Diário de uma mãe feminista

4 jul

Ilha de Santa Catarina, junho de 2010.

A Canhota – “Diário de uma mãe feminista”.

Dedico essa coluna a tod@s que acreditam que a mudança de comportamento acontece na própria casa, na esquina, na escola, no boteco. A todas as pessoas que tomam pra si a responsabilidade diária de questionar e reconstruir conceitos sociais. Gostaria de compartilhar com vocês, dúvidas, alegrias e frustrações relacionadas à rotina de uma grande responsabilidade: criar filhas ou filhos.

Pensando de uma maneira mais ou menos cronológica, lembro que o primeiro enfrentamento que tive foi ainda na maternidade. Por que furar as orelhas da minha filha? Pra quê? E principalmente, pra quem?

Não quero me estender aqui na questão histórica, mas acho inevitável fazer um breve resgate da utilização de trajes e ornamentos.

Além de seu papel óbvio, cobrir o corpo, as roupas sempre foram percebidas como ícones representativos, simbolizando castas, classes, hierarquias, cerimônias. Os ornamentos têm importância semelhante. Por milhares de anos foram usados como amuletos além da sua função imediata, a estética.

É sabido que não faltaram elementos opressores nesses vestuários, principalmente contra as mulheres, que deveriam permanecer omissas e muito bem comportadas. É verdade também que conquistas no comportamento feminino foram deixando para trás espartilhos, anquinhas estruturadas com ferro, penteados com quase um metro de altura, sapatos com plataformas esculturais ­- embora hoje ainda existam muitos elementos de questionável utilização, os brincos em recém-nascidas, por exemplo.

Por que afinal submeter as meninas a essa dor, mesmo que seja uma dor rápida? Por que as mães que sentem pena de vacinar são as primeiras a autorizar a colocação? O que está por trás desse “belo par de brincos”? Está a opressão, meninas que já nascem sujeitas a um padrão estético estabelecido, em uma sociedade que ainda teima em achar que a beleza feminina está diretamente ligada a sacrifícios físicos. Está por trás disso a arrogância materna em achar que tem totais direitos sobre a filha pelo simples fato de tê-la parido. Está por trás o autoritarismo em acabar com o direito de escolha.

Algumas pessoas devem estar pensando: “Mas ela pequena vai sofrer menos”. E fazer sofrer menos é melhor que simplesmente não fazer sofrer?

Outras devem pensar: “Mas quando ela crescer vai querer furar”. Ótimo! É esse o ponto. Quando ela crescer será avisada que dói um pouco e que poderá usar brincos que machucam ou não. E ela decidirá se tem ou não disponibilidade pra isso.

Para as mães que tem dúvidas, pensem em quantas vezes precisou tirar os brincos porque estavam incomodando. Pensem que as meninas sem brincos não ficam masculinizadas. Pensem que suas filhas não podem ser exibidas como troféus. Que você está pensando apenas em você mesma quando decide colocá-los. Pensem que, sem dúvidas, este é o primeiro ato de abuso de poder materno.

Essa foi a primeira postagem da coluna “Diário de uma mãe feminista”. Instinto materno, depressão pós-parto e legislação, serão alguns dos próximos temas abordados.

8 Respostas to “Diário de uma mãe feminista”

  1. Jaguarito 05/07/2010 às 12:28 #

    Assunto que deve ser levantado, principalmente para mães e pais de primeira viagem, pel@ pediatr@ escolhid@.

    Ao verem minha filha nos primeiros meses, hoje com 5 meses, as pessoas perguntavam se era menino ou menina justamente por não ter um diferencial: o brinco. Pra que? Pra quem?

    Hoje quem olha pra ela, sem brincos, não tem dúvida que é uma linda menina.

    Além do mais, isso é um bom link para a real necessidade das Vacinas e seu sofrimento, na maioria das vezes, totalmente desnecessário.

    recomendo a pequena e reflexiva leitura: Vacinar – Sim ou Não? – De Ulrich Koch e editado por Veronica Carstens – Editora Paulus

    parabéns pela coluna.

    beijoquinhas

  2. Ana Carol 07/07/2010 às 11:26 #

    Dá-lhe Ana Terra!

  3. Osvaldo Pomar 09/07/2010 às 09:30 #

    Uma pequena observação:
    faltou para a mãe feminista, lembrar que os pais também participam das
    decisões, assim como no caso do amigo Jaguarito aqui acima e muitos outros!
    Concordando com o texto anti-opressão.

    cordialmente,
    OP.

  4. floralorena 12/07/2010 às 09:48 #

    Massa Ana!!
    Vai ser legal quando a Carmen souber ler,
    ela vai poder comentar o nosso blog =)

  5. Janaina 13/07/2010 às 21:29 #

    To esperando o proximo artigo.. Adorei!
    beijo

  6. Ricardo Kempner 26/07/2010 às 23:59 #

    Muito bom Ana!!
    Me faz pensar em outra escolha que os pais tomam pelos filhos, religião. Por que batizar uma criança?
    Está ai outro assunto bom para discutir.
    Beijo grande!!!

  7. ieda moraes 12/03/2011 às 23:03 #

    Escreva +++++! Adorei o desenrrolar do contexto!

  8. André Guesser 12/07/2011 às 20:27 #

    Parabéns, Ana, que lindo o teu texto, bom de ler.
    Tem duas coisas bem definidas nisso tudo, cultura e estética. Nossa história é bem diferente da passada e hoje se pensa diferente de ontem e sempre será assim. É difícil julgar uma cultura sem fazer parte. Existem absurdos pra nós, que para alguns povos é normal e dizer o que?
    Acho que o brinco, o batom, é um problema estético, uma lavagem que as pessoas recebem diariamente e acabam virando vítimas sem saber, na grande maioria. É a tal estética e cultura de massa.
    Quanto as vacinas, Jaguarito, acho que algumas são fundamentais e só fazem bem, com provas científicas.
    Ana, esse papo de feminista…. sei lá, hun, meio preconceituoso, sei lá, sei lá.

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