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Publicação infeliz e o que podemos aprender com isso

31 mar

Hoje encontramos isso no Facebook:

devassaIndignação, horror, denúncia de (mais um) material criminoso da tal da cerveja. O que fazer com isso?

Não manjo quase nada de direito, mas acho que nós, civis, pessoas físicas assim, não podemos fazer denúncias ao Ministério Público, por exemplo. Resolvi consultar uma amiga minha advogada, envolvida com as questões de gênero, e ela indicou dois caminhos: se for alguma coisa local, denunciar para o Conselho Municipal dos Direitos das Mulheres (Condim), em Florianópolis. Como essa joia não tão rara (gostaríamos que fosse mais) reproduzida acima é de divulgação nacional, ela indicou a Secretaria de Políticas para as Mulheres (SPM) do Governo Federal.

O legal é que descobri que a SPM tem uma ouvidoria, com vários meios possíveis de se fazer denúncias, além das funções usuais das ouvidorias. Eu lembro de um caso de um site de incentivo ao feminicídio que foi fechado através de uma denúncia da SPM ao Ministério Público, então acho que é um espaço que pode dar resultado, além de ser uma ferramenta institucional que representa uma grande conquista e está aí pra ser usada.

O que vou copiar abaixo não é um modelo rígido nem nada, só um exemplo, pra mostrar que não é complicado denunciar. Sobre essa publicação aí, eu fiz assim:

1. Enviei um email para a ouvidoria da Secretaria de Políticas para Mulheres do Governo Federal: ouvidoria@spm.gov.br 

2. com o título “Publicação que leva o nome da Cerveja Devassa naturalizando crime de estupro”

3. No conteúdo do email escrevi o seguinte:

“Olá!

Considerei a publicação causa de indignação, e pensei que o melhor caminho fosse encaminhar uma denúncia a um órgão competente como a SPM.

Obrigada, Soraia Carolina de Mello.”

4. Além disso anexei a foto da denúncia que vi no Facebook no email.                

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Outras integrantes aqui do blog me pediram pra escrever sobre isso, porque por mais que as denúncias nas redes sociais possam ser importantes, elas nem sempre chegam aos órgãos competentes, além de muitas vezes ajudarem a divulgar as atrocidades, a cultura do estupro, e essas paradas sinistras todas que andam ganhando força por aí. Sem contar que rola uma espécie de ego chauvinista, um orgulhinho de ser tema de debate das feministas. E nós, sinceramente, não precisamos debater mais do mesmo, só queremos esse material recolhido e a empresa com prejuízo pra pensar duas vezes antes de naturalizar o estupro em seus materiais publicitários.

Temos muitas leis terríveis, muitas leis injustas, mas quando se trata de violência contra as mulheres temos respaldo nas instituições para nos defendermos. Este respaldo é uma conquista coletiva dos feminismos em nosso país e é importante fazermos amplo uso dele, tanto para nos protegermos, contra a violência, contra esse tipo de material, quanto para protegermos e legitimarmos esses espaços institucionais de denúncia. Pelo menos foi pensando nisso que eu denunciei.

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O riso dos outros

23 dez

Mais de 6 meses sem atualização aqui é demais! Nossas “férias” acabaram.

Pra quem gosta de humor, ou pra quem detesta porque acha que tende a reproduzir estereótipos e reforçar preconceitos, esse documentário de Pedro Arantes, O riso dos outros, pode ajudar a pensar algumas coisas. Pelo menos que o humor não precisa sempre usar os estereótipos como muletas, mas talvez o mais interessante seja aprender a rir, a fazer piada das formas como estes mesmos estereótipos-muletas utilizados pelo humor mais comum se constituem.

Outro ponto interessante que é abordado é o do politicamente correto, e como a associação entre defesa de direitos e censura tem passado a impressão de que revolucionários são os que vem reproduzindo (e recriando!) tradições centenárias ou até milenares de exclusão, apontando estes como livres, símbolos da legítima liberdade de expressão, e quem busca a transformação como “careta”, polícia do politicamente correto ou o que for. É uma inversão torta e profundamente conservadora, que vemos o tempo inteiro e pouco se fala a respeito.

Vale ainda observar como mulheres podem ser sexistas, exemplos de negros reproduzindo o racismo nas piadas e homens brancos questionando o humor de forma séria, e buscando alternativas. Só pra pensar que algumas de nossas identidades são menos importante do que o que fazemos com elas, no final das contas.

23 dez

Sobre linguagem inclusiva

1 jun

Terminei de ler agora uma espécie de livreto do governo mexicano, realizado – me parece, não li essa parte com atenção – com o apoio do CEDAW (Committee on the Elimination of Discrimination against Women)/ONU, de 2009, e pelo que eu entendi revisado e distribuído pelo Consejo Nacional para Prevenir la Discriminación (CONAPRED) do México, intitulado 10 recomiendaciones para el uso no sexista del lenguaje. Não estou mesmo com vontade de reler essa parte para confirmar essas informações, mas elas estão ali.

O ponto que me interessa é que, apesar de toda discussão que pode gerar, achei este um documento bem interessante para se levantar o problema. A maior parte das questões gramaticais do espanhol nesse sentido são semelhantes ao português, o que torna o documento bem útil para nós. Achei especialmente interessante o fato de ao invés de se buscar trabalhar com a redefinição dos artigos “o” e “a”, naquela coisa de “@”, “x” (e até “e” ou “i” já vi serem discutidos), no geral são propostas formas de utilizar os recursos que a própria língua oferece. No caso do português considero isso especialmente positivo, pois assim podemos evitar uma linguagem inclusiva “mussumiana”, como por exemplo “caris amiguis”, que convenhamos, não contribuiria em nada para os chistes que em geral são utilizados para ridicularizar as feministas.

Isso tudo me lembrou algo que escrevi para o terceiro número d´O Independente em 2005, que reli hoje com certo embaraço. Não reescreveria nada daquilo daquele jeito. Mas bem, os textos são datados, e a discussão é a mesma. Apesar de que atualmente tenho minhas dificuldades em localizar as feministas estruturalistas que cito ali!! hehe

Pra quem tiver curiosidade, o livreto pode ser acessado aqui; e o meu texto absolutamente datado, aqui. Fiquei com a impressão de estar devendo um post mais básico sobre linguagem inclusiva, ou trazer algumas discussões do porquê determinados setores da mídia corporativa se negam a chamar a Dilma de presidenta, mas acho que esses pontos cabem em outro momento.

Até logo o/

É hoje!

26 maio

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Divulgando a Marcha em Floripa

26 abr

Marcha das Vadias - 26 de março em Floripa

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“VIOLAÇÃO

(…)

b) Século XX

Para a mulher, a definição de violação é simples: todo ato sexual praticado em seu corpo, contra sua vontade. Isso independentemente de sua idade, estado civil, hábitos sexuais privados etc.

Para o homem é completamente diferente. Ele não define a violação. Nega-a conforme sua própria concepção das circunstâncias que envolvem o ato sexual praticado por ele. Uma “auto stop” que transporta em seu carro é suposta culpada e não vítima da violação sofrida.

Se uma jovem usa saias muito curtas, é que consciente, ou inconscientemente, queria atrair um homem, portanto é culpada.

‘Fantasmas’ de violação são atribuídos às mulheres, o que justifica que os homens tornem esses ‘fantasmas’ reais. Mas os ‘fantasmas’ de castração não justificam esse ato posto em prática pelas mulheres contra os homens. Que eu saiba, pelo menos.

Os juízes exprimem ainda freqüentemente uma ideologia tradicional masculina, quando chega até aos tribunais um caso de violação. É suficiente ler os inúmeros testemunhos reunidos num livro recentemente publicado na França. As atitudes judiciais e policiais com relação às ‘queixosas’ são de tal ordem que numa pesquisa empírica, feita em 1976, a polícia reconhece que somente uma mulher em dez ousa apresentar queixa.

A verdade é que não se pode saber, pois justamente as que escolheram … (escolheram?) calar, representam o desconhecido. Muitas guardam a vergonha em segredo, numa lembrança que as perseguirá sempre, quanto mais tentarem esquecer. Com mais razão se calam se o violador for membro da família. Menie Grégoire [radialista francesa, também contribuía escrevendo para revistas femininas], assombrada com o número de incestos em todas as classes sociais, a se julgar pelas milhares de mulheres que o confessaram em suas emissões radiofônicas, insiste sobre um fato revelador:

‘O ato sempre se passa na proximidade do resto da família (…). Forçada a manter durante dois anos uma ligação com seu pai, uma mocinha de quatorze anos retratou-se na ocasião do processo, sob a pressão de sua mãe, dos advogados, e dos magistrados: ‘Você quer então mandar seu pai para a cadeia, destruir sua família e ir parar na Assistência Pública?’.’

Num estudo aprofundado, Susan Brownmiller mostra como o estupro das mulheres do inimigo é uma tática de guerra e das revoluções, até mesmo no século XX. Demonstra a autora, com dados precisos, o estupro recomendado aos exércitos alemães contra a população belga e francesa durante as últimas guerras.

O estupro não servia somente para afirmar a vitória do inimigo, como também, numa propaganda bem orquestrada, intimidar uma possível resistência.”

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PRADO, Danda. Ser esposa: a mais antiga profissão. São Paulo: Brasiliense, 1979. Pg. 67-68.

Por ela citadas nesse trecho:

BROWNMILLER, Susan. Against our will. London: Secker & Warburg, 1975.

FARGIER, Marie-Odile. Le viol. Paris: Grasset, 1976.

GRÉGOIRE, Menie. Les cris de la vie. In: FARGIER, Marie-Odile. Le viol. Paris: Grasset, 1976.

Isto é machista!

26 jan

Ontem estava vendo qualquer coisa na TV e vi essa propaganda do Santander. Mais uma razão (e esse banco dá várias) pra mantermos nossas contas correntes longe dele.

Ela pode ser mais sutil que as propagandas de produtos de limpeza que a Flora citou aqui anteriormente, mas não deixa de associar o ensino superior com a população branca, e segregar as profissões entre homens e mulheres.

Acho inclusive essa sutileza mais perigosa, porque passa a impressão de um informe publicitário de “bom gosto”, aí as pessoas descansadas, baixam a guarda, e acabam achando normal todos os estereótipos que são reforçados ali.

Os rapazes apresentados serão o futuro orador, o futuro engenheiro. A moça é a futura chef de cozinha ¬¬ Se quiser, você poder assistir a propaganda aqui.

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