Mais do mesmo, a lógica de culpabilização da vítima em situações de violência

15 dez

Hoje o Fantástico começou com uma reportagem sobre crianças desaparecidas. Em uma espécie de teste de atenção com quem cuidava da criança, um estranho, contratado pelo Fantástico, se aproximava das crianças, puxava conversa e oferecia um pirulito. Algumas crianças conversaram com esse ator e pegaram o doce. A matéria foi inspirada em uma campanha internacional, e no pirulito entregue para as crianças constava a mensagem “basta um segundo para atrair seu filho para longe. Fique de olhos atentos antes que seja tarde demais”.

Estou gestante, e daqui dois meses terei um filho nos braços. Fico pensando o quanto deve ser terrível ter um filho roubado, desaparecido, é uma situação tão violenta que só de pensar fico profundamente angustiada.

Nos primeiros minutos da matéria refletia, “sim, realmente ter um filho exige muita atenção”. Mas conforme a reportagem prosseguia, vieram os relatos de pessoas que tiveram suas crianças roubadas, a dor dessas pessoas era visível. É muito cruel culpá-las por “1 segundo de distração”. É cruel porque é impossível não se distrair por 1 segundo, é humanamente irrealizável, é psicologicamente inviável. Criar uma criança visando o controle absoluto da sua vida irá tornar a pessoa que cuida da mesma doente, e possivelmente a criança também.

É realmente fundamental para quem deseja cuidar de uma criança ter atenção, muita atenção, principalmente nos quesitos de segurança, para evitar acidentes domésticos, ou outras situações que coloquem a criança em risco.

Mas no caso das crianças roubadas, o que causa o desaparecimento delas? 1 segundo de distração de quem está cuidando? Ou o ser humano perturbado que rouba a criança? Observo no caso dessa matéria, e de outras sobre o desaparecimento de crianças, a mesma lógica de culpabilização da vítima que é comum nos casos de violência contra a mulher. O que causa o estupro? Uma saia curta? Estar na rua a noite? Beber demais em uma festa? NÃO!! É o estuprador.

Como mãe-gestante-feminista não consigo parar de ver semelhanças entre essa situação de desaparecimento de crianças e os casos de violência contra a mulher. Como se já não bastasse o sofrimento gerado pelo sumiço, a família que tem uma criança desaparecida ainda sofre uma segunda violência, por ser indiretamente julgada como culpada por uma situação causada por terceiros.

Espero que a abordagem sobre esses temas mude. Espero ver campanhas e matérias que apontem para a única solução possível para evitar o desaparecimento de crianças, a investigação e localização das pessoas que cometem esse crime. Basta um espirro para 1 segundo de distração, e a segurança e integridade do meu filho não pode ser resumida a eu nunca mais poder espirrar.

Prefere parto normal? Só pode ser louca!

13 out

Encontrei uma conhecida na rua com seu filho de 7 meses, conversamos sobre fraldas, alimentação, creche, e outros assuntos que envolvem bebês. Em certo momento ela me perguntou: “E o parto? Vai fazer cesárea?”, respondi “Não, eu quero fazer parto normal”, a contra resposta parecia já estar na ponta da língua, “Louca!”. Fiquei sem resposta, continuei meu caminho e refletindo porque é tão frequente ser julgada estranha por querer parto normal.

Minha escolha pelo parto normal é totalmente o contrário de uma loucura qualquer, é bem racional por sinal. Não quero passar por um procedimento cirúrgico sem haver necessidade clínica. A cesárea é uma operação, e se decido realizá-la devo tomar todos os cuidados que uma cirurgia envolve. Prefiro o parto normal porque não quero ser operada sem precisar, não quero passar por um pós-operatório cheio de cuidados para não pegar uma infecções, para os pontos não inflamarem etc. Para mim insano é querer ser operada sem precisar. Mas como feminista defendo o direito de escolha da mulher sobre seu próprio corpo, e as mulheres que optam pela cesárea devem respeitadas. Mas também como feminista vejo que certos padrões estéticos são exigidos de nós, muitas desejam passar por cirurgias para corresponder e se enquadrar a esses padrões. Só a mulher tem o direito de decidir o que fazer com o seu corpo, mas devemos refletir que forças e discursos tensionam para que tantas mulheres desde cedo já desejem peitos, bundas, coxas e cinturas diferentes das que possuem. Esses padrões estéticos vigentes também estimulam a preferência pela cesárea, quantas vezes ouvimos outras mulheres falando que não querem passar por um parto normal pois isso iria tornar sua vagina defeituosa, indesejável? De fato muitas mulheres são mutiladas durante o parto normal, em função de um mito que todo parto exige a episotomia, porém diversos estudos comprovam que esse é um procedimento ultrapassado e que não precisa ser utilizado em todos os partos normais. A mutilação não é uma consequência do parto normal, e sim uma ação de médicos mal preparados que realizam procedimentos desnecessários, as coisas estão invertidas, médicos ruins causam mutilação e não partos normais.

A médica Melania Amorim também defende o direito de escolha das mulheres, mas argumenta que essa escolha precisa ser esclarecida. A gestante deve saber todas as consequências e riscos que uma cesárea implica, é compromisso ético dos médicos oferecer essas informações. Mas o que acontece é que muitas vezes os médicos indicam e induzem as mulheres a preferirem cesáreas pensado no que é melhor apenas para eles, e não para as gestantes. No blog da Melania ela traz uma lista com os casos onde a cesárea é recomendada, e outra lista com motivos falsos para operar.

Não tenho expectativas que meu parto seja um momento mágico, pelo contrário, acho que será um momento tenso. Não quero que filmem ou fotografem minhas entranhas, não acho que é uma cena que meu filho precisará ver para saber como ele foi amado e desejado. Particularmente considero essa enxurrada de imagens de parto um pouco desnecessária, na minha cabeça tão desnecessário quanto seria registrar para mostrar para a criança o momento que ela foi concebida, apesar de considerar que esse tipo de imagem pode ser mais interessante esteticamente. Parece que as pessoas estão perdendo a dimensão do que faz parte da intimidade, mas esse é outro assunto.

Compartilhando experiências com um comportamento violento – de que forma eu deveria fazer isso?

19 ago

Traduzi este texto já faz algum tempo, mas por alguma razão não publiquei … Recentemente me lembrei dele por dois motivos. O primeiro é muito semelhante ao que me levou a ele a primeira vez: novamente recebo notícias de que um companheiro agrediu sua namorada, que é também companheira de luta. Infelizmente não foi a única notícia dessas nos últimos meses … O texto que segue é um relato de uma militante do Students for Democratic Society (uma organização de estudantes dos EUA) sobre uma violência que sofreu de um companheiro da SDS. Talvez seja uma das violências mais temidas: a violência sexual, o estupro. Ela narra com uma sobriedade incrível todo o processo pelo qual passou para poder começar a lidar com o que aconteceu. “Levaram-me duas semanas para dizer a ele que o que havia feito me deixou desconfortável; um mês para parar de me culpar; seis meses para conceber que aquilo havia sido um assédio sexual”, ela escreve… Não, não deve ser fácil ser violentada por alguém tão próximo, logo por alguém com quem acreditamos compartilhar sonhos de mudar o mundo.

Ela aponta questões difíceis, como a falta de espaço em seu grupo para que ela ou outras pessoas que haviam sofrido com o comportamento violento deste companheiro pudessem conversar e problematizar o que havia acontecido. As pessoas com quem compartilhou a história se sentiram desconfortáveis e calaram-se. Enquanto isso era ela quem se retirava das reuniões e atividades do grupo. Queria evitar encontrar seu agressor, e ele permanecia lá. Durante este processo, ela relata como uma reunião de emergência somente com as mulheres do grupo, convocada por uma companheira a quem ela havia contado o ocorrido, foi fundamental para que ela se sentisse fortalecida e com coragem para levar a questão para o grupo como um todo. O que leva ao segundo motivo que me fez lembrar deste texto, uma sequências de textos publicados recentemente pelo Passa Palavra (PP) em que eles criticam a existência de espaços exclusivamente femininos dentro de coletivos e movimentos sociais, o que eles chamam de feminismo excludente.

O que me chamou atenção, em especial no penúltimo texto da sequência, é a sua afirmação de que “boa parte da movimentação esquerdista em torno do feminismo” parte das premissas deste feminismo excludente; e a sua constatação de que “as denúncias acerca da violência machista recaem sobre os rapazes da esquerda (habitualmente de fraca envergadura física e flacidez muscular) e não sobre seguranças de boate ou membros de outras profissões hercúleas, mas exclusivamente sobre aqueles que entram em pânico sempre que são acusados de politicamente incorretos”. Daí concluem que por trás destas denúncias há uma pauta oculta neste feminismo. Será?

De que denúncias estarão falando? Não quiseram explicitar, o que me intrigou, uma vez que o PP não costuma ter medo de dar nome aos bois. Nem mesmo dos mais graúdos como o MST, ou o famigerado Fora do Eixo, quando eles foram os primeiros a denunciar a intenções mercantis do grupo na construção da marcha da liberdade em São Paulo. Como não sei do que eles estão falando, falo do que sei e do que se tornou público: o recente afastamento de um membro da organização anarquista Bandeira Negra que agrediu sua companheira e a expulsão do MPL-Curitiba do movimento nacional do Passe Livre, por razão deste não ter se posicionado em relação à denúncia de agressão cometida por um dos seus membros contra sua namorada. Embora eu fique triste em saber que casos como estes ocorram em espaços que me são tão próximos, fico satisfeita em ver que essas meninas encontraram força e espaço para fazerem suas denúncias e que, da melhor forma que puderam, os movimentos deram uma resposta a isso.

Lembro da primeira vez que um caso de violência se tornou público no Movimento Passe Livre. Era 2008 ou 2009, e o caso havia acontecido em São Paulo. Um pouco antes disso algumas militantes de Brasília haviam criado uma lista informal de e-mails: o MPL Mulheres. Nós precisávamos conversar e quando tudo veio à tona é claro que virou tema na lista. No começo foi confuso, algumas militantes questionavam uma lista só para mulheres, outras já queriam dali partir para algum posicionamento enquanto grupo de mulheres. Lembro que de maneira geral as militantes de Floripa defendiam um espaço de conversa e trocas de experiência, e que as propostas surgidas ali fossem levadas para os coletivos locais. Mas logo a lista mostrou sua importância, mais histórias de agressões foram surgindo do subterrâneo do MPL e encontravam ali um espaço para serem ouvidas e contadas.

O MPL Mulheres nunca virou comissão ou mesmo algo oficial dentro do movimento, como é comum existir em partidos políticos, na Via Campesina entre outros movimentos. E o que não vejo como necessariamente ruim. Nós também nunca usamos o espaço para decidirmos coisas pelo MPL como um todo. Acho que sempre funcionou mais como uma rede de solidariedade, quiçá de consulta entre companheiras de movimento. Mas sei lá, vai ver é porque não nos enquadramos nessa tendência excludente e maioritária na movimentação esquerdista em torno do feminismo. Por isso gostaria muito que o PP tivesse sido mais específico nesta análise. Também achei estranho eles não terem mencionados esses casos tão paradigmáticos em termos de denúncias de violência contra mulher dentro dos movimentos sociais autônomos.

São textos com muitos problemas estes do Passa Palavra. Deixaram a mim e muitas companheiras próximas desapontadas com o coletivo. O site do PP se tornou uma referência importante em debates sobre movimentos sociais e lutas anti-capitalistas. Eu gostava de acompanhar. No entanto, não é de hoje que considero que, enquanto coletivo, o Passa Palavra pouco tem contribuído para a reflexão acerca da luta das mulheres e mesmo das questões de gênero de um modo geral. Embora tenha publicado textos muito interessantes de indivíduos. O que não é um grande problema, afinal todo movimento e coletivo tem seus limites. E acredito que o PP fez alguma contribuição em apontar a necessidade de autocrítica dentro da esquerda. Mas é preciso dizer que seus textos sobre o feminismo excludente mais contribuíram para reforçar a desconfiança que grupos feministas têm em relação a uma certa esquerda que resiste em incorporar as pautas específicas das mulheres (ou dos negros, ou dos gays) sem subjugá-las às questões de classe.

Esta hierarquização permeia o texto PP. Ela fica clara quando comparamos o cuidado e rigor teórico despendido pelo coletivo em textos que dizem respeito às questões de classe, com desleixo e as vezes até deboche em relação a teoria feminista. Não fazem referências, nem discutem seriamente, mas podem afirmar que: “ Incapaz de justificar os seus pressupostos com a vasta historiografia existente, o feminismo recorre como autoridade única precisamente às historiadoras feministas, encerrando-se assim num círculo vicioso”.

Na minha opinião citar Solanas como referência para um feminismo, se não for má-fé ou pura provocação, é no mínimo uma ignorância atroz. A primeira vez que eu ouvi falar desta grande feminista foi num texto da blogueira Lola, “Pra quem não gosta, todo feminismo é radical”, que por sua vez conheceu a Solanas através do filme Um Tiro para Andy Warhol, e não, pasmem, numa formação feminista. Ela escreve: Os mascus, por exemplo, que têm como missão declarada destruir o feminismo, que tanto empobreceu as mulheres (eles gostariam de voltar à década de 1950), só conhecem uma feminista: Valerie Solanas”. Mascu para quem não sabe é um apelido divertido que ela colocou em homens machistas que se sentem oprimidos pelas conquistas sociais feministas e do movimento gay. Recomendo os textos da Lola que linkei acima, pois são muito divertidos. Tanto que num primeiro momento eu ri com essa lembrança, depois fiquei mal em ter, por um momento, aproximado pessoas que eu conheço no coletivo do PP à figura escabrosa do mascu.

Mas enfim, para resumir e finalizar, já que o PP não contribuiu muito no debate e reflexão sobre feminismo na esquerda (ou feminismo de esquerda, o feminismo canhoto como nós gostamos mais), resolvi finalmente postar este texto, que é tão sincero e sensível às dificuldades enfrentadas quando o assunto é violência contra mulher dentro dos movimentos sociais. Acredito que esta seja uma questão muito delicada, sem saída fácil, e que a maioria de nós gostaria de resolver sem recorrer às instituições punitivas que conhecemos. Porém, nesta busca não podemos punir a vítima. Culpabilização da vítima é uma dinâmica do machismo conhecida demais para cairmos neste erro. É preciso reconhecer que o afastamento de agressores do coletivo às vezes é a melhor saída para que ela possa permanecer e se sentir bem no movimento. É preciso reconhecer e fomentar espaços que permitam que se fale sobre as opressões reproduzidas dentro do coletivo, sejam elas em relação a cor, orientação sexual, gênero ou qualquer outra. Se em algum momento espaços restritos a determinado grupo é importante para criar essas condições, como acontece no relato que segue, isso precisa ser respeitado e não visto com desconfiança. Espero que gostem do texto e que ele nos ajude a fazer uma discussão mais saudável sobre o tema. Afinal, esta semana em São Paulo acontece o II Seminário Há Machismo na Esquerda? e eu pretendo participar.

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Compartilhando experiências com um comportamento violento – de que forma eu deveria fazer isso?

Já faz um ano que venho sofrendo com a pergunta: como compartilhar de um modo produtivo e sincero as minhas experiências e as experiências do meu coletivo em relação ao comportamento agressivo por parte de um militante?

Desde o dia em que aconteceu eu fiquei sem saber para quem contar, o que dizer ou como falar sobre aquilo. Tive dificuldade em articular para mim mesma o que havia acontecido. Levaram-me duas semanas para dizer a ele que o que havia feito me deixou desconfortável; um mês para parar de me culpar; seis meses para conceber que aquilo havia sido um assédio sexual.

Conversei muito com as pessoas enquanto passava por esse processo. Primeiro contei ao meu companheiro, procurando, sem sucesso, palavras para dar nome a minha experiência. Tudo o que eu conseguia fazer era descrever o que aconteceu: “Ele me serviu três taças de vinho, no sofá colocou suas pernas sobre mim, começou a acariciar minha mão…”

Quanto mais o tempo passava, mais nervosa eu ia ficando. Frequentemente ia embora das reuniões e evitava o agressor. Senti que precisava contar minha história para poder justificar o meu comportamento para os outros membros do grupo. Quando eu me aproximava de alguém individualmente para falar, eu contava com sua sensibilidade e com minhas descrições frias. Quatro meses e a única maneira que eu conseguia dividir minhas experiências era descrevendo de forma furtiva e amargurada o que acontecera para alguns amigos. Às vezes éramos os últimos a ir embora de uma festa, às vezes era um amigo me emprestando um livro. A única forma de aliviar minha raiva e frustração acontecia nessas pequenas oportunidades de compartilhar.

Ao contar para outras pessoas, ficou claro para mim que me faltava um vocabulário. Na época eu não encontrava palavras para falar do que estava acontecendo, e aqueles que me escutavam também não as tinham. As pessoas para quem eu contava ficaram confusas e magoadas, o que eles expressaram com silencio. Nosso grupo não tinha estrutura para compreender e confrontar um comportamento abusivo. Não havia espaço para minha experiência na linguagem do nosso grupo. Não havia espaço para nenhuma mulher ou homem que havia sofrido com outros comportamentos violentos desta pessoa. Enquanto indivíduos e enquanto organização ficamos paralisados, efetivamente silenciados por essa pessoa e pela falta de vocabulário e estrutura para entender nossas experiências.

Finalmente, uma mulher incrivelmente forte chamou uma reunião de emergência das mulheres do coletivo. Pela primeira vez nós compartilhamos nossas experiências umas com as outras sem precisar falar pelas costas, mas enquanto parte de um grupo. Juntas criamos o vocabulário que nos faltava para nomear nossas experiências enquanto o que são: agressão. Agressão física, emocional e sexual. Decidimos que enquanto grupo de doze mulheres iríamos exigir que o agressor deixasse a organização, ou a deixaríamos nós, para tornar o ambiente mais seguro para homens e mulheres do coletivo.

A partir daquele momento, a pergunta na minha cabeça não era mais: “como eu compartilho minha experiência com outras pessoas?”, mas: “como nós compartilhamos essas histórias com o grupo inteiro?”. Eu não sabia como meus amigos homens reagiriam a nossas histórias ou a nossa decisão. Como já disse antes, minha experiência em contar para os outros foi bem negativa. O silêncio dos meus amigos havia corroído boa parte da minha confiança no grupo, e eu estava com medo particularmente da sua reação em relação a nossa decisão de afastar essa pessoa. Tinha medo de que eles minimizassem nossas histórias ou que eles suspeitassem da nossa decisão. Nosso grupo já havia se divido de mutias formas por causa do comportamento do agressor. Parte de mim temia que as pessoas vissem a decisão como mais desagregadora, e não conciliadora.

Contar minha história para um grupo de vinte e duas pessoas foi uma experiência de mexer com os nervos, e muito diferente de falar para um grupo de mulheres ou a um amigo/a no final da noite. Foi difícil, mas me senti amparada pelo grupo de onze mulheres sentadas ao meu lado. A resposta da organização foi incrivelmente positiva, as pessoas corresponderam, foram solidárias e sensíveis. Saí da reunião com a confiança no meu coletivo renovada. Nunca havia me sentido tão inspirada pela ação coletiva, agindo como mulher, num grupo de mulheres para efetivamente fazer algo em relação ao patriarcado.

Entre as barreiras que dificultavam o compartilhar da minha história, havia uma particularmente escorregadia com a qual sofro até hoje. Eu não queria arruinar essa pessoa, e eu ainda não quero arruinar essa pessoa. Eu sabia que de muitas formas eu estaria ajudando a tomar uma decisão que poderia potencialmente isolar a prejudicar socialmente uma pessoa que costumava ser meu amigo. Uma pessoa de quem eu guardava mágoa, mas não odiava. Eu acredito em justiça retroativa, mas e se inadvertidamente o processo de justiça retroativa se transforma em punitiva? Essa pessoa fez muita merda. Falar disso e tornar isso conhecido deve ter sido uma experiência bem ruim para ele. As pessoas podem reagir se afastando dele, e ele não fará mais parte da organização. Essas coisas podem ser interpretadas por ele como punitivas, mas foram consequências de uma decisão tomada visando a segurança das mulheres e da organização. Eu não sei como reconciliar isso.

Na medida em que fui me envolvendo com o movimento nacional, tenho recorridamente me deparado com o tema. Eu deveria compartilhar informação que possivelmente pode fazer mais mal a essa pessoa? Eu não quero estragar as futuras relações dela, mas eu definitivamente não quero ser silenciada. Outro dia fiquei irritada com um comentário sobre assédio sexual dentro do coletivo. Não sabia se eu deveria falar para ela porque fiquei irritada, e pensei que se eu tivesse contado minha história antes de tudo, provavelmente ela não teria feito esse comentário. Novamente me senti insegura sobre como falar sobre minhas experiências de uma forma útil e justa.

Eu acho que o SDS (Estudantes por uma Sociedade Democrática) precisa se esforçar mais para criar um coletivo no qual histórias de assédio sexual e violência interpessoal possam ser compartilhadas. … eu ouvi muito no encontro nacional, acho que precisamos construir um comunidade de confiança para que de fato tenhamos uma espaço para conversar. Acho que precismos de um vocabulário para falar dessas experiências. E finalmente, eu adoraria que conversássemos sobre o ato de compartilharmos essas experiências. Espero que esse texto abra algum espaço para conversarmos sobre esse processo de sermos silenciadas/os e conseguirmos falar, sobre como proceder para que de fato nossas vozes sejam ouvidas e como criar um ambiente seguro e construtivo para compartilharmos nossas experiências.

Original em: http://sdswomynscaucus.wordpress.com/2009/07/23/sharing-experiences-of-abusive-behavior-how-the-hell-should-i-do-it/

Em tempo:

Caso alguém tenha ficado curiosa/o sobre o texto do Passa Palavra : http://passapalavra.info/2013/07/81401

Minha experiência no Ilú Obá de Min (subvertendo papéis de gênero no carnaval )

14 fev

Eita que faz um tempo que não contribuo com nosso blog! Como gosto de folia e de uma batucada, encontrei o tema perfeito para sanar essa dívida. Este ano tive a oportunidade e a alegria de tocar com o bloco afro Ilú Obá de Min (“mãos que tocam tambor para Xangô” em Iorubá). É lindo demais. Um verdadeiro espetáculo de dança e percussão que há sete anos toma as ruas de São Paulo durante carnaval, mantendo pulsante nossas heranças culturais afro-brasileiras. Uma particularidade do bloco é que a sua bateria é formada exclusivamente por mulheres. Homens também fazem parte do grupo e são muito bem-vindos na dança (para fazer um parêntese, adoro culturas em que os homens dançam, requebram, rebolam e não apenas conduzem suas parceiras. Homens são tão lindos quantos as mulheres dançando!). Para os desavisados isso pode até soar como uma inversão, pois o mais comum parece ser que os homens toquem e as mulheres dancem. Então … não é por acaso que a bateria do bloco é formada por mulheres! Suas fundadoras visavam sim o empoderamento das mulheres por meio do tambor. O bloco é uma das atividades da associação Ilú Obá de Min – Educação, Cultura e Arte Negra que nasce com o objetivo de preservar e divulgar a cultura afro-brasileira, e ao fazer isso buscam, uso aqui suas palavras, “abrir espaço para ideias que visem o fortalecimento individual e coletivo das mulheres na sociedade”. Neste sentido também organizam ciclos de palestras e debates com temas que contribuam com o combate ao racismo, o sexismo e todas as formas de discriminação.

Talvez alguns perguntem: mas por que só mulheres? Para mim, uma bateria só de mulheres é importante porque infelizmente os espaços de bateria, como tantos outros nesse mundo chato, costumam ser bastante machistas. De experiência própria, lembro de ser minoria na bateria da escola União da Ilha da Magia. Entre os coordenadores dos naipes (instrumentos) havia apenas uma mulher, nossa querida canhota Ana Terra, que manda ver na ala dos agogôs. Mestra de bateria, em escola de samba, eu desconheço. Fui dar uma pesquisada no grande oráculo e o Google “corrige” automaticamente para mestre. Até mesmo nos maracatus de Floripa, aonde a coisa já é bem mais equilibrada em termos de quantidade, não me lembro de ter visto uma mulher no apito. Bom, tirando pelo que se vê na televisão e nos destaques dos portais na internet, as mulheres do carnaval são as mulheres esculturais que adornam essa festa. Para mim, o Ilú é uma bela lembrança de que não só. Assim como os homens elas ocupam todos os espaços: bateria, coreografia, dança, canto, arranjo, composição. Pois assim fazem as mulheres do Ilú. E bem demais.

Para quem estiver pela terra da garoa no próximo carnaval, seria um grande vacilo perder. Esse ano mais de 8 mil acompanharam a saída do bloco, isso só na sexta-feira. Aquela noite, indo embora, ainda de figurino, muita gente sorriu pra mim, alguns até agradeceram, “mais um ano!” uma moça disse. Sinal que o trabalho dessa mulherada está consolidado e reconhecido. Eu que sou agradecida por poder tocar com elas. Logo abaixo, para mais informações, deixo os links para a página e Facebook do Ilú e um vídeo do carnaval de 2013.

Aproveitando o assunto, um outro fato me chamou atenção este ano no carnaval de São Paulo. Já que falávamos de homens que dançam, este ano, pela primeira vez no Grupo Especial das escolas de samba, uma escola trouxe um rei de bateria. Na verdade Daniel Manzioni desfila à frente da bateria da Acadêmicos de Tatuapé desde 2007, tudo indica que é o primeiro na história das passarelas. Acho que ele e a sua escola também contribuem para romper com esses papéis de gênero tão ultrapassados, porém arraigados no carnaval. Achei bonito. Uma pena foi a abordagem da mídia, as reportagens que vi logo tentaram transformá-lo num objeto sexual, como fazem com as mulheres, dando destaque para os procedimentos estéticos preparativos para o desfile. Pô, que saco isso! Mas encontrei uma matéria legal, de 2009, que dá destaque para o dançarino e para parceria com a escola que parece ter uma proposta um pouco mais progressista. Para quem se interessar eu deixo o link aí embaixo. Para mim, tudo isso se tornou ainda mais curioso porque fiz umas aulas de alongamento com o Daniel na academia aqui perto de casa, acho até que ele é um dos donos. Que coincidência, não?

Daniel Manzioni e Acadêmicos do Tatuapé
http://www.youtube.com/watch?v=-1sQtYNo0X0

Ilú Obá de Min

http://www.iluobademin.com.br

https://www.facebook.com/pages/Il%C3%BA-Ob%C3%A1-De-Min/125403590866610

O riso dos outros

23 dez

Mais de 6 meses sem atualização aqui é demais! Nossas “férias” acabaram.

Pra quem gosta de humor, ou pra quem detesta porque acha que tende a reproduzir estereótipos e reforçar preconceitos, esse documentário de Pedro Arantes, O riso dos outros, pode ajudar a pensar algumas coisas. Pelo menos que o humor não precisa sempre usar os estereótipos como muletas, mas talvez o mais interessante seja aprender a rir, a fazer piada das formas como estes mesmos estereótipos-muletas utilizados pelo humor mais comum se constituem.

Outro ponto interessante que é abordado é o do politicamente correto, e como a associação entre defesa de direitos e censura tem passado a impressão de que revolucionários são os que vem reproduzindo (e recriando!) tradições centenárias ou até milenares de exclusão, apontando estes como livres, símbolos da legítima liberdade de expressão, e quem busca a transformação como “careta”, polícia do politicamente correto ou o que for. É uma inversão torta e profundamente conservadora, que vemos o tempo inteiro e pouco se fala a respeito.

Vale ainda observar como mulheres podem ser sexistas, exemplos de negros reproduzindo o racismo nas piadas e homens brancos questionando o humor de forma séria, e buscando alternativas. Só pra pensar que algumas de nossas identidades são menos importante do que o que fazemos com elas, no final das contas.

23 dez

Sobre linguagem inclusiva

1 jun

Terminei de ler agora uma espécie de livreto do governo mexicano, realizado – me parece, não li essa parte com atenção – com o apoio do CEDAW (Committee on the Elimination of Discrimination against Women)/ONU, de 2009, e pelo que eu entendi revisado e distribuído pelo Consejo Nacional para Prevenir la Discriminación (CONAPRED) do México, intitulado 10 recomiendaciones para el uso no sexista del lenguaje. Não estou mesmo com vontade de reler essa parte para confirmar essas informações, mas elas estão ali.

O ponto que me interessa é que, apesar de toda discussão que pode gerar, achei este um documento bem interessante para se levantar o problema. A maior parte das questões gramaticais do espanhol nesse sentido são semelhantes ao português, o que torna o documento bem útil para nós. Achei especialmente interessante o fato de ao invés de se buscar trabalhar com a redefinição dos artigos “o” e “a”, naquela coisa de “@”, “x” (e até “e” ou “i” já vi serem discutidos), no geral são propostas formas de utilizar os recursos que a própria língua oferece. No caso do português considero isso especialmente positivo, pois assim podemos evitar uma linguagem inclusiva “mussumiana”, como por exemplo “caris amiguis”, que convenhamos, não contribuiria em nada para os chistes que em geral são utilizados para ridicularizar as feministas.

Isso tudo me lembrou algo que escrevi para o terceiro número d´O Independente em 2005, que reli hoje com certo embaraço. Não reescreveria nada daquilo daquele jeito. Mas bem, os textos são datados, e a discussão é a mesma. Apesar de que atualmente tenho minhas dificuldades em localizar as feministas estruturalistas que cito ali!! hehe

Pra quem tiver curiosidade, o livreto pode ser acessado aqui; e o meu texto absolutamente datado, aqui. Fiquei com a impressão de estar devendo um post mais básico sobre linguagem inclusiva, ou trazer algumas discussões do porquê determinados setores da mídia corporativa se negam a chamar a Dilma de presidenta, mas acho que esses pontos cabem em outro momento.

Até logo o/

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