.

A segunda proposição foi recentemente derrubada pelos levantes no Iêmen.

Desde o início dos protestos, mulheres como Karman tem saído às ruas em grande número para se manifestarem contra o presidente Ali Abdullah Saleh, que governa o Yemen há mais de 30 anos. Elas estão, ao lado de dezenas de milhares de homens iemenitas, enchendo as praças de Sana’a, Ta’izz, Aden e outras grandes cidades exigindo a renúncia.

Tamanho tem sido o poder da sua presença, que Saleh se sentiu obrigado a acusar as mulheres que se juntam aos protestos de não islâmicas, por manifestarem-se ao lado dos homens.

Os protestos deram as mulheres a chance de expressar suas próprias preocupações com as suas batalhas do dia a dia contra o governo de Saleh. Incluindo aí seu status legal subalterno, no qual permanecem como eternas menores que precisam estar sob a guarda dos homens, e a persistência de práticas prejudiciais como o casamento infantil.

As mulheres realizaram suas próprias manifestações, mas também protestam junto de seus compatriotas homens exigindo democracia. Sua coragem tem um preço: as forças de segurança e homens pró-governo à paisana têm ameaçado, insultado e atacado as mulheres manifestantes. Ao menos 109 manifestantes pacíficos foram assassinados no Iêmen desde de que a onda de protestos começou, em meados de Fevereiro. Centenas foram feridos.

É certo que os manifestantes homens são mais visados, mas no Iêmen as mulheres estão particularmente vulneráveis a aos ataques. O Iêmen é uma sociedade tradicional na qual a mulher geralmente têm uma condição social baixa e é excluída da vida pública.

Em 2010, uma reportagem feita pela Freedom House, sobre as mulheres no Oriente Médio, destacou o Iêmen como um dos três países da região que, nos último cinco anos, fracassaram em realizar avanços significativos em relação aos direitos das mulheres. As mulheres nunca tiveram mais do que três cadeiras das 301 na câmara dos deputados do parlamento, elas não tem os mesmos direitos civis que os homens e a violência doméstica continua não sendo considerada um crime. Ativistas dos direitos da mulher continuam a enfrentar violências.

Neste contexto, muitas mulheres temem as consequências de sua participação no levante contra Saleh. Uma jovem ativista em Sana’a, que não quis se identificar, me disse que ela é uma entre várias mulheres que ela conhece que não contam para suas famílias que estão indo para os protestos. Ela disse que as famílias as proíbem de se manifestarem. Em parte porque se preocupam com sua seguranças enquanto mulheres,mas também porque sabem que sua reputação e honra estão em jogo.

O temor em relação a sua segurança não é infundado. No dia 27 de abril, um homem armado, sobre uma motocicleta, atirou para o ar na frente da casa de uma ativista conhecida, Bushra al-Maqtari, em Ta’izz, uma cidade ao sul da capital. Maqtari disse que já havia recebido ameaças verbais anônimas.

Outra ativista de Ta’izz, uma advogada que também não quis se identificar, me contou sobre um incidente que testemunhou em 16 de março, quando ela foi buscar suas filhas na escola. Ela disse que viu um grupo de homens armados com pedaços de pau e pedras assediando e apedrejando várias meninas entre 16 e 17 anos. Queriam impedi-las de marcharem para a praça Thahrir (Liberdade) de Ta’izz, o principal ponto de protestos da cidade. Eles disseram que os pais das meninas não souberam criá-las e que indo para praça estariam incitando o assédio sexual. Os homens feriram 14 das meninas.

Esses ataques, junto com a discriminação sustentada pelo Estado e pela vergonha das famílias, não favorecem as mulheres iemenitas que estão se levantando. Mas por enquanto, elas continuam a lutar por seus direitos. Dois dias após o pronunciamento de Saleh acusando as ativistas de não islâmicas, milhares tomaram as ruas novamente, determinadas a mostrar que não serão caladas nem enviadas para casa.

 

O céu e o inferno de Marina Indarte

24 abr

Conto de Elaine Mendina

Tradução de Sergio Faraco


N ão reconheci a voz. Fazia tempo que não a ouvia, e mesmo só a ouvira, antes, num apressado cumprimento pelos corredores da faculdade ou na arenga um tanto monótona de professor dando aula já cansado. Não tinha sido sua aluna, mas às vezes anoitecia ouvindo-o de algum corredor.

O endereço, no entanto, era o dele, e deu o nome, a ocupação, condições de vida, os dados geralmente solicitados quando se pede uma empregada doméstica: “Professor Jorge Torrealba. Para arrumar a casa e cozinhar. Não, não tenho filhos. A roupa mais pesada mando lavar fora. Horário a combinar…” E logo o salário que propunha, o telefone. Repetiu o endereço. Sem dúvida, era ele.

Atendi um cliente que aguardava na linha, fingi que organizava papéis e fichas, e ao encaminhar os pedidos à encarregada separei o de Torrealba, sem alterar a ordem do fichário. Guardei o papel na bolsa e o levei para casa.

Consegui dispensa do serviço na terça-feira, e às nove, sem um único gesto que traísse meu nervosismo, apertei o botão do porteiro eletrônico. O edifício não era dos piores, embora localizado no caminho do aeroporto e depois de Euskal-Erría, lá onde o Diabo perdeu as botas. Levava comigo o nome e as referências de uma candidata cuja ficha eu consultara, Marina Indarte, e meperguntava quem seria aquela criatura. As referências eram de dois empregos anteriores. Enquanto subia pelo elevador, me concentrei numa pequena mossa da pintura para não pensar.

Ele me recebeu de jeans e camiseta sem mangas. Um pouco sem jeito, vestiu rapidamente uma camisa e me fez entrar com gestos algo incoerentes. Tinha um copo de uísque na mão. Não deu o menor sinal de que me tivesse visto antes, o que não chegou a me surpreender, e mal passou os olhos nas minhas referências.

Não conseguiria repetir o que conversamos nem que me matassem. Só me lembro de que, quando me chamou de senhorita Indarte, me surpreendi e tive medo de que desconfiasse da manobra. Mas ele continuou falando: que não mexesse nos papéis, pois ele, pessoalmente, arrumava a escrivaninha; os lençóis, trocasse dia sim, dia não… Não me lembro de mais nada. Vinte minutos depois, saí dali quase em colapso, contratada para começar na segunda-feira seguinte.

Não sei bem por que fiz isso. Quando a ocasião surgiu, creio que a vi como a única chance de começar a vida. Porque eu não tinha vida, a não ser que se pudesse chamar assim ao movimento mecânico de despertar, tomar café, trabalhar e almoçar em qualquer lugar. E às vezes dormir. Às vezes. Outras, amanhecer diante de um televisor que eu nem via ou com um livro que eu nem lia, sempre a reviver, a reconstituir aquele homem, dando-lhe consistência com cada gesto recordado, com cada palavra e cada inflexão da voz, com cada informação que dele tinha. Informações que guardava com apego de colecionador fanático: divorciado desde muitos anos, pai de quatro filhos adultos, três mulheres e um menino, o caçula. E bebedor contumaz, professor estimado pelos alunos, colunista brilhante em vários jornais e revistas, respeitado crítico literário… e Dom Juan impenitente, apesar de certa história desditosa que terminara numa tentativa de suicídio, por causa de uma mulher casada. Como num quebra-cabeças, e com a paciente e obsessiva dedicação de um escultor à sua obra-prima, eu o construía com retalhos de vida para tê-lo comigo, um pouco, em cada uma de minhas noites amargas. Tinha todos os seus livros, todos os seus artigos de jornal recortados e reunidos numa pasta, isso sem falar nas fotografias tiradas em eventos culturais, aos quais eu comparecia só para vê-lo. Por onde eu andasse me acompanhavam sua figura envelhecida e bondosa, sua longa e absurda cabeleira revolta que já roçava os ombros e começava a rarear sobre a testa, suas longas e belas mãos, o gesto habitual de colocar e tirar os óculos enquanto falava. Conservava até uma folha de agenda onde estavam escritos, com sua letra, títulos de livros recomendados, embora não tivesse feito as anotações para mim e sim para uma colega. Aquilo era doentio e eu me dava conta, mas não conseguia me curar.

Cheguei a tentar, com sinceridade, dar um fim àquela loucura. Saí com vários homens: um antigo companheiro de faculdade, um certo galãzinho de esquina ao qual dei entrada por puro tédio, ou desespero, um chefe de seção da agência de empregos que me fazia pensar: “Esse velho…” E ao mesmo tempo me lembrava de que Torrealba era pelo menos dez anos mais velho do que ele. A única memória que conservo desses encontros: o café esfriando na xícara, a tentativa de manter a expressão facial de acordo com uma conversa que eu não ouvia e da qual participava só com monossílabos. De vez em quando, junto ao meu corpo, outro corpo que nada despertava em mim e me deixava um ressaibo nauseante. E sempre, sempre, a figura encanecida e doce do professor acabava tomando o lugar do homem que eu tinha diante de mim e que, invariavelmente, nunca mais me procurava.

E então aquele pedido de serviço doméstico… Lembrei-me de Lorde Byron: “O casamento está para o amor assim como o vinagre para o vi-nho”. Claro que aquilo não seria nem mesmo um casamento. Pior ainda: teria deste todo o tédio da domesticidade e nenhuma de suas compensações. Porque eu não nutria nenhuma esperança de seduzir Torrealba. Pelo que sabia, o homem não era excessivamente seletivo. No entanto, parecia não sentir por mim o menor interesse. O que eu queria era

surpreender intimidades que o dessacralizassem, aquelas cuja existência não ignoramos, mas não podemos ver. Queria vê-lo recém-desperto, rosto inchado de sono e de ressaca, ouvi-lo tossir e fazer ruídos vergonhosos no banheiro, ver como sujava as cuecas e meias como qualquer filho de vizinho. Queria surpreendê-lo sorvendo com ruído a sopa, palitando os dentes, pondo os pés sobre a mesa, cabeceando no jornal e com um fiozinho de baba nas comissuras, ou roncando, ou coçando as partes íntimas, ou agressivo, irritadiço, reclamando de qualquer ninharia. Surpreender sua miséria humana, igual à de todo mundo, derrubá-lo do pedestal em que subira, independentemente de nossas vontades, para dominar dolorosamente a minha vida inteira.

Sei que isso não se faz, que essas portas não devem ser atravessadas quando não são franqueadas, mas já não suportava mais. Era humilhante roçar nele de propósito, num corredor, e vê-lo com cara de distraído, de enfastiado, enquanto minha roupa interior se empapava. Era uma questão de sobrevivência.

Deus, foi pior a emenda que o soneto.

Trabalhei exatamente um mês. Via-o pouco e pouco falávamos. Mas conhecia suas alpargatas e suas xícaras, os gastos de sua cozinha e o caos de seus horários. Estava a par da velocidade com que se esvaziavam suas garrafas. E às vezes, na sua ausência, pregava algum botão em suas camisas, sentava-me à beira de sua cama para cerzir suas meias, acariciava, ao guardar, aquelas impossíveis gravatas que pareciam um presente de inimigo. Ele bebia e eu me embriagava: cheguei até a deitar-me em seus lençóis matinais, antes de estendê-los, procurando o rastro de seu calor noturno, a afundar o rosto na umidade da toalha em que se secara, a levar à boca o copo em que bebera. Amei sua amabilidade distraída – se eu fosse trabalhar vestindo uma folha de parreira, ele não teria notado –, seu cumprimento apressado sem sequer me olhar. E chorei de amor, de desesperado e compassivo amor, no dia em que, pela porta entreaberta, vi que tentava enfiar a chave na fechadura do apartamento vizinho, bêbado como um peru. E eu estava tão doente quanto ele. Não tínhamos remédio.

E então eu fiz. Desde semana trazia comigo o frasco de um forte sedativo que me haviam receitado e nunca usara. Talvez até nem fosse necessário, tanto ele bebia. Pelo sim pelo não, coloquei duas cápsulas no copo dele. Bocejou várias vezes enquanto mexia em seus papéis, foi para o quarto e se fechou. Dei-lhe um tempo e abri devagarinho a porta. Dormia vestido, e o braço inerte, pendido até o chão, deu-me a certeza de que o sono era profundo.

Tive muito trabalho para despi-lo. Era um homem corpulento e eu sou uma mulher pequena. Não consegui tirar a camisa, mas com uma tesoura cortei o tecido onde folgava. Foi uma façanha fazer com que a calça deslizasse por baixo das nádegas e creio que ele me ajudou com um movimento involuntário, mas não poderia jurar. Quando o tive com o torso nu e a calça nos tornozelos, fechei a chave a porta da rua e dei início à longamente adiada consumação.

Descalcei-o, tirei-lhe a calça e joguei tudo ao chão. Deixei a cueca. Isso seria depois, muito depois. Tinha tanto o que fazer! Me despi, tomei uma ducha, voltei e me detive a contemplá-lo. Era alto, forte, ainda bonito apesar dos cinquenta e tantos anos e do envelhecimento decorrente do alcoolismo. O longo cabelo branco se desordenara no travesseiro. Como uma criança entre os doces, eu não sabia por onde começar. Quando pequena, sempre quisera saber o que teriam sentido Hansel e Gretel diante da casinha de chocolate. Agora sabia.*

Acariciei levemente seu rosto, acompanhei com a ponta dos dedos o perfil aquilino de seu nariz, a pele algo flácida dos pômulos. Quase sorri ao me dar conta de que não lhe conhecia a boca, escondida no matagal dos bigodes brancos. Com os dedos, separei-os suavemente, tocando seus lábios. Eram finos e estavam ligeiramente arroxeados. Beijei-os bem devagar e logo com mais força, minha respiração ficou tão agitada que tive de parar. Ele se mexeu, murmurou algo incompreensível. Contei, repassando-as com a língua, cada ruga da pele do pescoço, as curvas da orelha. Entretive-me com seus cabelos, penteando-os docemente e tornando a despenteá-los. Comprimi o rosto neles, aspirando-lhes o odor impreciso até ficar sem ar. Rocei as pálpebras fechadas. Ao fazê-lo, a dor que pulsava debaixo daquela felicidade absurda assomou a superfície, dando uma outra e triste dimensão a tudo: ele não abriria os olhos, não saberia que eu estava ali.

Foi essa mesma impotência, a desesperante incapacidade de ter sua alma, que me garantiu uma determinação cruel, deliberada e final. De acordo, Jorge. Só teu corpo. Não posso me apoderar de outra coisa pela força, mas ao menos isso eu terei, longa, demorada e malignamente. Vou te devorar, professor, como a um animal de presa. Vou provar cada pedacinho da tua carne.

Ocorreu-me, de repente, que aquilo era uma violação, mas em seguida pensei que mulheres não podem violar e que, enfim, não me importava nem um pouco o nome que se desse ao que eu fazia. Centímetro por centímetro, fui investigando sua desconhecida geografia. O peito era musculoso, com uma ligeira linha de pelos prateados ao centro e muitos sinaizinhos espalhados. Sob o mamilo esquerdo havia um maior, saliente. Molhei-o com a língua. Fui descendo. A carne se afrouxava um pouco no ventre. Mordi devagar, pressionando com os dentes sem machucar e a recorrê-lo com os lábios. Encontrei o umbigo, detive-me a brincar ali. Tinha felpas azuis da toalha e as retirei com a língua. Em seu peito descobri uma marca perfeitamente circular, que por um instante me deixou perplexa. Logo me lembrei. A cicatriz da bala. A bala que disparara contra si por causa de outra, uma tola infeliz que não soubera avaliar sua boa estrela. Beijei sofregamente a cicatriz, como querendo apagá-la, mas permaneceu ali, claro. E as marcas da outra também permaneceriam ali. Eu não apagaria nada. Eu não existia. Estava tão ausente daquele sonho alcoólico e sedado como o estava de seus pensamentos conscientes. Como o estava de sua vida. Comecei a chorar. Descontrolada de dor, de febre, apossei-me de suas compridas pernas, ainda musculosas. Tinha a pele das panturrilhas ligeiramente escurecida, veias salientes – lembrei-me de tê-lo ouvido falar de problemas circulatórios. Afaguei os joelhos, os tornozelos. Cheguei aos pés. Eram bonitos, brancos, bem modelados, as unhas dos polegares excessivamente longas. Mordisquei os polegares, e como um gato brincandopenteei com a língua os minúsculos pelinhos de cada dedo. Introduzi a língua entre eles. Lambi a sola e o peito do pé, e com a boca ardendo empreendi o caminho de volta. Ao beijar suas coxas, ele suspirou e murmurou algo. Havia prazer nesse suspiro. Gozei até o último eco do murmúrio, e quando já não havia som algum, prossegui minha febril exploração do paraíso invadido. Retirei a cueca. Uma masculinidade a meio repouso, mas bem dotada, ofereceu-se à minha contemplação. Não era, nem de longe, meu primeiro homem, mas agora me dava conta de que nunca olhara de verdade para nenhum deles. Nunca percebera que num pênis sonolento pode haver a mesma desampa-rada ternura de um rosto bem-amado em seu despertar pelas manhãs. Eu jamais o veria despertar pelas manhãs. E então tomei o que eu tinha, aquela cega resposta do corpo a um estímulo sem cara e sem nome.

Chorava sem poder evitar, enquanto o montava. Porque não era ele. Era sua pele apenas, sua reação mecânica, sua carne seguindo-me como a um guia de cego, sem saber quem era eu. Eu estava sozinha. Sozinha, cavalgava a amplitude de seu ventre, descia as escarpas de suas virilhas. Sozinha, escorregava em suas depressões, aninhava-me nas tépidas covas gê-meas de suas axilas, percorria seus vales mais íntimos, escalava, beijo a beijo, seus promontórios. Ele não estava ali, nunca estaria. Molhando-o todo com a língua e minhas lágrimas, explorei a face interna das coxas, o púbis. Sempre quisera saber se num homem encanecido os pelos pubianos também eram brancos. Não, não eram. Eram escuros, crespos. Com dedos que eram borboletas acariciei sua semiadormecida virilidade, tomei na palma da mão seus testículos, como a implumes pombinhos. Sua criatura se ergueu levemente e minha boca dela se apossou com infinito cuidado. Está bem. Só teu corpo. Mas é meu. Eu o tomo, meu amor. Não me dás, te tomo.

O jorro do sêmen em meu rosto parecia um protesto. Menos surpreendente do que isto teria sido ver-lhe tirar um ramo de flores debaixo do travesseiro e me pedir em casamento. Não percebera que o corpo dele me seguia no jogo até esse ponto. Me levantei e o olhei. Seria possível que…?

Mas não. Tinha os olhos fechados. Não estava ali. Cega de dor, de amor, de raiva impotente, saltei para o chão e atravessei o corredor até a cozinha. Deixei abertas todas as bocas de gás. Minha bolsa estava sobre a mesa. Engoli sem água várias cápsulas e voltei, deixando o quarto aberto. Me deitei ao seu lado e, enquanto o cobria e a mim com o lençol, ia dizendo, sem pressa, ao seu ouvido:

Foi culpa tua, meu amor, de ninguém mais, só tua. Por que te fizeste amar assim? Deixaste crescer o fogo, não fizeste nada… e ele agora te consome a ti também. Vê só, meu amor, já não resta nada por queimar em mim, já não há mais sangue nem mais vida para calcinar, nem mais lágrimas para mitigar a dor e a humilhação. Chorei as últimas agora, sobre teu sono, sobre teus olhos fechados… e o fogo continua. Como é que não te deste conta, meu amor, tão inteligente e tão mais velho, tão Dom Juan e tão homem do mundo, como não previste o que aconteceria…

Já se sente o odor enjoativo do gás, já começa também a tonteira do sedativo. Aperto-me contra ele, faço com que me abracem seus braços inertes. Não quero ir sozinha. Tenho medo, tenho frio, papaizinho. Quero ir agarrada a ti, escondida em teu regaço, aquecida em teu calor. Tu vais comigo. Não te deixo para outra. Tu vais comigo. Vamos juntos, meu amor. Não vou te deixar, bastardo filho da puta, minha alma, meu amor.

ELAINE MENDINA é uruguaia, nascida no departamento de Artigas. Publicou, entre outros, os livros Ibrahim e os outros (1990), Primera luna (1991) e El otro circo (1992). Reside em Artigas.

Fonte: suplemento literário, Belo Horizonte, Março–Abril/2010 • Nº 1.329 • Secretaria de Estado de Cultura de Minas Gerais

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