Corpo, gênero e o feminino : Questões para pensar o tempo presente

9 abr

Eis um texto de Beatriz Albino escrito especialmente para um Ciranda da Palavra, outro projetinho do qual faço parte só que anda meio parado, que aconteceu 26 de março do ano passado. Para introduzir, um texto conjunto meu e do Léo, o mesmo da Rádio Campeche.

Mas se você não quiser baixar o texto da Beatriz, leia na integra em: http://cirandadapalavra.wordpress.com/2009/01/29/mulher-corpo-e-genero/

As imagens que seguem junto o corpo do texto são intervenções realizadas pelo coletivo argentino Mujeres Públicas (www.mujerespublicas.com.ar) intitulado Esta Belleza…

MULHER, CORPO E GÊNERO

“…Essa ciranda deve ir mais longe, pois afinal também é preciso pensar e construir uma outra sexualidade. Então estendendo-a para o nosso espaço virtual, convidamos Beatriz Albino (já quase mestre pela Educação Física na UFSC) a escrever sobre sua investigação acerca da politização do corpo das mulheres e sobre o seu trabalho em que analisou dois periódicos destinados ao público feminino: a Página Feminina, suplemento dominical do Dia e Noite, jornal publicado entre 1936 e 1941 em Santa Catarina e a mais conhecida, por que contemporânea, Revista Boa Foma. Alguns comentários poderiam ser feitos antes de adentrarmos ao texto propriamente dito. Surgem exatamente de sua leitura, e das possibilidades de articulação com outras produções intelectuais de relevância. O texto tem como mérito trazer elementos para refletirmos sobre como, no cotidiano mais corriqueiro das publicações voltadas para o feminino, insere-se um projeto homogêneo e normativo acerca do que é “ser mulher”, podendo-se então formular uma análise crítica sobre ele e buscar alternativas concretas para elaboração de outras relações de gênero e sexualidade.

Poderíamos começar a comentá-lo com uma primeira contribuição, colocada a partir do campo da crítica à sociedade de informação, seria buscar a inserção do conceito de espetáculo na construção do projeto discursivo do “ser mulher”. Formulado por Guy Debord no caldo do movimento situacionista surgido a partir de 1958 na França – movimento que, por sua vez, teve bastante influência nas idéias dos estudantes de 68 e nas vanguardas artísticas a partir dos anos 60 – o conceito retoma, entre outras, a idéia de alienação do trabalho instituída por Marx, trazendo-a para a segunda metade do século XX, onde o que abunda são imagens. Enquanto, para Marx, o trabalhador estaria separado tanto do produto do seu trabalho quanto do processo de produção em si, sem perceber que é peça chave no contexto, a humanidade contemporânea, para Debord, estaria separada do mundo real pelas imagens que os próprios humanos produzem deste mundo. Elas teriam agora força de verdade e de realidade, e seriam as principais mediadoras das relações sociais contemporâneas. Voltemos ao texto de Beatriz. Entre o suplemento d’”A Página”, de meados da década de 30, e a “Boa Forma” contemporânea, temos uma multiplicação brutal do espetáculo enquanto forma de relação social. O espetáculo enquanto conjunto de imagens produzidas pelo homem, mediadoras de seu contato com a realidade, parece cada vez mais onipresente e ter cada vez mais força de verdade. . .  Poder-se-ia concluir então que, ao seguir à risca as dietas com calorias contadas, o uso metódico de produtos de embelezamento e a prática precisa de técnicas de sedução e sexualização indicadas no receituário minucioso de Boa Forma, o que se alcança seria, antes de tudo, uma fórmula legitimada do “parecer mulher” no mundo contemporâneo?

Esta seria uma primeira, e ainda muito crua, indagação.

Outro ponto presente no texto é a noção de controle através da construção de uma noção detalhada e cientificamente legitimada do que é ser mulher. Resgatando a abordagem de Michel Foucault, a autora marca uma característica muito importante das relações contemporâneas de poder, no que o intelectual francês caracterizou enquanto “técnicas polimorfas”. Polimorfas por que o poder não é só aquele que diz “não”, marcado por uma perspectiva repressiva de interdição, silêncio, proibição. Embora isto exista, seria por demais unilateral distingui-lo apenas por isto. O poder que funciona é aquele que articula o absoluto “não” com uma imediata possibilidade de um “mas… quem sabe?”. Ou seja, por mais que seja consenso que nossa sociedade escancara e mercantiliza o sexo o tempo inteiro, continua-se dizendo que muito disto “é feio”, “uma vergonha”. Foucault então apresenta a outra cara destes mecanismos de controle, que assinalam teoricamente o que qualquer um de nós vive na prática, ao andar na rua, assistir Tv ou folhear as revistas, dando de cara com propagandas de cerveja ou carro, clipes de rap estadunidense ou de cosméticos em geral : “seja assim”, “haja de tal maneira que todos os homens\mulheres cairão aos seus pés”, etc. Ou seja, não é apenas reprimindo, mas incitando à ação. Mas não à ação capaz de dar início a algo novo, mas sim uma ação específica, repleta de prescrições já estabelecidas, que os sujeitos desempenham com saciedade.

Por último, vale lembrar que geralmente lemos revistas voltadas para públicos específicos (nos caso, mulheres – com suas “Donna DC”, “Ana Maria”, “Cláudia”, “Nova”, “Boa Forma” – e homens – “VIP”, “Playboy”, “Sexy”, etc. ) em momentos de tempo livre, ou seja, quando não estamos envolvidos com o mundo do trabalho assalariado. O espaço voltado para o lazer e a diversão, embora pareça muito separado do trabalho, é, pelo contrário, umbilicalmente ligado a ele, por representar no imaginário o tempo em que há alívio – para que o próximo dia de labuta seja tragável.

Além disso, é espaço de reprodução do capital e de obtenção de lucro cada vez mais relevante, pois é o momento em que todos podem se dedicar a consumir os cada vez mais variados artigos disponíveis. Neste momento também se faz mais efetiva a indústria da consciência materializada na publicidade, filmes, programas de TV, rádio, jornais, internet, etc. A influência que estes exercem sobre a formação de valores é inquestionável. Neles, como texto de Beatriz ajuda a compreender, estão muitos dos elementos para a construção dos papéis sexuais. O tempo livre é, então, um espaço-tempo de luta simbólica, de disputa acerca da construção de valores e modelos do humano.

Vale então recordar de um dos últimos textos de Adorno, cujo título é, exatamente, “Tempo Livre”, para pensarmos o que temos feito com ele: “A falta de fantasia, implantada e insistentemente recomendada pela sociedade, deixa as pessoas desamparadas em seu tempo livre. A pergunta descarada sobre o que o povo fará com todo o tempo livre de que hoje dispõe – como se esta fosse uma esmola e não um direito humano – baseia-se nisso. (…) sob as condições vigentes, seria inoportuno e insensato esperar ou exigir das pessoas que realizem algo produtivo em seu tempo livre, uma vez que se destruiu nelas justamente a produtividade, a capacidade criativa.”O espetáculo multiplicado, enfim, parece corroborar com a reflexão de Adorno há exatamente quatro décadas atrás. Em termos de relações de gênero, isto fica bem mais claro com a reflexão de Beatriz Albino.

Segue então o texto CORPO, GÊNERO E O FEMININO: QUESTÕES PARA PENSAR O TEMPO PRESENTE

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